sexta-feira, 8 de maio de 2026

73 - Cordeiro Verde - Missão "Novo Olhar" - A Fusão (2ª parte)

 

73

- Extraordinário, – comenta o neurologista. - A tripulação do “Piolho-Um”, por razões desconhecidas, foi projectada no Tempo e no Espaço, e cada qual seguiu o seu trajecto: a Rita foi parar aos Estados Unidos, no ano de 1969, o Narciso foi parar a França, também em 1969, e o Mac a França, em 1942. O raio do Tempo é mesmo relativo!

Levanta-se, guarda a folha numa pasta e vai ter com a enfermeira-chefe, para confirmar a chegada do doutor Cinfuentes e da senhora Rita Bouvalier.

O coronel Narciso Figueiredo Baeta está de muito boa saúde, ultimamente tem dado grandes passeios pela região e hoje a ansiedade é grande, pois vai encontrar-se com a sua colega. “A Rita é o único ser que para mim é real doutor, vocês podem não passar de personagens de um sonho”, disse ele hoje de manhã durante o pequeno-almoço. Por sua vez o doutor Lipiérre também se sente muito feliz, pois esta foi a primeira vez que um paciente lhe ensinou tanta coisa. “Aprendi mais com um indivíduo catalogado de deficiente mental, em três dias, do que durante trinta anos com colegas etiquetados de intelectuais”, desabafou ontem com o jardineiro.

- O doutor Cinfuentes chega aqui por volta das dezasseis horas.

- Óptimo, óptimo, assim ainda vou ter algum tempo para falar com o coronel.

O doutor deu ordem ao corpo clínico, e a todos os funcionários em geral, para que quando se dirigissem ao senhor Narciso, o tratassem por coronel, pois era isso o que ele era, coronel do exército cardíaco. Para ele o indivíduo nunca perde a sua alma, pois esta é a sua essência, o seu bilhete de identidade no Cosmos. Neste mundo não há “malucos”, existem é almas zangadas com os seus corpos.

O neurologista, doutor Cinfuentes, entra no mercedes com a engenheira Rita Bouvalier e o carro arranca em direcção ao asilo de Salpêtrière, para um encontro que passa despercebido ao comum dos mortais, mas que é fundamental para o futuro da Humanidade. Ao lado do médico está uma mulher perdida no Tempo, com dois passados e sem nenhum futuro. Tudo para ela é novidade, dir-se-à que acabou de nascer de geração espontânea, sem país e sem planeta. Os seus olhos absorvem sofregamente o mundo, talvez à procura de algo que lhe dê alguma confiança na vida.

- Isto é tudo bonito e calmo. Quando deixei o Coração, o clima estava tão tenso, as notícias da guerra fluíam como água, ninguém se entendia, todos reclamavam e ninguém dava nada. E aqui doutor, isto é sempre assim?

- Guerras há sempre, aqui também já se sucederam conflitos devastadores. Agora estamos em paz, mas não sei até quando. A guerra está marcada na alma do Homem, ele não consegue viver sem ela.

- Homem?

- Nós pertencemos à espécie humana!

- A minha espécie é o Memoh - diz Rita, olhando com ternura para um rebanho de ovelhas - No Corpo-Dois eram verdes.

- Como é que disse que se chamava a sua espécie?

- Memoh, eu pertenço à espécie Memoh.

- Memoh!??...Memoh!?

- Porquê esse espanto doutor?

- Memoh é Homem, ao contrário! Eu costumo brincar com o meu filho aos extraterrestres, e quem faz de invasor fala sempre ao contrário. Já temos alguma experiência em falar de frente para trás.

- Então a Teoria do Espelho é verdadeira! - Exclama, fixando os seus grandes olhos negros, nos pequenos olhos azuis do médico.

Pela primeira vez o doutor Cinfuentes repara na cara sorridente que está ao seu lado. Sempre apreciou as mulheres simpáticas, geralmente tornam-se as mais bonitas.

- A Teoria do Espelho?

Rita conta que participou na planificação da missão “Novo Olhar”, e que tinham sido definidos vários objectivos. A primeira fase consistia em chegar ao Corpo-Dois, era uma operação exclusivamente política, pois já há vários anos que viajavam secretamente para este planeta. Precisaram de tornar públicos os voos, para conseguirem prosseguir com as outras fases, que iam exigir muitos recursos. Não podiam esconder por mais tempo o dinheiro que estavam a usar, já havia senadores a investigar. Apresentaram então o “Piolho-Um”, a maravilha tecnológica, a nave capaz de se deslocar ao planeta mais perto. Isto representava um salto qualitativo na espécie Memoh e uma afirmação do Coração como potência dominante. Rita lembra-se ainda da grande homenagem que a tripulação recebeu um mês antes da partida. Foram considerados como heróis nacionais. Os seus pais choraram de emoção durante toda a noite, a sua menina iria ser a primeira a pisar o Corpo-Dois. Fora tudo uma grande farsa, até a maior parte dos seus companheiros tinha sido enganada! Com a chegada ao novo astro, iniciou-se a segunda fase. Simularam várias expedições, para assim manipularem as informações que podiam ser tornadas públicas. Foi numa destas missões que surgiu a primeira contrariedade: o veículo explorador “Carraça” deveria ter-se afundado num lago de ouro, dando-se assim por terminada a exploração do pólo norte; mas, por razões naturais, nesse dia o lago encontrava-se no estado sólido e os seus colegas ultrapassaram-no sem dificuldades, e sem se aperceberem da armadilha que lhes estava destinada.

- Quem é que ia na Carraça?

- A tripulação era constituída por três pessoas, o John, cartógrafo, a Mary, bióloga e a Maria, médica.

- Quem eram os seus cúmplices?

- O coronel Narciso e o engenheiro Paulo Prestes!

- Os outros iam ser eliminados, – diz o médico com um tom agressivo.

- Não se enerve doutor, tudo isto fazia parte da terceira e mais importante fase, a confirmação da “Teoria do Espelho”.

Rita Bouvalier prossegue o relato sem deixar de absorver com emoção a paisagem multicolor. Lembra-se da sua mãe e da enorme paixão que ela tinha por flores, especialmente das amarelas. Uma festa ternurenta da mão grossa do neurologista põe-a de novo nos carris da história. A “Carraça” ultrapassou o obstáculo e encontraram o que não deveria ter sido encontrado: a Cidade Sagrada, o elo de ligação com a Teoria do Espelho.

- Mas, explique-me o que é essa teoria - pede o médico, um pouco impaciente.

- O Universo não é tão grande como pensamos

- Rita, o Universo é infinita!

- Não doutor, o Universo é finito, tem limites, mas através de uma ilusão física torna-se infinito. Algures no seu equador, tudo se comporta como se de um espelho se tratasse. E o que é que os espelhos podem fazer? Aumentar o espaço! Uma vez comprovada esta ideia, passaríamos à seguinte, que consistia em descobrir entradas para o mundo da imagem. Havia quem quisesse avançar ainda mais, o coronel Narciso dizia que para além disso tudo estava Deus e que era possível alcançá-lo.

- Espantoso!Vocês descobriram o “espelho” ?

- A equipa 1 ficou encarregue de enviar uma sonda para a zona do Umbigo, o local que nós pensávamos ser a passagem para o outro lado do “espelho”.

- Vocês passaram pelo Umbigo?

- Não, afinal havia outras entradas. O Umbigo deve ter algo muito mais importante!

Um solavanco trá-los de novo à realidade e com ela vem um silêncio pensativo.

- Anda à minha procura, doutor Lipiérre? - Pergunta o coronel, saindo do labirinto.

- Está quase na hora do reencontro, a sua amiga já está perto.

- Nunca tive tantas saudades de alguém como agora Doutor, a Rita é do meu sangue.

- Do seu sangue? E o meu, é diferente?

- Somos de espécies diferentes!

- Espécies diferentes?! Coronel, podem haver muitas diferenças entre nós, mas uma coisa temos em comum, somos ambos humanos!

- Humanos?! O que é isso?

- Espécie humana, Homem! Não me diga que não sabe o que é o Homem? É grave, qualquer dia terei de rever a minha opinião sobre si.

- A minha espécie é o Memoh, não tenho outra.

- Memo?

- O Espelho Celestial criou tantas diferenças, – diz o Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua.

- Espelho Celestial? - Pergunta o neurologista, voltando-se para o jardineiro que acaba de se “materializar” atrás de si, junto a um pinheiro.

- Então a Teoria do Espelho é verdadeira? - Questiona também o coronel.

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