sexta-feira, 22 de maio de 2026

170 - O Bisneto do Padre Joaquim - Dia 4 - 21 de novembro de 1949 (segunda - feira) - Barba e Cabelo

 

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- Queres ir à cidade?

- Claro avô, tenho muita curiosidade em andar no famoso Ford Gordini.

- Famoso?

- O meu pai falou nele várias vezes.

- No teu tempo os carros já voam?

- Ainda não, mas não falta muito. No concelho onde vivo o presidente da câmara já vai construir um edifício para os estacionar. São táxis drones!

- Táxis drones?

- Veículos pilotados automaticamente para transporte público. Mas a moda agora são carros elétricos.

 Carros elétricos? Sem precisarem de gasolina?

- Sim!

- A eletricidade ainda não chegou aqui!

- A avó irá pagar o ramal em 1969 para haver eletricidade na Quinta de Palmazões.

- 1969? Daqui a vinte anos? Meu Deus! Vamos lá à Barbearia Central.

Entraram num carro preto de quatro portas, o avô rodou a chave e o motor começou a roncar.

- Parece o Dakota onde o meu pai teve de fazer as horas de voo na Ilha Terceira quando era comandante da zona aérea dos Açores.

- Muito me contas sobre o Jorge, vai longe na carreira.

O trajeto da estrada até Amarante era parecido com o do tempo do Miguel, mas em terra batida cheia de buracos, em vez de alcatrão, e com muitos peões a deslocarem-se nas bermas, e carroças de bois a circularem na via. O barulho da buzina foi uma constante, as pessoas paravam para cumprimentarem o “senhor doutor” tirando o chapéu. Até lá cruzaram-se unicamente com três automóveis, e a viajem demorou quarenta e cinco minutos. O hóspede aproveitou para filmar a aventura. Pararam no largo Conselheiro António Cândido.

- Esta estátua continua no mesmo lugar, - disse o Miguel.

- Dei o mesmo nome ao teu tio, Deus o tenha!

- Li um manuscrito com o título de “Águia do Marão” escrito pelo avô.

- Sabes quem é que deu esse nome ao conselheiro?

- Não!

- O Camilo Castelo Branco. E os jornais chamavam-lhe o “Boca d’ Oiro”.

- Vamos tirar uma selfie com o “Boca d’Oiro”!

A cena de dois homens de idade não passou despercebida aos olhares dos curiosos, era estranho aquele ritual com duas pessoas de costas para uma estátua, um desconhecido de cabelo grisalho e o “senhor doutor”, um homem com uma barba hirsuta pouco cuidada, capote com nódoas, botões de colarinho desbotados, de olhar doce e melancólico, que revelava fadiga, ambos a olharem para um espelho na mão do primeiro, com o braço em extensão acimas das caras.

- Isto tudo é uma loucura Miguel, e há de acabar um dia!

Quando se dirigiam para a “Barbearia Central” foram abordados por um homem bem-posto, camisa branca, fato e gravata de riscas brancas oblíquas, olhos claros, risco ao meio, 1,66m, com uma capa aos ombros.

- Bom dia senhor Doutor, desculpe incomodá-lo, mas não sei a quem mais recorrer.

- És o filho da Guilhermina da Toca Comprida?

- Sim senhor doutor, sou o Prudêncio.

- Irmão do Jacinto que morreu na epidemia da febre tifoide na Teixeira. A tua mãe como está?

- Sente-se fraca, mas não consegue um atestado para uma consulta gratuita. Pensei que o senhor Doutor como Subdelegado de Saúde conseguisse ajudá-la.

- Prudêncio tu sabes que é o presidente da Junta que passa os atestados de pobreza, ele é que vos conhece.

- Eu sei, mas quando vi o Joaquim Fernandes com um, ia-me passando, ele é um capitalista, tem tantos porcos.

- Essa é que é a doença do país, a aldrabice e a cunha. O presidente deve ter a casa cheia de presuntos. Vou ver o que posso fazer por ti, conheço as vossas dificuldades, que se agravaram com a morte do teu pai.

Quando entraram na barbearia a porta fez tocar um sino, Miguel ouviu o som das tesouras e navalhas, misturadas com o burburinho de conversas animadas e risadas dos clientes. Ali a barba fazia-se a pincél, creme e navalha, ao som fanhoso de uma telefonia. Sentiu o aroma a sabão de barbear e a loções que não conseguiu identificar. As prateleiras estavam repletas de produtos, desde cremes e pós, até pentes requintados.

- Boa tarde meus senhores, - cumprimentou o dr. Mário de Miranda, que parecia estar sempre com pressa, tirando um relógio que estava arrumado no bolso do casaco, preso por uma corrente, vendo as horas. - São10 horas e 45 minutos!

Miguel confirmou no telemóvel. Tinha uma intuição especial para fixar instantes únicos do fluxo da vida quotidiana. O senhor Amadeu cumprimentou gentilmente o cliente, chamou-o com um gesto, rodou a cadeira, e este sentou-se, sendo de imediato protegido por um babete para adultos. A cadeira foi reclinada, um pincél distribuiu a espuma pelo maxilar inferior, o cliente fechou os olhos e a navalha encontrou a barba através da lenta rouquidão do corte. Quem diria que às vezes o encostar de uma navalha ao pescoço de alguém, o relaxava. Miguel encostou-se a um canto e observou com deleite o ambiente. Riu-se quando ouviu o ronco do avô. Quem diria que aquele senhor participara em 1917 e 18 em combates em Moçambique contra o invasor alemão que viera da região de Tanganica. Em tempos de paz escrevera um extenso relatório sobre a doença do sono, e a distribuição do seu vetor, a mosca Tsé-Tsé, tendo para isso percorrido uma área com uma extensão de mil quilómetros. Num sofá vermelho desbotado e gretado, um cliente de fato escuro e chapéu poisado no colo, que lia atentamente um jornal, comentou em voz alta:

- Os lampiões deram 4-3 ao Torino, e depois foi a desgraça.

- Foi o destino para os jogadores italianos, - disse outro.

- Aqui estamos vivos, e podemos morrer lá fora atropelados por essas engenhocas, que não se afastam de nós como os cavalos, - exclamou outro.

- Com estas estradas andam mais devagar que os bichos, - interveio o dr. Mário de Miranda, abrindo os olhos.

- Mas só os ricos é que os podem ter, - exclamou o leitor.

- Eu não sou rico, farto-me de trabalhar no consultório e na quinta, e gasto o dinheiro na educação dos meus filhos e não na taberna.

- Dizem que a Santa Casa de Baião tem muito dinheiro, que vai para os bolsos de alguns! – Provocou alguém dum dos cantos.

O cliente levantou-se furioso, agarrou na bengala, mas foi travado:

- Calma avô, não vê que o estão a provocar?

- São uns ignorantes, têm inveja de tudo, fartei-me de trabalhar de borla para montar a Santa Casa e o Hospital de Baião, e é assim que me agradecem. Podia ter-me dedicado à medicina privada e aí sim, estava rico.

- Não se arrependa, um dia haverá uma estátua sua na região a agradecer-lhe eternamente o gesto.

- Avô? Um velho a chamar avô a outro, e nós é que bebemos? – Investiu o provocador.

A notícia do desastre do avião Fiat-G212 contra uma parede da Basílica de Superga, no dia 4 de maio, com 31 pessoas a bordo, 18 delas jogadores do Torino, após um jogo amigável com o Benfica em Lisboa, em homenagem ao Ferreira que ia pendurar as botas, acabara de chegar a Amarante, à Barbearia Central.

- E comparam aqui o capitão do Benfica ao Severino Varela! – Exclamou outro, tentando resfriar os ânimos.

- O do Boca Juniores, o que jogava com boina?

- O “La Boina Fantasma” esse mesmo, que marcou um golo fabuloso ao River Plate.

- No Estádio Monumental de Nuñez, - interrompeu o Miguel, mostrando à assistência o filme no Youtube, onde Severino voava e desviava a bola, que todos pensavam que já tinha saído pela linha de fundo, para dentro da baliza adversária, no dia 26 de setembro de 1943.  

Um silêncio sepulcral abateu-se sobre o espaço, todos olhavam para o estranho aparelho, onde se jogava misteriosamente à bola, e alguns afastaram-se com medo.

- Vamos embora Miguel, - disse o avô puxando-o pelo braço.

Riram-se!

- Eles estavam a merecer, agora vão-se benzer o resto do dia, e se contarem a cena vão chamar-lhes bêbados.

- São sempre os mesmos estes indígenas, até quando o teu pai passa aqui de avião há falatório a dizer mal. Acho que ele faz muitas vezes de propósito. Amanhã queria ir ao Porto, mas vai chover! Tenho pena do provocador, está na miséria. Era relojoeiro até a visão o trair e o filho enlouquecer, e ter ido para o Manicómio Bombarda. Teve doze filhos, sobram-lhe quatro, a mulher morreu há muito, de ataque cardíaco.

Miguel olhou para o telemóvel e leu que previsões de bom tempo para o dia seguinte.

- Avô, amanhã não chove!

- O Borda d’Água diz que sim.

- O Serviço Meteorológico Nacional dá céu limpo

- Veremos, qual deles está certo.      

- Um satélite ou um agueiro.

Riram-se!

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