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A noite chegou calmamente e o dia tornou-se artificial. O tempo está ameno e a população da aldeia Mais Alta juntou-se na rua aos inúmeros peregrinos. A Catedral do Céu está com as luzes acesas, roubando às trevas parte da região. Miguel Pheidão janta pensativamente numa das centenas de esplanadas, tendo como companhia uma montra atestada de santos multicolores.
- Conheça a vida íntima do Santo Octávio, – grita um homem de meia-idade, furando a multidão que desliza em sentido contrário.
Por momentos o agente monárquico fixa a cara do vendedor, mas depressa retorna à leitura do jornal. Fica a saber que há graves problemas na República do Baço, o poder caiu na rua, o governo e o presidente fugiram para a Federação dos Rins e as forças armadas dividiram-se. Aliá, a grande capital, está a ser saqueada e nenhum país quer intervir. Pensa-se que o Cancro está por detrás da agitação e que ajuda o grupo de libertação Pus. A população foge em debandada, mas todas as fronteiras estão bloqueadas.
- Conheça a vida íntima do Santo Octávio, – grita de novo o vendedor, vindo agora ao sabor da corrente.
Aproxima-se do restaurante e pergunta ao agente Pheidão:
- Caro senhor, o que pensa do santo desta terra?
- Li muito pouco acerca dele, mas parece ser um bom negócio para a aldeia.
- O senhor vem aqui por causa do santo?
- Não, vim por outras razões, mas estou a começar a gostar do ambiente. Nestas festas religiosas há sempre muita boa comida. Quanto custa?
- Tome, não precisa de pagar, – e entrega-lhe um exemplar, embrenhando-se de seguida na multidão.
Do outro lado da avenida um estranho casal delicia-se com apetitosas carícias. Ela está sentada, tem os braços levantados, abanando-os freneticamente, a boca aberta lança para o ar ruídos semiescos, ao mesmo tempo que revira ininterruptamente os olhos. A roupa curta põe à mostra uma pelagem abundante, que parece cobrir todo o corpo. O macho observa com carinho a expressão corporal da amada, toca-lhe na cabeça e esta tenta agarrá-lo de imediato. Consegue fazê-lo e este deita-se no banco com a barriga para cima, descansando a cabeça no seu colo. De imediato a namorada põe-lhe as mãos na cara e tenta agarrar-lhe os olhos, que são fechados com rapidez. Os dedos da rapariga dão de caras com os orifícios do longo apêndice nasal e embrenham-se sofregamente por ele acima. Os lábios do macho afastam-se de imediato e os olhos abrem-se, em sinal de prazer profundo. Logo de seguida uma das mãos descai levemente e penetra com ganância na boca do namorado, tentando pescar-lhe a língua. Dá-se início a um jogo frenético, em que uma mão feminina tenta agarrar uma língua masculina em fuga, acompanhada com gritos de paixão alucinantes, num tempo que é só deles e num espaço do tamanho de um banco de jardim, fazendo coro com centenas de pardais, que esvoaçam por cima das cabeças, e que ocupam sem cerimónia todo o ar das esplanadas. A relação acaba abruptamente, com o rapaz a lançar-se para o chão em êxtase total.
- Coitados dos pobres de espírito, pois deles também não será o reino dos céus, – grita alguém em cima de um chafariz, convidando a população para um debate.
- Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua! - Exclama Miguel Pheidão.
- Conheça a vida íntima do Santo Octávio.
- Tens fotografias do santo em cuecas? - Pergunta o mais famoso motorista, sendo acompanhado com gritos estridentes.
- O teu sarcasmo é sinal de que nada esperas do futuro, és prisioneiro num mundo que está constantemente a desaparecer e até o teu passado se altera com os dias, – responde- lhe o vendedor, apontando um punho ameaçador.
- Prefiro viver alegremente o presente e não prescindo das minhas origens primitivas, pois isso é sinal de que também faço parte da terra. E tu, ó mercador de almas, tens medo de quê? Eu sei que do futuro tudo temes, é por isso que tentas agradar aos céus, para ver se te arranjam um lugar. Tens medo do pó e queres esquecer-te que foi de lá que vieste.
- Tu estás condenado a ter o mesmo futuro que eu, é esse o teu pesadelo, a tua alma estremece ao ouvir que os santos também usam cuecas. O senhor Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua também poderá vir a ser um santo, e é esse o teu medo, tens pavor que eu daqui a uns anos também venda revistas acerca da tua vida íntima.
- Cala-te, não digas blasfémias terroristas, tu queres é acelerar o nosso destino, para poderes ir mais depressa para junto dos teus santos eunucos.
- Eunucos!?? Fica sabendo que os santos são os seres mais férteis do Universo, são os únicos capazes de se cruzarem com as outras espécies.
- Então o Santo Octávio tem filhos escaravelhos? - Pergunta com escárnio o Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua (como exige ser chamado!).
- A essa curiosidade não te satisfaço, tens de me comprar um livro para saberes.
- Malditos judeus, até aqui neste recanto escondido do Universo vocês existem. Este é que é o maior castigo de Deus!... Convenceste-me, quero um desses livros – diz o mais célebre motorista orador, descendo do púlpito e agarrando sofregamente “ A vida íntima do Santo Octávio “.
- Eu também quero uma - pede Miguel Pheidão aproximando-se do vendedor e tocando-lhe num ombro.
- Até que enfim que se decide a falar comigo, vim à aldeia Mais-Alta para trocarmos impressões acerca do futuro do Corpo.
- Cancro? O senhor é o representante?
- Em carne e osso, mas já com a alma um pouco distante, – diz, puxando o agente cardíaco para a esplanada.
- Então passou várias vezes por mim e não me disse nada!!?
- A abordagem tinha de ser feita por si, tinha de haver algo que nos aproximasse.
- Por mim? Mas eu nunca o tinha visto, como é que podia ir ter consigo?
- Vai descobrir muitas mais afinidades no Cancro do que as que pensa que tem pelo Coração! As almas conhecem-se em todos os sítios, os empecilhos são os nossos corpos.
- É esse o vosso lema, matar os corpos para libertar as almas?
- Mais ou menos, mas não podemos esquecer que para o trabalho ser perfeito o Tempo tem de ser ignorado.
- Mas porquê destruir tudo, aniquilar, vocês matam mulheres, crianças e velhos, muitos deles indefesos. Isso é cobardia – reclama o agente cardíaco Miguel Pheidão, agarrando com força nas mãos do seu interlocutor.
- As sociedades atingiram um estádio sem retorno, a nossa espécie está em declínio, daqui a dois séculos estaremos irremediavelmente perdidos. Essas crianças, esses velhos e essas mulheres indefesas que mencionaste não passam de farrapos sem qualidade de vida, que unicamente servem para os vossos políticos verterem lágrimas de crocodilo e depois os arrumarem em depósitos. A morte é a sua libertação, e o desejo de Deus, poupamos-lhes o sofrimento e poupamos o dinheiro do Estado.
- Vocês querem fazer o Memoh retroceder às suas origens primitivas, em que os mais fracos são aniquilados.
- A espécie que tentar sobrepor-se às leis de Deus e do Seu Universo, estará irremediavelmente perdida. Nós somos a reserva estratégica do Memoh, connosco ele sobreviverá e conservará o seu lugar no Corpo.
- O vosso trabalho na Federação dos Membros Inferiores está à vista, as áreas que vocês declararam terem “libertado”, vivem agora num estado de terror, as populações são violentadas e aniquiladas.
- Ainda não te apercebeste que os teus chefes manipulam constantemente a informação e só deixam passar aquilo que querem. Isso é que é violação!
- Mas os factos são visíveis, vocês assassinaram milhares de indivíduos.
- O que é que tu preconizas quando os teus porcos ficam doentes devido a uma doença contagiosa? - Pergunta o representante do Cancro, interrompendo o agente cardíaco Miguel Pheidão.
- Os meus porcos? Mas eu não tenho porcos.
- Não interessa, é só uma ideia, não tens tu, mas tem o teu vizinho. O que é que preconizas para erradicar a doença?
- O abate, é o que se faz para parar a doença!
- É isso o que nós fazemos, o Memoh é o responsável pela transmissão de doenças gravíssimas, e se essa lei se estender a ele, em pouco tempo resolver-se-ão a maior parte dos problemas. Com estas medidas conseguimos erradicar a Adis dos territórios que conquistámos.
- E os intelectuais, vocês mataram-nos todos!
- São os seres mais nocivos, os intelectuais sempre se consideraram acima do povo, fizeram as leis à sua medida e perpetuaram-se no poder. As suas verdades são as piores mentiras, já conduziram os povos às mais infâmes barbaridades, por isso a sua recuperação não é viável, devem ser banidos. O nosso povo irá regressar à harmonia com a Natureza e com Deus.
- E as famílias, vocês preconizam a destruição da família, – diz Miguel Pheidão já um pouco exaltado.
- O teu regime manipulou-te a verdade, essa informação não é correta. A família está agora ao nível da tribo para não haver influências nocivas nos membros mais novos, para assim se evitar o aparecimento de indivíduos inúteis à sociedade. Nas vossas cidades existem milhares de famílias em que os pais, os responsáveis pela formação dos filhos, não passam de bêbados, drogados, autênticos selvagens que nem o instinto paternal, comum a todas as outras espécies, possuem, e não fazem mais do que os formarem à sua imagem. E o que é que vocês lhes fazem? Nada, refugiando-se nos direitos deles dão-lhes tudo e não lhes exigem nada. Por detrás dessas ideias quem é que está? O reles intelectual e o corrupto político, – explica o representante do Cancro, mostrando toda a sua convicção no tom das palavras.
- Pode haver muitas verdades em tudo o que dizes, mas no meio desse turbilhão de ideias de certeza que morreram e morrerão muitos inocentes.
- A salvação do Memoh implica sacrifícios, assim como as vossas revoluções destruíram povos e impérios. Até Deus cometeu genocídios em nome das Suas verdades!
- Apesar de tudo o nosso sistema continua a ser o melhor, atingimos níveis superiores de desenvolvimento.
- O nosso encontro não é para expor ideias, mas para falar de política. Que preocupação tem o poderoso Coração para mandar um agente encontrar-se com um representante dos terroristas das terras baixas?
- Espaço vital, interesses...
- Interesses, sempre os interesses a sobreporem-se às ideias. Afinal o Cancro já está a perturbar o Coração e nós a pensarmos que a Federação dos Membros Inferiores era dispensável.
- Se os vossos objetivos se limitassem a essas regiões e não extravasassem as fronteiras, nós não interferíamos. Mas foram detetados e aniquilados grupos terroristas no Império do Cérebro, – o agente cardíaco tira duma pasta uma fotografia e coloca-a em cima da mesa. - Conhece?
O interlocutor vira-a para si e lê em voz alta uma inscrição na parede fotografada:
- “ Tudo é pecado, sofrimento e morte – Racionalismo para todos – EU “
- Conhece esta frase e quem é o “ EU “?
- Ambos conhecemos o grupo de libertação que atua na Federação do Córtex Occipital. Essa frase foi escrita numa parede da cidade imperial Lóxis. O Coração estranhamente interveio com os grupos de elite, os Antibióticos.
- Foi o governo imperial que nos pediu!
- Governo!?? Nós sabemos que o Império do Cérebro não tem rei, nem governo, são vocês que o dirigem, aliás, vocês comandam quase todo o Corpo. Só a Monarquia Renal e a República dos Pulmões é que vos fazem sombra.
- Estou a ver que estão bem informados – diz com admiração o agente Miguel Pheidão, ao mesmo tempo que faz sinal ao empregado para lhe trazer uma cerveja.
- Sabemos tudo a vosso respeito, é por isso que vamos impor condições.
- Condições!??
- Queremos atuar para além da Federação dos Membros Inferiores, – responde com convicção o representante do Cancro.
- Vou transmitir essas informações aos meus superiores.
- O nosso próximo encontro será daqui a uma semana no Organon, até lá continuamos!
Levantam-se em simultâneo, trocam um seco cumprimento e desaparecem na multidão.
Durante toda a viagem de regresso, acompanhada de pequenas pausas para as habituais reflexões do motorista Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua, o agente Miguel Pheidão fez uma retrospetiva da sua missão. O Cancro parecia estar muito bem informado acerca das operações especiais do seu departamento, aliás o representante devia saber muito mais. Irá revelar-lhe coisas que nem ele, um fiel servo de sua majestade D. Sístole II, sabe? E que consequências terão essas verdades na sua futura conduta? Estremece, estremece de terror, será o fim da sua fidelidade? Terá o governo cardíaco manipulado a informação?

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