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A “Carraça” avança determinada por um caminho sinuoso. A engenheira Rita Bouvalier vai aos comandos, as potentes luzes rasgam a escuridão e iluminam uma chuva miudinha que cai como raios, há várias horas. De repente, um vulto atravessa-se no caminho, a travagem é brusca, o veículo derrapa no terreno lamacento, precipitando-se por uma encosta.
- Está descontrolado, não consigo aguentá-lo!
- Aciona o manípulo de segurança, – grita Paulo, ao ser puxado violentamente do seu sonho.
A “Carraça” rebola freneticamente, os sucessivos embates aumentam a confusão, durante alguns minutos, que parecem eternos, só se ouve o chiar estridente dos aparelhos descontrolados. Um som seco anuncia o fim da atribulada viagem.
- Parámos! Os sistemas deixaram de funcionar.
- Empurra o manípulo.
As luzes ligam-se, o painel torna a brilhar.
- Estamos numa estrada, – informa o coronel. - É a estrada que nos leva direitinhos ao destino.
As portas abrem-se e os ocupantes saem, ansiosos por abraçarem o espaço exterior. Um nevoeiro leitoso mistura-se com a noite e tapa o céu estrelado.
- É estranho, o ambiente parece pesado.
Um raio muito luminoso rasga o ar e ao longe aparece um objeto cintilante, cheio de cores. Rita agarra nos binóculos e aponta-os na sua direcção. Tira-os repentinamente e dão-os a um dos colegas.
- É impossível! Paulo diz-me o que vês.
- É o Piolho-Um, não é possível, nós vimo-lo sair da atmosfera.
A nave descreve uma curva e passa a poucos metros dos incrédulos espetadores, que gesticulam aterrorizados.
- Não nos vêem, ignoram-nos.
- Estão a circundar-nos, têm de nos ver!
O círculo aperta-se, a nave está agora muito perto e fica transparente. Lá dentro pode-se ver nitidamente toda a tripulação. Aos comandos vão Mac Macléu Ferreira e Alfredo Mávida, o capelão Graise agarra com força o terço e a bióloga Mary Holmes grita desesperada.
- Comando Central, aqui Piolho-Um, estamos com problemas no piloto automático, não o conseguimos desligar, pedimos apoio urgente, – grita o piloto.
- Eles estão com problemas, temos de os ajudar, – diz Rita, correndo para o veículo.
- Rita, eles não nos podem ouvir, nem ver, olha o que está por cima da nave.
Ao longe, mas perto, a silhueta do planeta Corpo aparece esplendorosa, envolta no seu manto azul celeste, tão serena como sempre.
- Comando Central, aqui Piolho-Um, saímos do rumo de aproximação, ajudem-nos, a nave acelera, estamos nos limites.
- Eles não nos ouvem, nem nos vêem porque estão no passado.
A cena é dramática. Por qualquer razão desconhecida algo lhes trouxe o que já passou, as datas misturam-se, é a descoberta da verdade para além do Espaço e do Tempo, tudo retorna, tudo se repete... uma explosão salpica o horizonte e repõe a legalidade do presente.
- Morreram, os nossos companheiros ficaram reduzidos a cinzas, malditos, era esse o nosso destino, – e Rita chora, lançando a sua raiva sobre a superfície metálica da “Carraça”.
- O nosso destino foi alterado, manipularam-nos a existência! - Exclama John Kovac’Olhões.

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