sexta-feira, 8 de maio de 2026

71 - Cordeiro Verde - Missão "Novo Olhar" - O Cordeiro de Deus

 

71

Helias II contempla maravilhado a vista ilimitada que vem saudá-lo sorrateiramente com mãos aveludadas. À sua frente estende-se o Tórax, um conjunto de montes e vales que parecem não ter fim e que se perdem monótonos no horizonte incerto.

- São terras mágicas, – diz-lhe um gato sorridente, que está sentado num galho duma árvore com folhas azuis.

O monarca, agora sem reino, aproxima-se do animal e pergunta-lhe:

- Se as terras são mágicas, então os mágicos podem ser reis?

- Depende do tipo de mágico, – responde o felino, encostando-lhe os olhos à entrada da alma. - Qual é o teu nome ?

- Verdadeiro ou artístico?

- O de mágico.

- Zoroem!

- Zoroem, o príncipe do Coração. E o teu curriculum, qual é?

- Fiz magia para dois exércitos poderosos.

- Que tipo de magia?

- Fiz desaparecer répteis e tirei a cabeça ao meu colega Arphaxat.

- É pouco, muito pouco, não podes usufruir de vantagens nestas terras.

- Então, se fazer desaparecer répteis e tirar a cabeça a um colega é pouco, o que é para ti uma boa mágica?

- Vi uma vez um mágico mandar abrir um mar imenso, fazer passar uma multidão, e fechá-lo de seguida.

- Isso é demais!

- Precisas de treinar muito Helias II. Vai, segue o teu caminho, e não te esqueças que és apenas uma carta, de um jogo entre o Pai e o Filho contra o Espírito Santo. As cartas estão sendo lançadas ininterruptamente e quem ganhar conquistará Deus!

A planície é imensa, o céu parece ser mais azul e a vegetação rasteira divide o espaço com pequenas elevações rochosas. A “Carraça” avança lentamente, deixando atrás de si sulcos de ervas pisadas.

- Temos de parar, – informa John, tentando ignorar o silêncio pesado que o acompanha.

Sai do veículo e dirige-se a um dos montes. Descobre uma entrada e espreita.

- Clones!

Imóveis, dentro de uma sala, estão quatro indivíduos. Parecem estátuas, mas no entanto estão vivos.

- Estão à espera da vossa cópia, – diz-lhes John. - Então podem esperar sentados, pois eu sou o único que anda à procura do meu clone.

Aproxima-se um pouco mais de um deles e parece reconhecê-lo.

- Eu conheço-te...és...o monarca da cidade Tricúspica ! Vi-te muitas vezes nos jornais...o teu nome é...é...Helias II, é isso, és a imitação do Helias II. Oh meu caro amigo, tu podes esperar é deitado, porque Helias II deve estar neste momento a comer uma bela refeição no seu palácio.

Sai, tira uma lata de tinta do bolso e desenha uma cruz branca numa das paredes.

- Esta já foi vista, nunca mais volto aqui.

Ao sair olha para o horizonte e vê ao longe um vulto a aproximar-se, trazendo atrás de si uma mancha verde. Vai à “Carraça” e pega nos binóculos. Muda as lentes, faz a ligação ao amplificador de imagens e aponta para o desconhecido.

- Um pastor com cordeiros verdes?! Só me faltava isto!

- Bom-dia caro senhor, – cumprimenta o viajante.

- Já aqui?! Mas ainda agora estava tão longe?

- É tudo muito relativo, foi impressão sua.

- Impressão minha? Não, não estou maluco, você estava longe.

- Meu caro senhor, as terras do Abdómen são mágicas.

- Mágicas?!

- Sim, mágicas, aqui têm de acreditar em tudo o que vê e o que sente. Sei que vai ao Umbigo, por isso aconselho-o a ter muito cuidado. Lá os pensamentos são muito poderosos, a sua alma e o seu corpo devem estar muito unidos.

- E estes cordeiros verdes?

- Isto é uma reserva estratégica de Deus.

- Deus?! Reserva estratégica de Deus? Está a gozar comigo?

- Calma, tenha calma. Já ouviu falar do Cordeiro de Deus?

- Cordeiro de Deus?!

- Sim, o Cordeiro de Deus que tira os pecados do Mundo!

- Sempre ouvi falar dele nas missas, mas isso é simplesmente uma metáfora.

- Não, não é uma metáfora, o cordeiro de Deus é real, aliás, os cordeiros de Deus, que tiram os pecados, não do Mundo, mas dos milhares de mundos. E como a vida deles é limitada, têm de ser substituídos de vez enquanto. Eu tenho um contrato com Laputa.

- Laputa ? - Interrompe John.

- Laputa é a casa de Deus, é lá que Ele vive....Mas como estava a explicar, fiz um contrato com Laputa, em que me comprometi a fazer criação de cordeiros e em troca dá-me cinco anos de vida, de cada vez que forneço um animal.

- Cinco anos de vida?! E qual é a sua idade?

- Cem milhões de anos!

- Cem milhões de anos?! Mas isso é fantástico! Não quer um ajudante, dá-me meio ano em cada venda.

- O seu destino é outro, o senhor tem uma missão muito importante, vai pôr Deus em ordem!

- Pôr Deus em ordem? Não diga isso, é pecado.

- Pecado? Senhor John, no Universo não há pecados. “Pecado” é uma palavra inventada pelos poderosos para subjugar os pobres de espírito. Lamento não poder estar aqui mais tempo, o meu rebanho quando pára adormece e é dificílimo acordá-los. Senhor John, não perca mais tempo nesta zona, o seu clone está no fundo do Umbigo...

- No Umbigo? - Interrompe o cartógrafo.

- Bem no fundo do Umbigo, ele é o ponto final desta aventura.

- E falta muito para chegar a esse buraco?

- Não, é já ali, – e aponta. - Mas vai precisar da ajuda de alguém que há-de aparecer.

- Ajuda de alguém?! De quem?

- Os nomes não são necessários mencionar. O Umbigo é uma cratera cheia de energia cósmica, e para se entrar sem perigo, é necessário ter o apoio de alguém que consiga canalizar para si essa força, durante um certo tempo...Continue o seu caminho, isto é um jogo muito importante para Deus.

- Obrigado senhor...senhor...qual é o seu nome?

- Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua!

- Que raio de nome.

- Cada um tem o seu, mas deixe-me dizer-lhe que o senhor também tem um nome um pouco esquisito.

O diálogo acaba e o batalhão verde retorna ao seu lugar no horizonte, deslocando-se numa marcha, que parece ser lenta.

Helias II contempla a planície multicolor, semeada de pequenos montículos avermelhados e forrada por uma espessa vegetação.

- Estou perto, – diz para o seu amigo felino, que resolveu apanhar uma boleia, deitando-se em cima da sua cabeça. - Sinto-me perto do astronauta, ele está algures por aqui.

- Agora sim, já começas a falar como um mágico, mas o que ainda te falta são os olhos de um gato.

Descem a encosta, a inclinação aumenta, as pernas já não lhe obedecem, a velocidade ultrapassa os limites legais, ninguém os consegue parar. O monarca entra, descontrolado e a grande velocidade, numa gruta, que tem desenhado na parede exterior uma cruz branca. Na porta cruza-se com um vulto que sai apressadamente e ainda tem tempo de ouvir o gato a dizer-lhe:

- Não, não podes entrar aí, a tua imagem sai e....

Cai desamparado em cima duma cama, onde se encontra um homem a dormir profundamente, que acorda sobressaltado, sentando-se.

- Quem é que está aqui na minha cama? - Pergunta o engenheiro Paulo Prestes.

- Entrei numa gruta e depois cai aqui, – responde Helias II, tentando orientar-se na escuridão.

- Entrou numa gruta e caiu aqui?!

A luz acende-se e a enfermeira de serviço entra no quarto.

- Senhor Paulo Prestes, passa-se alguma coisa? - Pergunta, ao vê-lo de pé junto à cama.

- Este senhor atirou-se para cima de mim, – responde, apontando para o monarca.

- Senhor Paulo, neste quarto só estão duas pessoas, sou eu e é você, mais ninguém, – esclarece pacientemente a enfermeira. - Está a ter uma alucinação visual.

- Ouviu senhor engenheiro, eu sou uma alucinação visual, – diz o monarca, aproximando-se da enfermeira e cheirando-a. - Que belo perfume!

- Ele está a falar comigo!

- Senhor Paulo Prestes, é melhor acalmar e deitar-se, senão vou ter que chamar os meus colegas para lhe administrarem um calmante.

- Cala-te de uma vez por todas Paulo Prestes, – pede Helias, tapando-lhe a boca com uma mão.

- Tenha calma senhora enfermeira, eu deito-me e esqueço estas alucinações. Desculpe o incómodo.

- Estava a ver que ia complicar as coisas. O meu nome é Helias, Helias II.

- Helias II? O monarca tricúspico!? Mas o que é que o senhor está aqui a fazer?

- Caí aqui!

- Caiu?!

- Estava no Corpo-Dois, ia atrás do John Kovac’Olhões e quando descia por uma encosta, escorreguei e precipitei-me por ela abaixo, parando aqui, na tua cama.

- Falou do John, onde é que ele está?

- Não conseguiu passar, o clone não estava na vossa gruta.

- E os outros, a Rita e o Narciso?

- Passaram, estão algures neste planeta. Eu tenho de regressar, mas ainda não sei como. O John tem de ser ajudado para conseguir passar.

- Que planeta é este onde estou?

- Chama-se Terra, e está no centro do Universo.

- Como é que pensa sair daqui?

- Ainda não sei, ficou um gato no Corpo-Dois que talvez me ajude.

- Um gato?

- É uma história muito complicada, talvez amanhã fale consigo. Agora estou a precisar de descansar.

Numa cama do quarto número cinco do hospital de Highlands duas pessoas dormem profundamente, uma é visível, a outra invisível. A enfermeira Margarete entra pé ante pé, acende a lanterna e observa o seu paciente. Tinha vinte e dois anos quando acabou o curso e foi admitida na instituição. Um ano depois entrou o senhor Paulo Prestes num estado deplorável. Destacaram-na para o acompanhar e nunca mais o largou. Corria o ano de 1949, os médicos que o assistiram deram-lhe apenas um mês de vida. Não aceitou o prognóstico e lutou com todas as suas forças para salvar o paciente. Meio ano depois o seu amigo continuava vivo e de boa saúde, apesar de permanecer uma estátua. De noite lia-lhe sempre um livro, pois estava convicta de que ele se movia interiormente. Margarete regressa à realidade e sai silenciosamente do quarto.

Algures noutro espaço e noutro tempo, um gato tenta desesperadamente puxar um indivíduo para dentro de uma gruta.

- Tenho de o recuperar, o Pai e o Filho usaram uma carta tirada da manga e isso é batota. Eu, o Gato-do-Sorriso-de-Ouro, júri deste Jogo Universal, empossado pelo Tribunal de Laputa, vou repor a ordem, – e dá uma patada violenta, com as garras de fora, nas costas do infeliz que dorme a seus pés, aliás, patas.

- Ai! - Grita Helias II, saltando estremunhado da cama e correndo para a janela.

- Por pouco punha-te dentro da gruta, – diz o felino, vendo o clone junto da entrada. - Mas porque é que não entras?

- Helias, que grito foi esse? - Pergunta Paulo acendendo a luz.

- Arranharam-me as costas, - e mostra as marcas.

- Eu não fui!

- Tu?! Só alguém tem umas unhas destas, e esse alguém é o Gato-do-Sorriso-de-Ouro.

- Gato-do-Sorriso-de-Ouro ?

- Esquece, esquece, isto é tudo muito complicado.

 

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