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Era uma cena que doía. Todos sentiam na alma a dor da mãe, doíam-lhes nos corações as lágrimas que pingavam ininterruptamente dos seus olhos de cor azul celeste, e sentiam nas almas o lume de fogueiras iluminadas por luzes azuis, acesas na noite negra que caíra à traição. A vida de Sofia fora apenas um sono sem sonhos.
- Eu era a única pessoa no mundo que a conhecia, - desabafou a mãe Joana. – Tudo isto é injusto, os filhos devem sobreviver aos pais.
A grande preocupação dos pais com filhos deficientes tinha a ver com o seu futuro, quando eles não estivessem presentes, devido à lógica da vida. Mas para a Joana este pensamento nem se punha, porque para ela a filha era igual a todas as outras.
- A Sofia não precisava de mais tempo para a vida, pois nunca recebeu vida ao tempo, - tentou consola-la uma amiga, abraçando-a.
- Não percebo? – Perguntou a mãe com o corpo todo, deixando escapar um suspiro que se alongou, e se suspendeu, e se tornou a alongar.
A sensação da sua interioridade era tão intensa, que incomodou. Sentia a catacumba escusa para onde fora atirada. Não percebia ela, nem a própria, mas estas eram alturas em que as pessoas tentavam ganhar pontos perante o portador da dor, usando a maior parte das vezes as palavras mais caras, assim como as flores. A imortalidade é um luxo a que a Natureza não se pode permitir, tal como a esperança de vida de uma menina deficiente profunda é curta. Por isso as nossas vidas não são realmente nossas, e são feitas com as mortes dos outros.
- Muitas destas estranhas amigas da mãe Joana substituíram o meu confessionário pelo psiquiatra, - ironizou o padre. – Regressam agora cheias de cruzes à feira de vaidades em que se transformou o velório.
- Mais tarde ou mais cedo hão-de regressar, - disse outro. – As consultas estão caras e as pessoas vão ter com os padres para desabafar.
Para a mãe Joana, a Sofia seria sempre uma pessoa única e irrepetível, com um corpo feito de exterioridade e interioridade, uma menina frágil de um silêncio único dentro de uma bolha, que lhe ensinara a olhar para o tempo das coisas de outra perspetiva, e lhe dera o valor que ela precisava para deixar de ter medo dos silêncios. Foram dias demasiado longos, para uma vida demasiado curta.

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