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Helias II, o último monarca da cidade sagrada Tricúspica, olha com angústia para a Lua que cresce lentamente no céu escuro.
- É estranho, poucas foram as vezes que contemplei este astro, e agora aqui está ele aumentando de dia para dia.
- Neste caso, de noite para noite! - Diz Paulo Prestes, sentado na cama. - O senhor já reparou que não tem sombra?
- Eu já não sei o que tenho e o que não tenho, estou aqui perdido, abandonado, vendo a grande missão da minha vida a desaparecer. É frustrante!
- Missão, qual missão?
- Senhor Paulo Prestes, a minha missão chama-se “Novo Olhar”, tal como a sua, e penso que chegou a altura de termos uma conversa séria.
- “Novo Olhar”? Também pertence à missão?
- A missão ainda não acabou engenheiro, falta-nos atingir o Umbigo. A tripulação da “Carraça” sofreu um contratempo, como o senhor deve saber, e é preciso reuni-los a todos. Este tempo não lhe diz nada, nós caímos na armadilha dos clones. O coronel Narciso e a engenheira Rita também estão algures neste planeta e é preciso encontrá-los.
- Encontrá-los? Mas onde?
- Fale com o neurologista Charles Thunder e invente uma história. Eles estão sempre à procura dum bom motivo para publicarem um artigo, porque têm de justificar o dinheiro que ganham. Os pacientes como vocês devem já ser poucos.
- Como é que pensa regressar à Eva?
- Primeiro temos de saber onde é que os outros estão, depois vocês devem juntar-se e em seguida serão recolhidos.
- Recolhidos, por quem?
- Desconfio que já anda alguém à vossa procura.
- Mas quem é essa pessoa?
- O nome não lhe diz nada, não o conhece!
- Como é que tem tanta certeza que eu não sei?
- Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua, está contente?
- É melhor ir-me deitar, que raio de nomes, um é o Gato-do-Sorriso-de-Ouro, este é o Cabreiro-não-sei-quantos, – diz Paulo, entrando na cama e tapando-se com os lençóis.
- Senhor engenheiro, não se esqueça do que eu lhe disse, amanhã fala com o director.
Helias II aproxima-se novamente da janela e torna a olhar para a noite.
- Entra palhaço, já estou farto desta espera, – resmunga o gato, cravando as unhas no rabo gordo do clone do monarca.
- Maldito gato, – grita baixinho. - Queres que me atire da janela ? É isso, a porta da gruta coincide com esta janela. Mas a janela está protegida com uma grade?! Só atirando com o cadeirão!
Helias II dirige-se para a cama e abana o amigo.
- Então, o que é que quer agora de mim? Já nem posso dormir.
- Preciso da sua ajuda, tem de atirar o cadeirão pela janela.
- Atirar o cadeirão pela janela? Ficou maluco de vez!
- A passagem para a gruta coincide com esta janela e eu tenho de saltar.
- Então atire o senhor a cadeira!
- Se pudesse atirava mas, aqui, estou no estado gasoso.
- Está bem, está bem, só para me ver livre de você, eu faço tudo. Calculo que se não colaborasse ficaria a noite toda a massacrar-me.
O engenheiro Paulo Prestes levanta-se com energia, acende a luz e, com um exuberante ataque de nervos, pega na mobília e arremessa-a contra a janela, despedaçando-a. O destino é uma máquina cruel, um mal necessário para o bom funcionamento do Universo: o cadeirão despenha-se do terceiro andar e cai em cima do chefe da cozinha, Júlio Meia-Lua, um emigrante português, que tem morte imediata. Três enfermeiros, dois homens e uma mulher, entram de rompante no quarto número dez e imobilizam o paciente, pondo-lhe um colete-de-forças. O engenheiro de sistemas da nave Piolho-Um ainda tem tempo de ver o monarca cardíaco a correr para a janela e a lançar-se no vazio.
- Bem-vindo à Eva, – saúda o gato sorridente, ajudando o seu amigo a levantar-se. - Já só faltam os outros três!
- E John, onde é que está?
- Vai a caminho do Umbigo.
- Mas ele não pode entrar sozinho!
- Tenha calma, ele só chega ao Umbigo quando nós quisermos.
No labirinto mágico do asilo de Salpetrière é hora de ponta, os doentes entram e saem num ritual frenético, que lhes parece lavar as almas atormentadas. O jardineiro e os seus amigos procuram despreocupadamente um espaço, e encontram-no junto à fonte.
- Não era melhor termos ido para um sítio mais calmo? - Pergunta Richard Cinfuentes.
- Este é o sítio mais calmo, não é por acaso que os utentes lhe chamam o Paraiso! -Responde o Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua ( ai de mim, autor, que não escrevesse o nome todo; ainda aparecia no meu quarto e lançava-me um feitiço ! ).
- O Paraíso, este cubículo feito de ervas, é o Paraíso?!
- Doutor Cinfuentes, tamanho nunca foi qualidade, é por isso que o Universo está a encurtar-se. Não temos tempo para filosofias, mas sim para continuarmos com a missão “Novo Olhar”. Os senhores doutores também vão tomar parte nesta última fase.
Vamos ao Umbigo da Eva!
- Senhor jardineiro (boa maneira de se safar!), e como é que vamos para o Umbigo, apanhamos a camioneta ali na esquina? - Pergunta o neurologista francês, num tom jocoso.
- Como é que adivinhou, doutor Lipiérre? Sim, vamos num autocarro que estará ali na esquina hoje à meia-noite, quando a Lua estiver bem redonda. Não se atrasem!
- Mas falta um elemento, o engenheiro Paulo Prestes, – alerta o coronel Narciso.
- Não se preocupem, nós vamos buscá-lo logo à noite.
- Buscá-lo? Mas onde é que ele está? - Pergunta a Rita.
- No hospital de Highlands?!
- Highlands? É verdade, eles têm lá doentes pós-encefalíticos, como é que eu não me lembrei? Vou telefonar para lá.

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