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Helias II contempla maravilhado a vista ilimitada que vem saudá-lo sorrateiramente com mãos aveludadas. À sua frente estende-se o Tórax, um conjunto de montes e vales que parecem não ter fim e que se perdem monótonos no horizonte incerto.
- São terras mágicas, – diz-lhe um gato sorridente, que está sentado num galho duma árvore com folhas azuis.
O monarca, agora sem reino, aproxima-se do animal e pergunta-lhe:
- Se as terras são mágicas, então os mágicos podem ser reis?
- Depende do tipo de mágico, – responde o felino, encostando-lhe os olhos à entrada da alma. - Qual é o teu nome ?
- Verdadeiro ou artístico?
- O de mágico.
- Zoroem!
- Zoroem, o príncipe do Coração. E o teu curriculum, qual é?
- Fiz magia para dois exércitos poderosos.
- Que tipo de magia?
- Fiz desaparecer répteis e tirei a cabeça ao meu colega Arphaxat.
- É pouco, muito pouco, não podes usufruir de vantagens nestas terras.
- Então, se fazer desaparecer répteis e tirar a cabeça a um colega é pouco, o que é para ti uma boa mágica?
- Vi uma vez um mágico mandar abrir um mar imenso, fazer passar uma multidão, e fechá-lo de seguida.
- Isso é demais!
- Precisas de treinar muito Helias II. Vai, segue o teu caminho, e não te esqueças que és apenas uma carta, de um jogo entre o Pai e o Filho contra o Espírito Santo. As cartas estão sendo lançadas ininterruptamente e quem ganhar conquistará Deus!
A planície é imensa, o céu parece ser mais azul e a vegetação rasteira divide o espaço com pequenas elevações rochosas. A “Carraça” avança lentamente, deixando atrás de si sulcos de ervas pisadas.
- Temos de parar, – informa John, tentando ignorar o silêncio pesado que o acompanha.
Sai do veículo e dirige-se a um dos montes. Descobre uma entrada e espreita.
- Clones!
Imóveis, dentro de uma sala, estão quatro indivíduos. Parecem estátuas, mas no entanto estão vivos.
- Estão à espera da vossa cópia, – diz-lhes John. - Então podem esperar sentados, pois eu sou o único que anda à procura do meu clone.
Aproxima-se um pouco mais de um deles e parece reconhecê-lo.
- Eu conheço-te...és...o monarca da cidade Tricúspica ! Vi-te muitas vezes nos jornais...o teu nome é...é...Helias II, é isso, és a imitação do Helias II. Oh meu caro amigo, tu podes esperar é deitado, porque Helias II deve estar neste momento a comer uma bela refeição no seu palácio.
Sai, tira uma lata de tinta do bolso e desenha uma cruz branca numa das paredes.
- Esta já foi vista, nunca mais volto aqui.
Ao sair olha para o horizonte e vê ao longe um vulto a aproximar-se, trazendo atrás de si uma mancha verde. Vai à “Carraça” e pega nos binóculos. Muda as lentes, faz a ligação ao amplificador de imagens e aponta para o desconhecido.
- Um pastor com cordeiros verdes?! Só me faltava isto!
- Bom-dia caro senhor, – cumprimenta o viajante.
- Já aqui?! Mas ainda agora estava tão longe?
- É tudo muito relativo, foi impressão sua.
- Impressão minha? Não, não estou maluco, você estava longe.
- Meu caro senhor, as terras do Abdómen são mágicas.
- Mágicas?!
- Sim, mágicas, aqui têm de acreditar em tudo o que vê e o que sente. Sei que vai ao Umbigo, por isso aconselho-o a ter muito cuidado. Lá os pensamentos são muito poderosos, a sua alma e o seu corpo devem estar muito unidos.
- E estes cordeiros verdes?
- Isto é uma reserva estratégica de Deus.
- Deus?! Reserva estratégica de Deus? Está a gozar comigo?
- Calma, tenha calma. Já ouviu falar do Cordeiro de Deus?
- Cordeiro de Deus?!
- Sim, o Cordeiro de Deus que tira os pecados do Mundo!
- Sempre ouvi falar dele nas missas, mas isso é simplesmente uma metáfora.
- Não, não é uma metáfora, o cordeiro de Deus é real, aliás, os cordeiros de Deus, que tiram os pecados, não do Mundo, mas dos milhares de mundos. E como a vida deles é limitada, têm de ser substituídos de vez enquanto. Eu tenho um contrato com Laputa.
- Laputa ? - Interrompe John.
- Laputa é a casa de Deus, é lá que Ele vive....Mas como estava a explicar, fiz um contrato com Laputa, em que me comprometi a fazer criação de cordeiros e em troca dá-me cinco anos de vida, de cada vez que forneço um animal.
- Cinco anos de vida?! E qual é a sua idade?
- Cem milhões de anos!
- Cem milhões de anos?! Mas isso é fantástico! Não quer um ajudante, dá-me meio ano em cada venda.
- O seu destino é outro, o senhor tem uma missão muito importante, vai pôr Deus em ordem!
- Pôr Deus em ordem? Não diga isso, é pecado.
- Pecado? Senhor John, no Universo não há pecados. “Pecado” é uma palavra inventada pelos poderosos para subjugar os pobres de espírito. Lamento não poder estar aqui mais tempo, o meu rebanho quando pára adormece e é dificílimo acordá-los. Senhor John, não perca mais tempo nesta zona, o seu clone está no fundo do Umbigo...
- No Umbigo? - Interrompe o cartógrafo.
- Bem no fundo do Umbigo, ele é o ponto final desta aventura.
- E falta muito para chegar a esse buraco?
- Não, é já ali, – e aponta. - Mas vai precisar da ajuda de alguém que há-de aparecer.
- Ajuda de alguém?! De quem?
- Os nomes não são necessários mencionar. O Umbigo é uma cratera cheia de energia cósmica, e para se entrar sem perigo, é necessário ter o apoio de alguém que consiga canalizar para si essa força, durante um certo tempo...Continue o seu caminho, isto é um jogo muito importante para Deus.
- Obrigado senhor...senhor...qual é o seu nome?
- Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua!
- Que raio de nome.
- Cada um tem o seu, mas deixe-me dizer-lhe que o senhor também tem um nome um pouco esquisito.
O diálogo acaba e o batalhão verde retorna ao seu lugar no horizonte, deslocando-se numa marcha, que parece ser lenta.
Helias II contempla a planície multicolor, semeada de pequenos montículos avermelhados e forrada por uma espessa vegetação.
- Estou perto, – diz para o seu amigo felino, que resolveu apanhar uma boleia, deitando-se em cima da sua cabeça. - Sinto-me perto do astronauta, ele está algures por aqui.
- Agora sim, já começas a falar como um mágico, mas o que ainda te falta são os olhos de um gato.
Descem a encosta, a inclinação aumenta, as pernas já não lhe obedecem, a velocidade ultrapassa os limites legais, ninguém os consegue parar. O monarca entra, descontrolado e a grande velocidade, numa gruta, que tem desenhado na parede exterior uma cruz branca. Na porta cruza-se com um vulto que sai apressadamente e ainda tem tempo de ouvir o gato a dizer-lhe:
- Não, não podes entrar aí, a tua imagem sai e....
Cai desamparado em cima duma cama, onde se encontra um homem a dormir profundamente, que acorda sobressaltado, sentando-se.
- Quem é que está aqui na minha cama? - Pergunta o engenheiro Paulo Prestes.
- Entrei numa gruta e depois cai aqui, – responde Helias II, tentando orientar-se na escuridão.
- Entrou numa gruta e caiu aqui?!
A luz acende-se e a enfermeira de serviço entra no quarto.
- Senhor Paulo Prestes, passa-se alguma coisa? - Pergunta, ao vê-lo de pé junto à cama.
- Este senhor atirou-se para cima de mim, – responde, apontando para o monarca.
- Senhor Paulo, neste quarto só estão duas pessoas, sou eu e é você, mais ninguém, – esclarece pacientemente a enfermeira. - Está a ter uma alucinação visual.
- Ouviu senhor engenheiro, eu sou uma alucinação visual, – diz o monarca, aproximando-se da enfermeira e cheirando-a. - Que belo perfume!
- Ele está a falar comigo!
- Senhor Paulo Prestes, é melhor acalmar e deitar-se, senão vou ter que chamar os meus colegas para lhe administrarem um calmante.
- Cala-te de uma vez por todas Paulo Prestes, – pede Helias, tapando-lhe a boca com uma mão.
- Tenha calma senhora enfermeira, eu deito-me e esqueço estas alucinações. Desculpe o incómodo.
- Estava a ver que ia complicar as coisas. O meu nome é Helias, Helias II.
- Helias II? O monarca tricúspico!? Mas o que é que o senhor está aqui a fazer?
- Caí aqui!
- Caiu?!
- Estava no Corpo-Dois, ia atrás do John Kovac’Olhões e quando descia por uma encosta, escorreguei e precipitei-me por ela abaixo, parando aqui, na tua cama.
- Falou do John, onde é que ele está?
- Não conseguiu passar, o clone não estava na vossa gruta.
- E os outros, a Rita e o Narciso?
- Passaram, estão algures neste planeta. Eu tenho de regressar, mas ainda não sei como. O John tem de ser ajudado para conseguir passar.
- Que planeta é este onde estou?
- Chama-se Terra, e está no centro do Universo.
- Como é que pensa sair daqui?
- Ainda não sei, ficou um gato no Corpo-Dois que talvez me ajude.
- Um gato?
- É uma história muito complicada, talvez amanhã fale consigo. Agora estou a precisar de descansar.
Numa cama do quarto número cinco do hospital de Highlands duas pessoas dormem profundamente, uma é visível, a outra invisível. A enfermeira Margarete entra pé ante pé, acende a lanterna e observa o seu paciente. Tinha vinte e dois anos quando acabou o curso e foi admitida na instituição. Um ano depois entrou o senhor Paulo Prestes num estado deplorável. Destacaram-na para o acompanhar e nunca mais o largou. Corria o ano de 1949, os médicos que o assistiram deram-lhe apenas um mês de vida. Não aceitou o prognóstico e lutou com todas as suas forças para salvar o paciente. Meio ano depois o seu amigo continuava vivo e de boa saúde, apesar de permanecer uma estátua. De noite lia-lhe sempre um livro, pois estava convicta de que ele se movia interiormente. Margarete regressa à realidade e sai silenciosamente do quarto.
Algures noutro espaço e noutro tempo, um gato tenta desesperadamente puxar um indivíduo para dentro de uma gruta.
- Tenho de o recuperar, o Pai e o Filho usaram uma carta tirada da manga e isso é batota. Eu, o Gato-do-Sorriso-de-Ouro, júri deste Jogo Universal, empossado pelo Tribunal de Laputa, vou repor a ordem, – e dá uma patada violenta, com as garras de fora, nas costas do infeliz que dorme a seus pés, aliás, patas.
- Ai! - Grita Helias II, saltando estremunhado da cama e correndo para a janela.
- Por pouco punha-te dentro da gruta, – diz o felino, vendo o clone junto da entrada. - Mas porque é que não entras?
- Helias, que grito foi esse? - Pergunta Paulo acendendo a luz.
- Arranharam-me as costas, - e mostra as marcas.
- Eu não fui!
- Tu?! Só alguém tem umas unhas destas, e esse alguém é o Gato-do-Sorriso-de-Ouro.
- Gato-do-Sorriso-de-Ouro ?
- Esquece, esquece, isto é tudo muito complicado.

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