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Um louco vê aquilo que quer ver. Quando a dona Mercedes morreu deixou um vazio na família e um buracão no coronel Osório. Os filhos, o Jóni e a Palmira, revezavam-se para nunca deixarem o pai, de quem tanto gostavam, sozinho. Tinham o apoio precioso da Quitéria, neta dos caseiros.
- Estou morto para o resto da vida!
Uma semana depois, quando o coronel estava com os olhos perdidos no teto, deu-se um milagre. Jacob, o papagaio espertalhaço, mudo, de meia-idade, que tinha vindo uns anos antes da casa da tia Remédios, começou a imitar a voz desafiadora, teatral, eloquente, rouca, expressiva e delicada, da falecida.
- Eu e tu é o que importa, a mim e a ti.
O coronel Osório desligou o pensamento e acreditou na reencarnação da sua Mercedes, apesar de sofrer com a mudança de visual da sua amada. Explicou que nesse dia sentira um vento a puxa-lo, tivera uma visão imperfeita que lhe revelara um segredo de algo que acontecera ou iria acontecer, suspenso na geografia intemporal dos sonhos. Apaixonou-se perdidamente pelo papagaio cinzento, e por isso parecia atraído por uma força misteriosa. Uma certa noite este homem elegante e cordial, guardador de muitos segredos e escravo dos bons sentimentos, perdeu a cabeça e obrigou o Jacob a deitar-se com ele na cama, sem pecado. O papagaio não aguentou a emoção e morreu. Mas desta vez para manter viva a presença da sua amada Mercedes, embalsamou-lhe este seu segundo corpo, uma vez que não tinha conseguido autorização no primeiro. E foi mais longe, transformou-a num candeeiro.
- É para me iluminares – disse, com as mãos e com os braços a mexer em frente da sua cara macilenta e envelhecida, com os olhos longínquos, comida por múltiplas doenças e lesões, toucada por cabelo branco e ralo. E continuou a tropeçar na tristeza. – A vida é boa quando alguém gosta de nós, e nós gostamos dos outros.
Na luz que emanava do candeeiro o coronel encontrou a fragilidade, a verdade e o encanto do amor, apesar de estar tão perdido e sozinho. O seu estado era meio vigilante e sensível, em que as lembranças do passado adquiriam um contorno vago. E quando o coronel Osório já duvidava de si e da vida, deu-se um segundo milagre: a dona Mercedes, ou melhor, o Jacob, chorou. Não uma lágrima salgada, mas um pouco da cera que lhe segurava o olho esquerdo, mais próximo do calor da lâmpada. Esta cena provocou as memórias sedimentadas do militar, obrigando-o a regressar ao passado e a recordar o perfume do soalho daquele palácio de janelas grandes e altas, cheio de estantes de livros que subiam até ao teto. E tudo isto num lusco-fusco interior, ao mesmo tempo que sentia a vertigem do sono e a queda livre da baba na almofada do sofá. O candeeiro não iluminava só a sala de leitura, a sua luz entrara na alma do coronel Osório, e transformara um homem amargo, caótico, depauperado, destruído, de sangue frio, que estava num vácuo que engolia tudo à sua volta, e criava um silêncio insuportável, num militar renascido, de sangue quente, que tornou a ouvir com orgulho os seus vinis de marchas militares. Ambos tinham caído numa teia de mentira. O coronel gostava que o papagaio lhe mentisse, sussurrando abusos e traumas por sarar, mentindo de forma mentirosa. Jacob parecia ter vida, era a voz de alguém que não se ouvia, mas que encontrava sempre maneiras de não deixar ninguém sair. Por isso rasgou as entranhas da alma do militar e descobriu-lhe os fantasmas incestuosos e masoquistas. Representava crueldades inúteis, esperanças infrutíferas, vaidades fúteis.

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