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Écloga, a última esperança para o milhão e meio de espécies que coabitam com o Memoh, é uma organização ambientalista conhecida internacionalmente, temida pelos políticos e odiada pelos cientistas. Pretende a Igualdade, a Paz e a Justiça entre todos os seres vivos. Consideram os investigadores uma nova geração de torturadores, que só servem para sorverem os dinheiros públicos e para se deliciarem com a dor dos outros. O símbolo que decora a porta principal da Écloga é bem sugestivo: uma multidão de espécies a puxarem por uma corda que enforca um cientista, tendo escrito por debaixo da cena uma frase – “ Animais de todo o Corpo, uni-vos “. Há já cinco anos que a polícia monárquica tenta desvendar a origem de uma série de atentados bombistas contra laboratórios farmacêuticos e cosméticos, mas até agora não conseguiu obter qualquer tipo de informações. Nos meios científicos reina o pânico, chegando os jornais a afirmar que os cientistas andam mais escoltados do que o próprio rei. Sabe-se que há uma grande cumplicidade da maioria da população para com a Écloga. Os investigadores são mal vistos pelo povo, que os acusa de prepotência e arrogância, de não olharem a meios para atingirem os fins, e de as suas abomináveis ações serem sempre protegidas pelos políticos. Quando os órgãos de informação denunciaram terem sido feitas experiências em crianças com materiais radioativos, o governo interveio e em nome da segurança do estado proibiu que se falasse do assunto. Como resposta, um atentado de grandes dimensões abalou a capital do reino, Diástole, destruindo por completo os laboratórios militares, ao mesmo tempo que eram abatidos em vários pontos do país as pessoas que tinham estado diretamente ligadas ao projeto “ Coração Resguardado “. Os ataques foram reivindicados por um grupo terrorista desconhecido chamado “ Pus “, e a Écloga demarcou-se das ações, mas ninguém acreditou. O rei sabia que era tarde demais para dissolver a organização ambientalista, sem pôr em risco a segurança do país. Mais uma vez o projeto de criação de partidos políticos foi adiado, pois todos receavam que caso avançassem, a Écloga conquistaria o poder, levando ao fim do Estado monárquico e da cidade Tricúspica.
- Um dia os habitantes do Corpo hão-de compreender que Deus nos deu riquezas para serem divididas por todos nós, mas que um punhado de miseráveis se apoderou dessas dádivas e declarou possuir um cosmos privativo, – disse o presidente da Écloga a Helias II, durante as cerimónias fúnebres do seu antecessor, que só reinou um mês, mas fez estremecer os dois regimes.
Helias I, o “ monarca sorridente “, chegou ao poder da cidade sagrada Tricúspica depois de um longo reinado obscurantista. As suas primeiras palavras fizeram despertar os povos da letargia em que se encontravam:
- O Memoh vai ter de se reencontrar com os seus irmãos das outras espécies que com ele dividem o Corpo, a maior oferta de Deus. Só assim o Céu nos aceitará de volta, e haverá ordem, paz e harmonia entre todos.
O que é que quereria dizer com “ reencontro “? Que implicações teria para a milenária cidade Tricúspica e para os seus eternos segredos? Ninguém esperou pelas respostas, a decisão foi prontamente tomada pelos políticos do Coração e pelos cúmplices tricuspianos. Na noite do seu trigésimo dia de reinado deram-lhe um chá envenenado!
O tempo está ameno na majestosa Crossa da Aorta. O agente cardíaco Miguel Pheidão acaba de chegar de mais uma fantástica viagem, indo agora assistir ao colóquio na Écloga intitulado “ Para um novo Memoh “, da responsabilidade do padre Narciso. Detém-se junto da frondosa porta e observa, talvez pela primeira vez, o símbolo. No relvado que circunda o edifício, um rebanho de ovelhas pasta calmamente ao sabor da brisa que acaricia a planície.
- É o Pastor-Dáfnis, – explica o porteiro, depois de se ter apercebido do olhar curioso do forasteiro.
- Pastor-Dáfnis?
- É nome próprio e profissão, pasta qualquer tipo de rebanhos, mas agora foi-lhe confiada a missão mais importante, guardar o Cordeiro de Deus.
- O Cordeiro de Deus!??
- Está a ver aquele pequerrucho verde cheio de lã?
Não há dúvida, o cordeiro verde destaca-se perfeitamente no meio das centenas de animais brancos.
- Mas como é que sabem que é o Cordeiro de Deus? - Pergunta intrigado Miguel Pheidão, tirando dum dos bolsos da camisa um bloco de apontamentos e carregando a caneta.
- O Pastor-Dáfnis contou-nos ter encontrado Deus quando estava no monte a pastar bebés, e Este lhe pediu para guardar o cordeiro por uns tempos. O senhor padre soube do acontecimento e prontificou-se a ajudá-lo, dando-lhe autorização para utilizar o relvado como pastagem.
- É politicamente importante a Écloga ser a responsável pela guarda e proteção de um símbolo tão importante de Deus, – diz alguém, interferindo no diálogo.
- Padre Narciso – informa o porteiro.
- Pode ir senhor Virgílio-Porteiro, eu fico com o senhor...
- Miguel Pheidão!
- Miguel Pheidão, o agente cardíaco que veio encontrar-se comigo.
- Cancro, o senhor padre Narciso é o representante do Cancro!?? O seu nome não me é estranho.
- O vosso serviço deve ter os nomes de quase toda a população do Coração.
- Não, não é dos ficheiros, nós já nos vimos em algum lugar!
- O meu nome e a minha alma já estiveram em muitos tempos e lugares. Sou como aquele milenário cordeiro, um cidadão do Universo que procura a Paz, a Justiça e a Igualdade entre todos os seres, porque só assim é que poderemos ter esperança na continuidade de Deus...
- A sua Paz e Justiça são um pouco estranhas, – interrompe o agente cardíaco sem tirar os olhos do Cordeiro de Deus.
- São palavras puras, feitas de atos impuros, mas é assim que Deus pensa. Veja, deixou o Seu bem mais cobiçado, o cordeiro verde, ao Pastor-Dáfnis, um bruxo heterossexual que ama os horrores da guerra, em vez de o guardar na cidade sagrada Tricúspica.
- Mas esse cordeiro é verdadeiro?
- É talvez a única verdade em que eu acredito!
- Então isto é um assunto do estado cardíaco, o governo e o rei devem saber, devem ser eles a proteger o animal.
- O seu rei já há muito tempo que deve saber e os tricúspianos também, mas são suficientemente espertos para não interferirem nos desígnios de Deus. Deixe o Pastor -Dáfnis ganhar o dinheiro extra, que ele bem precisa para poder alimentar os seus grandes vícios.
Por momentos o silêncio cobre os dois memoh que olham fascinados para o cordeiro de Deus.
- Numa coisa somos parecidos, estamos ambos maravilhados com o animal, – diz o padre Narciso, puxando o agente por um braço. - Vamos sentar-nos naquele banco para continuarmos a falar dos nossos assuntos.
- Quais são os interesses, a curto prazo, do Cancro? - Pergunta de imediato o agente cardíaco, sem tirar os olhos do animal verde.
- A República do Estômago!
- A República do Estômago?! Meu Deus, o Juízo Final aproxima-se. Vocês querem a República do Estômago? - Miguel Pheidão levanta-se, dá duas voltas no relvado e vira-se novamente para o padre Narciso. – Vocês sabem o que estão a pedir? É impossível, assim não vamos conseguir chegar a algum acordo.
- Calma, não tire conclusões precipitadas, o assunto não é assim tão grave. Sabia que o Coração descobriu outros Corpos?
- Outros Corpos?
- Mais precisamente dois Corpos, o Coração descobriu dois planetas iguais ao nosso, o Observatório Cerebral, os Olhos, fez essa descoberta. E estão perto, há momentos em que se tocam! A vossa tecnologia permite-vos ir até eles.
- É impossível, se isso fosse verdade já me tinham dito. Está a querer-me baralhar, são esses os métodos que vocês usam para desestabilizar os povos.
- Antes fosse isso! Mas desta vez o assunto é mais grave, o estado cardíaco está a esconder informações que pertencem a todos. Há vida extra corporal!
- Como é que vocês descobriram essa informação?
- O Cancro sabe muitas coisas e está com capacidade para começar a divulgá-las. É capaz de imaginar o efeito que irão causar?
- É a destruição de todos, a integridade do Corpo ficará posta em causa, nenhum de nós ganhará com isso. A República do Estômago, vocês querem-na desestabilizar?
- Imagine se os povos descobrirem que a cidade Tricúspica é a maior fraude, que o deus deles está embalsamado.
- Deus embalsamado?!
- As respostas estão todas nos Olhos e nós queremos partilhá-las. Há quanto tempo é que o Coração sabe da existência desses Corpos? Informe-se e entre depois em contacto connosco.
A conversa acaba e os dois lançam um último olhar ao cordeiro de Deus. O agente cardíaco Miguel Pheidão permanece sentado, observando o padre Narciso, que se embrenha lentamente nas entranhas da Écloga, sem deixar de enviar um último adeus ao seu adversário.
Outros Corpos? Se existem mais planetas com as características deste, então também haverá vida, outras ideias, talvez melhores ideias, mas porquê esconder? Deus disse, ou melhor, disseram que Ele disse, ao Memoh, para partilhar e não para esconder, porquê, porquê todos estes enigmas, porquê não informar a espécie desta novidade que talvez ainda a possa salvar da destruição?

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