domingo, 3 de maio de 2026

52 - Cordeiro Verde - O Mundo de Lilith - Piolho Um - Descolagem

 

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A maior catedral do mundo ergue-se imponente no meio da capital do Cortex Occipital, Lóxis. A Confederação do Cérebro, que domina todo o Pólo Norte do Corpo, é constituída por quatro grandes países, interligados por fabulosas vias de comunicação, que permitem uma contínua troca de informações e produtos. Mas este extenso território está intimamente ligado aos senhores do Coração, pois necessita diariamente das grandes remessas sanguíneas enviadas por eles. Originariamente não passava de um vasto deserto, até à construção dos canais caratodianos que o abasteceram do líquido milagroso. A pouco e pouco os colonos foram chegando e acabaram por edificar o país mais evoluído do planeta. De Lóxis partem duas fabulosas linhas-férreas, os Nervos Ópticos, que fazem a ligação exclusiva aos mais potentes telescópios, os Olhos, cuja missão é observar o Universo. Os dados recolhidos até hoje são extremamente importantes para a espécie Memoh, e por isso têm-se mantido em segredo, só sendo do conhecimento de um grupo restrito de cientistas. A descoberta mais espantosa feita até agora foi a existência de outro planeta que regularmente se aproxima do Corpo. Devido às semelhanças entre os dois astros, baptizaram-no com o nome de Corpo-Dois. O Centro Espacial do Córtex Frontal prepara-se para enviar uma nave exploradora com uma equipa de astronautas. Segundo os físicos, o Corpo-Dois irá aproximar-se durante a noite mais longa, prevista para daqui a três dias. Os investigadores conseguiram descobrir que a aproximação mínima entre os dois planetas coincide sempre com erupções vulcânicas na montanha Péniana, situada na Federação dos Membros Inferiores. E foi precisamente o que os sismógrafos registaram neste país do Pólo Sul. O foguetão “Piolho-Um” está na rampa de lançamento, situada nas províncias montanhosas do Pavilhão Auricular Esquerdo, dando assim início à missão “Novo Olhar”.

Na estação ferroviária de Lóxis a azáfama é grande, a tripulação do Piolho-Um, constituída por dez elementos, acaba de entrar para o comboio. Os treinos foram muito duros, dois anos, setecentos e vinte dias, para uma missão de um mês. Segundos os cálculos, o lançamento terá lugar na próxima madrugada e a duração da viagem está calculada em quatro horas, se o Corpo-Dois mantiver a distância mínima. Os dados sobre este novo planeta não são abundantes, a sua trajectória é muito irregular, ora se afasta até se perder de vista, ora se aproxima, chegando a influenciar a actividade da crosta corporal. As características deste astro são idênticas às do Corpo, tudo indicando que há condições para a existência de vida. Os dados transmitidos pelos Olhos foram informatizados e os cartógrafos conseguiram elaborar um mapa fiel. A área chave desta missão situa-se no Cocuruto, o ponto mais elevado do Pólo Norte, que é onde o Piolho-Um irá poisar.

Há cinco anos atrás foi enviada uma sonda não tripulada, também um projecto conjunto cérebro-cardíaco, que acorporou numa grande cratera denominada Umbigo, mas poucos dias depois deixou de enviar informações. As poucas fotografias recebidas revelaram ser um território inóspito, muito acidentado. Umas formas simétricas numa das encostas, chamou a atenção dos cientistas e um mês depois enviaram outra sonda. Aconteceu o mesmo, tornaram a perder o contacto, havia algo que interferia e danificava os aparelhos.

Após a descida no Corpo-Dois, a tripulação irá dividir-se, ficando a equipa-um no módulo, tendo como tarefa coordenar o trabalho das outras e lançar um robot em direcção ao Umbigo, a equipa-dois irá utilizar um veículo todo-o-terreno, para cartografar o território central esquerdo, enquanto que a equipa-três terá como missão explorar o Pólo-Norte, também chamado Cabeça.

- Os últimos dados sobre as condições atmosféricas são muito animadores, – informa Rita Bouvalier, comandante e engenheira de voo, lendo o relatório que acaba de lhe ser entregue - O Piolho-Um está operacional, é chegar e partir.

- A visibilidade do Cocuruto é muito boa e a aproximação do Corpo-Dois está dentro dos parâmetros normais, – acrescenta o piloto Mac Macléu Ferreira, tendo na mão direita uma das fotografias tiradas pelo satélite. - Apesar de tudo, a ideia dos reservatórios de combustível extras é bem aceite, a alteração das trajetórias não é significativa.

Ao seu lado está o co-piloto Narciso Figueiredo Baeta, coronel do exército cardíaco, a ler com muita atenção as notícias acerca dos últimos tumultos ocorridos no seu país natal, a República do Estômago. A província autónoma do Antro exige agora a independência e ameaça recorrer novamente ao terrorismo, método que há dez anos atrás levou o país à beira da guerra civil. O acordo conseguido nessa altura enterrou provisoriamente o machado de guerra, mas as secas dos dois últimos anos levaram os antronianos a tomarem consciência de que estavam a trabalhar para o resto do país. Com o País do Antro o nível de vida crescerá vertiginosamente e ultrapassará rapidamente o Coração. O presidente da república, comandante supremo das forças armadas, decretou o estado de sítio e ordenou à Divisão dos Corvos para repor, pela força, a ordem. A província rebelde está agora cercada, todos os membros do seu governo foram detidos e a polícia antroniana desarmada. Foram detetadas movimentações de milícias populares que escaparam à operação.

- Preocupado com as notícias? - Pergunta a médica Maria Brocas, responsável pela saúde da tripulação.

- Qualquer dia o Corpo desmembra-se, há conflitos em todos os lados, – responde angustiado o coronel Baeta, lembrando-se dos familiares que ainda vivem no Estômago.

A conversa é interrompida por um forte abanão, seguido de um chiar ensurdecedor.

- Aí vamos nós, – diz o cartógrafo John Kovac’Olhões, olhando pela janela. - Talvez consigamos descobrir algo que traga a paz para a nossa espécie, que precisa de muito espaço vital.

Após duas horas de uma viagem que parecia interminável, o sono da tripulação é interrompido pela voz possante do navegador Alfredo Mávida:

- Piolho-Um à vista.

Todos se precipitam de imediato para as janelas. Numa clareira, iluminado por milhares de holofotes que o cercam, o imponente foguetão desafia o Céu, que o observa com inúmeras estrelas cintilantes. Algures no espaço sideral um outro planeta aproxima-se a grande velocidade do Corpo, cumprindo matematicamente a sua trajetória, definida há milhares de anos por Deus, e controlada desde aí pelo Seu Universo.

No Centro Espacial Auricular está tudo a postos. A ordem para se proceder ao enchimento dos quatro andares do Piolho-Um, já foi dada e os tripulantes estão a ser acomodados no módulo espacial. Os últimos testes aos pilotos automáticos, três robots do Modelo XT, não revelaram anomalias, os radares de orientação e busca já captaram o Corpo-Dois, a sua rota está em conformidade com os planos e a coordenação entre estes sistemas e os Olhos entrou na fase principal. Inicia-se a contagem decrescente, os técnicos cumprem os últimos procedimentos e os veículos de apoio à nave afastam-se. Por momentos o silêncio é total. Os astronautas dão uma última olhadela aos registos e preparam-se para a descolagem. Durante a próxima hora não vão poder interferir no voo, cabendo essa responsabilidade ao Centro Espacial. Quando os comandos passarem para Macléu Ferreira e Narciso Baeta, já os quatro andares do Piolho-Um ficaram pelo caminho, perdidos no espaço, ao sabor dos ventos cósmicos. Nessa altura o módulo já estará na rota certa e a tripulação fará uma verificação aos sistemas.

- Piolho-Um, aqui Centro Espacial, contagem decrescente na fase final, vinte, dezanove, dezoito,...

O piloto carrega no botão de ignição, a nave estremece.

- Dezassete, dezasseis, quinze, catorze, treze,...

Os registos cardíacos acusam um aumento da pulsação, os electro encefalogramas indicam grande atividade mental, talvez revisões rápidas da vida...

- Doze, onze, dez, nove, oito, sete...

Uma nuvem de fumo espesso envolve a torre de lançamento, o ruído é ensurdecedor...

- Seis, cinco, quatro, três, dois,...

A angústia e o terror apodera-se de todos, já nada pode voltar para trás, o copiloto acaba de carregar no último botão de confirmação do lançamento...

- Um, zero...

Ouve-se um estrondo, o foguetão começa a erguer-se lentamente, as duas torres caiem para os lados, a velocidade aumenta, o rasto de fumo organiza-se...

- O nosso passarão aí vai, é lindo, o espetáculo é majestoso - grita o coordenador principal do projecto, tirando os óculos escuros que o protegem.

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