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O verdadeiro crime sobre o Paulinho, o filho da Maria José que vivia na Casa do Lago, a meio caminho entre o palácio e a vacaria, edifícios que pertenciam à quinta, tinha sido cometido por causa de uma noite de farra que atrasara o parto, e obrigara a inventar um relatório que nada dizia, com termos que escondiam realidades e mantinham as gratificações. Mas este tipo de gente estava sempre protegida pela lei, e por isso o mundo dele reduzira-se às paredes da sua casa e da escola. O inspetor Bartolomeu sabia que a descida aos infernos não se fazia sem dor e por isso resguardou do olhar aquele mundo de emoções.
- Coitado do Paulinho, - disse-lhe a funcionária enxugando uma lágrima ao canto do olho. – Foi tratado por nós com todo o carinho, mas o mesmo não se pode dizer lá em casa.
Ficou a saber que a vocação de mãe fora trocada pelo prazer, consentindo que o pai se perdesse pelo pó branco. O inspetor possuía um espírito inquieto e sagaz de olhar brilhante. Lembrou-se do encontro que tivera no dia anterior com a médica de família, que lhe tinha cortado a palavra dezasseis segundos depois de começar a falar. Cronometrara. Quando falou com a mãe sentiu que ela tinha uma voz em fuga. Contou-lhe o passado, e da forma como o problema do filho a tinha feito esquecer-se do tempo e dela própria. A sua vida tinha estado suspensa no seu alheamento. Chegara a esperar o seu fim como um resgate. Confessou que quando soube da morte dele ficou triste e contente. O inspector olhou para a fotografia e por momentos conseguiu sentir o que o Paulo sentira a vida toda, a incompreensão da sua situação, a incapacidade de falar, a solidão. Olhou para a mãe e viu um ser que tinha estado eternamente à espera de uma cura, que se consumara agora num ir embora. Estava em paz, apesar de se sentir uma tensão surda no ar. O ambiente emocional tinha agora tomado uma forma, a fronteira entre a sanidade e a loucura aumentara. A experiência do inspetor, um homem torturado e controverso, fê-lo sentir a mágoa que vinha do fundo mais remoto daquela mulher, que fora interrogada, perseguida com perguntas, para que revelasse a verdade que os representantes da justiça proclamavam: “não fora a doença que o matara, mas sim a negligência”, mesmo com a patroa, Palmira, filha do coronel Osório, a tecer rasgados elogios àquela mãe sofredora. Por isso ele estava ali, para que gestos e palavras revelassem alguns dos segredos da dignidade da mãe, da sua humanidade sagrada.
- Foi um ano terrível inspetor, - disse a educadora, e continuou. – O Paulinho sufocou lentamente à nossa frente, até o reflexo da tosse perdeu, ficando também dependente da intervenção de terceiros para lhe desobstruir a garganta que se entupida frequentemente com a expetoração.
Maria José recebia com agrado a mãe de uma colega do filho, a Sofia. Nela sentia-se a respiração possível, via-se que no seu olhar havia uma vontade de falar, porque gritava sem voz. Havia quem ouvisse um “olá”! Na escola o seu eterno cheiro a primavera contrastava com o cheiro agreste de fezes e urina dos colegas. Era um drama terreno com culpas cósmicas, que fazia com que as fronteiras formais não fizessem parte daquele espaço, cujas paredes do quarto e da escola há muito se tinham tornado no seu mundo. A mãe, que tinha uma voz em fuga, consentira que o pai se perdesse, lembrava-se do grande neurocirurgião que vinte anos antes lhe tinha cortado a palavra dezasseis segundos depois de começar a falar.
- A sua filha é como a Bela Adormecida, mas com uma diferença, nunca irá chegar o príncipe!
De cada vez que abraçava a sua princesa segredava-lhe:
- Nós contra o mundo!
Nunca mais o viu, e virava-lhe as costas de cada vez que aparecia, todo emproado, na televisão, a falar de algum dos seus livros. O problema da filha tinha-a feito esquecer-se do tempo e dela própria. Pensava que nada de mal aconteceria à sua Sofia, e se algo tivesse de acontecer, seria a ela. Achava que todos os pais pensariam desta maneira. Entregou a sua vida à filha, que passou a significar toda a felicidade que existia e que sentia, o amor por ela não tinha fim, vivia para quem amava. Tudo o que queria, queria para a sua Sofia. Esperara eternamente por uma cura de um qualquer recanto do Céu. Mal sabia a mãe que ela tinha sido enviada! Chegara muitas vezes a esperar o fim da filha como um resgate, por isso naquela manhã quando se confrontou com a morte da Sofia ficou muito triste, e não se apercebeu que também estava muito contente. Triste porque amava-a, contente porque amava-a muito. Um dia brilhante tornara-se numa noite de escuridão.
- Obrigado por ter vindo Joana, - agradeceu Maria José, abraçando-a com força. – Os nossos meninos são agora estrelas.

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