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Nova Iorque, Hospital de Mount Carmel, 13 de Junho de 1969.
No pavilhão dos “ mortos-vivos “ reina a excitação. Os médicos correm apressadamente de um lado para o outro, levando a reboque as enfermeiras e os assustados estagiários. Todos esperam pelo doutor Cinfuentes, que acaba de entrar no edifício.
- O que é que aconteceu aqui de tão importante, para me acordarem a esta hora da manhã? - Pergunta o director, vestindo atabalhoadamente uma impecável bata.
- É a paciente do quarto nove, – responde-lhe a obesa enfermeira-chefe. - Hoje de manhã quando os auxiliares lhe foram dar o pequeno almoço, estava de pé junto à janela.
- A senhora Rita Bouvalier de pé!?? É impossível!
Entram de rompante no elevador e carregam no botão para o quarto andar. O silêncio é pesado. Os olhares perdem-se no vazio, como luzes descontroladas numa noite de nevoeiro. Os médicos recém-formados colam-se à parede do fundo, receosos pelo que vão encontrar. Uma campainha anuncia a chegada, ao mesmo tempo que as portas se abrem com estrondo. O quarto nove está entreaberto. O doutor Cinfuentes espreita cautelosamente, hesita, mas decide-se a entrar. Vê um vulto de mulher junto à janela gradeada, contempla-a carinhosamente por uns instantes e aproxima-se. A paciente olha para o horizonte e murmura baixinho uma frase:
- Transpus a porta, transpus a porta, transpus...
Observa-a fascinado, olha em redor, não ousa procurar por explicações porque sabe que não existem, e diz com um tom jocoso:
- “Só sei que nada sei”!
Rita volta-se. Os olhares encontram-se, o diálogo é fundo, bem fundo nos alicerces da alma, falam animados em silêncio e sem palavras, procuram desesperados a memória que descobriram ser comum, e soltam-se repentinamente assustados. No corredor uma multidão espera-o ansiosa.
- Então doutor, o que é que tem a dizer? - Pergunta a enfermeira, encostando-o à parede com a sua enorme barriga.
- Colega, – diz o médico, apontando para um dos estagiários. - Como se chama?
- Carlos, Carlos Tompson.
- Carlos, entre no quarto e diga-me que idade dá à paciente.
O jovem avança com receio, empurra a porta, entra cautelosamente e fica paralisado quando encontra o olhar da Rita, que avança para si.
- Transpus a porta, – diz-lhe, pondo as mãos nos seus ombros.
Os olhos azuis desbotados da paciente cravam-se bem fundo no seu interior, o cabelo cor de fogo atira-lhe com um perfume floral e a pequena boca continua a soltar as palavras:
- Transpus a porta, conseguimos descobrir a entrada para o passado.
Afasta-se, perde o presente, retorna ao horizonte. Carlos sai desorientado e dá de peito com a enfermeira-chefe Zobáida Mercedes.
- A idade? - Pergunta embriagado.
- Sim, eu só quero um palpite, – responde Cinfuentes, acordando-o.
- Quarenta e cinco, talvez cinquenta.
- Quarenta e cinco?! Cinquenta?! - Exclama Zobaida, consultando uma ficha que tem na mão. – A senhora Rita Bouvalier tem sessenta e sete anos.
- Sessenta e sete, é impossível!
- Meus senhores, temos aqui algo que ultrapassa a ciência, tal como a conhecemos. Antes de avançarmos mais, é melhor acompanharem-me ao gabinete, para esclarecermos algumas ideias.
O grupo dirige-se em marcha forçada, comandados pelo doutor Cinfuentes, entram de rompante e cada um escolhe uma cadeira e sentam-se.
- Já ouviram falar da “Doença do Sono”?
- “Doença do sono”?!
- São muito novos, hoje em dia não lhes ensinam história na faculdade, – responde secamente a enfermeira-chefe.
- Não é com histórias que curamos as pessoas! - Exclama um dos novatos.
- Engana-se, – diz-lhe Cinfuentes. – É na História que muitas vezes se encontram as curas, porque ela repete-se indefinidamente. Mas o que nos traz aqui é a Encefalite Letárgica! Um dos maiores enigmas da medicina, uma doença terrível que aparece, dizima e evapora-se sem deixar rasto, aliás o único sinal da sua presença são os dezassete pacientes que temos aqui há várias décadas. Senhora enfermeira, conte a anamnese da Rita Bouvalier.
- Nasceu em 1902 em Viena e aos dez anos mudou-se com a família para Paris. Teve uma infância feliz e aos dezoito anos, quando se preparava para casar, foi acometida de uma doença súbita, que a deixou prostrada na cama. O médico que a assistiu, não conseguiu fazer nada e algumas horas depois declarou-a cadáver, devido a uma síncope cardíaca. Na noite do velório uma das criadas descobriu que a Rita estava a chorar. Afinal não estava morta! Foi internada num hospital e nunca mais regressou a casa. Permaneceu numa cadeira de rodas, imóvel, durante estes anos todos. Veio para aqui em 1945.
- E o que é incrível, é que apesar de ter estado como uma estátua durante décadas, com uma postura péssima, não há qualquer tipo de deformações, e o envelhecimento atrasou-se consideravelmente.
- Sessenta e sete anos?! - Interroga-se um dos assistentes, deixando escapar o pensamento.
- E apesar de tudo move-se, – continua o doutor Cinfuentes, cada vez mais entusiasmado. - Raramente os vimos moverem-se!
A altura mais interessante é a das refeições, todos são independentes nesta área, mas não os vimos comerem, temos de sair do refeitório. Quando voltamos, os pratos estão vazios.
- Doutor, – interrompe um dos colegas. - Mas a encefalite letárgica devia ser mortal, ainda por cima naquela altura.
- Em todo o mundo devem ter morrido milhões de pessoas, os poucos que sobreviveram devem ter sido aqueles a quem Deus protegeu, não sei para quê!
- Ou castigou! - Dispara a enfermeira Sobaida, sem levantar os olhos do processo.
- Depois da encefalite letárgica, quem ousou sobreviver, desenvolveu um parkinsonismo, que o deixou um morto-vivo. Eles são só alma, estão bem longe!
- No caso da senhora Rita Bouvalier, regressou ao corpo, – provoca de novo a enfermeira.
- Pode ter regressado, mas de dentro! - Ajuda um dos enfermeiros, que está escondido atrás da enorme silhueta da sua colega.
- O quê?! O colega se não tem nada para dizer, não diga disparates.
- Senhora enfermeira, não foi dito nenhum disparate, – diz Cinfuentes. - A discussão deve situar-se no plano metafísico, pois ao nível da medicina não vamos descobrir nada.
- Por amor de Deus senhor doutor, nós não somos padres!
- A alma não é exclusiva dos padres. Os médicos deviam compreender que muitas das doenças do corpo se devem a problemas na alma. Quando soubermos respeitá-la, então ela respeitar-nos-à ! O nosso trabalho com a senhora Rita Bouvalier vai ser de observação e registo. Alternamo-nos, vamos estar com ela vinte e quatro horas por dia, a registar tudo o que fizer e disser, incluindo os sonhos. Reunimo-nos uma vez por semana aqui e a esta hora. Bom-dia a todos!
Junto da grande janela do quarto número nove, a paciente fala para o horizonte:
- John, tu não vais passar, esta porta só dá para o passado, e tu não tens passado...

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