terça-feira, 12 de maio de 2026

84 - Cordeiro Verde - Acrescentos - A Paixão de Deus

 

84

“ ENTENDO PELO NOME DE DEUS UMA SUBSTÂNCIA INFINITA, IMUTÁVEL, INDEPENDENTE, OMNISCIENTE, OMNIPOTENTE, PELA QUAL EU PRÓPRIO E AS COISAS QUE EXISTEM (SE ALGUMAS EXISTEM) FORAM CRIADAS E PRODUZIDAS “

DESCARTES

 

Quando um arco luminoso, belo, misterioso e complexo riscou o céu, ficou à vista de todos o lendário poder magnético de Plutão, uma das portas de entrada de Laputa. Estavam no território dos maiores monstros do Sistema Solar, um seres zelosos e cumpridores, que tinham por missão dar um nexo às pontas soltas do Universo, as penas, as dores e as esperanças. Eram maus com um fundo bom, eram os únicos que faziam pausas nas fúrias.

- Plutão deu-lhes o que Leve teimou em não lhes dar, – desabafou o Espírito Livre, pondo a mão no ombro de Miguel.

- O que eu vejo não condiz com o que dizem.

- Para os senhores deste espaço, Lilith é um anja e tem um segredo.

- Segredo?!!

- É a grande paixão de Deus, Ele teve para abandonar Laputa e ir atrás desta anja de duas faces num mesmo corpo. “Eu sou do meu amado, e o meu amado é meu, e alimenta-se de maçãs, entre os lírios”.

- As últimas palavras de Lilith!

- Tudo indica que a “filha da estrada” não as escreveu para Adão, mas sim para Deus. Ela estava angustiada de desejo, fruto de um amor desvairado. O Demónio do Meio-Dia matou-a por ter um dia estado em vão eternamente à espera.

- Mas não foi por causa de ser o guardião do planeta Marte, a quem Lilith sugou a atmosfera para alimentar as filhas? – Perguntou Miguel.

- E não achas estranho sugar toda uma atmosfera de um planeta para alimentar seis filhas?

- Mas não eram uns bebés quaisquer, eram as filhas de Adão.

- As filhas de Adão nunca mereceriam tal sacrifício! – Disse o Espírito Livre olhando de novo para o horizonte.

- Então, eram de quem? – Perguntou Miguel, olhando de frente para o seu companheiro de viagem.

- Eu sei em quem estás a pensar, mas esquece e contempla a mais melancólica das paisagens.

De repente um dos milhões de pontos que salpicavam o horizonte evoluiu em linha reta e num ápice apareceu em frente da nave, dando como primeira impressão que algo de diferente estava a acontecer.

- Eis os Piratas de Plutão, personagens de enorme complexidade, que têm tudo para conquistar meio Universo, mas não querem, e é por isso que a outra parte está sempre nervosa, – disse o Espírito Livre com clareza e sabedoria. – Se eles um dia decidirem manipular as bandas magnéticas, todos desaparecerão num só golpe, porque são espíritos versados na manipulação das ideias. E eles não têm qualquer resquício da noção de limite.

Quando a lenda de que Plutão tinha os seus piratas se tornou realidade, Laputa teve o bom-senso de mandar publicá-la. Lá fora tudo estava suave e pacífico, sem violências e fantasmas. O que estariam a pensar aquelas mentes maléficas, que os observavam minuciosamente de dentro das suas naves?

- São as criaturas mais equilibradas que conheço, com uma certa tenacidade que roça o heroísmo e a loucura. São uns bons porteiros de Laputa.

Estavam todos num diálogo silencioso que, segundo o Espírito Livre, só era passível ser de amor, nunca de ódio. Explicou que era uma falsa ideia pensar que em Deus só se encontrava felicidade, porque Ele também dava por vezes infelicidade, e sabia disso, mas tudo era necessário para alcançar a utopia. Uma única cintilação de luz num cristal de gelo preso à nave mais próxima, fez sorrir o Espírito Livre.

- Sinto a presença penetrante e destemida de Lilith e eles também a detetaram. A Anja Suprema está em toda a parte e em parte nenhuma, – disse o companheiro de Miguel com uma voz escurecida.

- Já puseste a hipótese de Deus ser uma mulher?

- Eles vão enviar um delegado para investigar. Sentiram a presença dela e querem lavar-nos a alma.

- “Lavar-nos a alma”?!

- Laputa quer Lilith e para ela renascer é preciso encontrar as suas “ideias”. A ordem de Deus está em todo o lado e os seus agentes procuram as “partes” da senhora, que estão em movimento e em constante mutação. Os piratas são exímios navegadores, conhecem como ninguém os mares do pensamento, que representam o espaço interior do mundo que está em todos os seres do Universo. Podem levar-te a memórias vividas, mas incorretas, e eles podem não ser o que tu vês.

- O Universo exterior é onde nós habitamos, mas nós próprios, o nosso corpo, é a parte interior desse mesmo Universo, com outros seres e a mesma dinâmica, - exclamou Miguel, tentando compreender o que o Espírito Livre dizia.

- Isso mesmo, e a dinâmica é dada pelas “ideias”. Um facto que distingue Plutão dos outros planetas é que os seres que sempre o habitaram nunca cometeram o “pecado original”. Cometeram outros, mas este não e é por isso que são uma das portas de entrada do Reino de Deus, Laputa. O único ponto habitável é a cidade de Scarpia, que esteve outrora transformada num caos de violência, após uma série de invasões e ocupações. Lilith partilhou o seu assombro com Deus e Ele deu-lhe em mãos a heróica missão de restaurar a ordem nesta porta de entrada para a Sua casa. Encontrou as pessoas certas nos confins do Universo, no seu lado mais negro, e trouxe-os para Plutão. A relação entre eles foi tão intensa que estes seres catalogados como os “mais maus dos maus”, acabaram verdadeiramente por chamar a Lilith a “sua anja”. Em poucos dias restauraram a ordem e só restou Scarpia. Eles obtiveram o estatuto do paradigma absoluto, porque a aventura levou-os a fazer a transição entre o Mal e o Bem, e tudo por amor a Lilith.

- Deus escreve direito por linhas tortas!  

- É preciso ter cuidado com as palavras de Deus recitadas pelos homens, pois elas falam muito sobre quem diz do que sobre Deus. Querem mandar em Deus. No último banco ia um senhor vestido de azul, o Etelvino, cuja irmã tinha prometido aos céus que ele iria a pá até Fátima se sobrevivesse à guerra. Quando regressou ela contou-lhe a promessa e insistiu que a cumprisse, mesmo que não fosse religioso. Morreu em Sacavém atropelado quando se dirigia para Fátima. Se a maior parte dos homens fossem Deus, comportavam-se como o Diabo!

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