quarta-feira, 13 de maio de 2026

90 - A Miúda do Lenço (3)

 

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- Bom-dia senhor João – cumprimentou.

- Só se for para si, - respondeu a mulher, sem levantar a cabeça da galinha responsável pela canja da noite.

A dona Rosa tratava agora de duas famílias, da sua, como sempre fizera, e do patrão Osório, perdido algures no enorme palacete, que se erguia na parte mais nobre da quinta do alto de Paço de Arcos. Quando a dona Mercedes morreu deixou um vazio na família e um buracão no coronel. Os filhos vivos, o Jóny, com “y” por insistência da mãe, e a Palmira, revezavam-se para nunca deixarem o pai, de quem tanto gostavam, sozinho. O John, fruto de uma relação de solteiro em Inglaterra, há muito que morrera ao serviço da RAF na Segunda Grande Guerra. O coronel Osório passava agora os dias a citar Mouzinho de Albuquerque: «Chega a ter-se inveja dos mortos».

Na sala da lareira, a divisão mais importante do palacete do avô, Sara, filha do Jóny, pôs um vinil, e reparou que as vozes que saíam daquele disco pesadíssimo costumavam chamar todos os fantasmas. Fartou-se, eram demasiados a assombrar o local. Tinham atravessado, incólumes, o limiar dos séculos dezanove e vinte, e tudo graças à bisavó Matilde que achava graça às portas a baterem a meio da noite, ao soalho a ranger na escuridão, ao relógio que dava as badaladas fora de horas, às correntes que rangiam no torreão, ou seja, uma miríade de relações afetivas que se cruzavam, descruzavam e recruzavam eternamente. Sara era uma adolescente divertida e verborreica, dotada de um passado conflituoso com a escola e de um futuro radioso com…a escola. A mudança dera-se durante umas férias de Natal ainda a avó Mercedes era viva, em que levara a amiga Isabel.

- E o perfume que deixam, meninas? – Disse a dona Adelaide.

– Rosa com mistura de naftalina, horrível. Ao menos podiam ter evoluído, mas não, sempre a mesma coisa sem graça, – protestou Sara

- Mas já tentou falar com eles? – Perguntou a Isabel olhando para a governanta.

- Tentei tudo, mas ficam caladinhos. A mãe da sarinha conta que a bisavó dizia que eles se escondem nos candeeiros.

- Mas quais, eles são tantos! – Indignou-se Sara.

- Eu desconfio que sei qual é, - exclamou a governanta com uma voz baixinha e aproximando-se das raparigas.

- Já os viu? – Insistiu Isabel.

- Por vezes vejo-os quando semicerro os olhos.

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