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Os excursionistas entram e sentam-se confortavelmente. A máquina arranca, fazendo um peão poeirento e atravessa novamente o portão, que permanece fechado.
- Senhor motorista, Highlands fica na Escócia, do outro lado do Canal da Mancha. Como é que vamos passar?
- Vamos pelo túnel!
- Pelo túnel?! Mas não há nenhum túnel!
- Daqui a alguns anos haverá um túnel. Doutor Cinfuentes, se gostasse de filosofia, saberia que alguém já tinha descoberto que a essência precede a existência, e é esse o meio de viajar pelo Tempo.
Mar, túnel, Highlands, espaço do tamanho dum átomo, percorrido num tempo que não pode ser medido.
O engenheiro Paulo Prestes olha para a enorme janela panorâmica do quarto andar e vê que o Céu está mais estrelado do que nunca. O colete-de-forças não o deixa acompanhar o ritmo do pensamento com gestos abstractos. A sua memória encontra-se muito longe, está na quinta da família, que se situava na maravilhosa província do Antro, uma das zonas mais ricas da República do Estômago. Todos os domingos de manhã era acordado cedo pelo avô e ambos percorriam os trilhos dos cabreiros, os criadores da célebre Cabra- -Antral, um animal possante e saboroso. Iam à cabana do senhor Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua. Enquanto o avô e o amigo ficavam a conversar, ele ia ver os brinquedos mágicos que habitavam a casa. Lembra-se que adorava brincar com os “três tempos”.
- Estes três bonecos de madeira não gostam de mudar de posição, – explicou-lhe um dia o senhor Cabra, como lhe costumava chamar. - Tenta mudá-los.
O rapaz agarrou nos das pontas e trocou-os.
- Agora temos de esperar um pouco!
Poucos minutos depois começou a vê-los estremecer e de repente voltaram às suas posições iniciais.
- Mas isto é magia? - Perguntou-lhe a criança, meio sorridente, meio assustada.
- Não Paulinho, isto não é magia, é verdade. Cada um destes bonecos é o dono de um Tempo. O encarnado e o azul já gastaram os deles e agora querem ficar com o do amarelo.
- E o amarelo vai deixar?
- O que é que tu fazias se fosses o amarelo, Paulinho?
- Não dava o meu Tempo, os outros já usaram os deles!
- Mas o azul não quer dar. O que é que fazias?
- Se for preciso luto, vou defender o que é meu.
- É isso mesmo o que está a acontecer Paulinho, o amarelo resolveu ir à luta.
À hora do almoço regressaram a casa e ainda se recorda de ter passado o resto do dia a fazer perguntas ao avô sobre os “três tempos”. Seria verdade? Agora algo lhe diz que sim, estas recordações não lhe vieram à memória por acaso.
- Senhor Paulo Prestes, agora dedica-se a atirar cadeirões pela janela? - Pergunta o médico de serviço, interrompendo-lhe a viagem ao passado.
- Tive de fazer aquilo, senão o meu amigo não conseguia sair.
- O seu amigo?
- O monarca Helias II.
- Ah, um rei! Tem um amigo que é rei, mas que fino. E ele conseguiu sair?
- Sim, atirou-se.
- Sabe que morreu um homem, o nosso cozinheiro-chefe, que ia a passar naquela altura por baixo da janela?
- Foi uma ilusão, doutor. Ninguém morreu!
- Ilusão?! Senhor Paulo Prestes, a polícia está aqui à espera que eu lhes diga se é ou não o responsável pela morte daquele infeliz. Basta-me dizer-lhes que você estava na posse das suas faculdades mentais, para o levarem preso.
- Doutor, ninguém morreu e eu já não vou ficar aqui por muito mais tempo.
- Eu confirmei o óbito do pobre cozinheiro. O senhor é que fez a sua opção, vou chamar o delegado e dizer-lhe que você agiu conscientemente.
Entretanto, na capela mortuária o Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua aproxima-se do corpo.
- Detesto ter que fazer isto outra vez, tinha jurado que nunca mais usaria os meus poderes, mas as circunstâncias a isso me obrigam, – e aproxima-se do cadáver, coloca-lhe a mão na cabeça e prossegue, – Júlio Meia-Lua, levanta-te e anda!
Um feixe de luz, vindo de cima, incide sobre o cozinheiro gorducho e este abre os olhos.
- O que é que eu estou aqui a fazer? Esta brincadeira foi longe de mais, adormecerem-me e deitarem-me aqui, hei-de descobrir os responsáveis.
A porta do gabinete do director abre-se e o médico entra.
- Delegado, pode levar o senhor Paulo Prestes, ele é o responsável pelo crime. Aqui tem o documento que lhe dá alta hospitalar.
De repente, uns gritos quebram o silêncio nocturno e todos se precipitam para o congestionado corredor. Qual não é o espanto dos presentes, quando vêem o Meia-Lua.
- Meu Deus, mas isto é milagre, – diz uma senhora muito idosa, ajoelhando-se.
- Eu, eu.... Eu, eu confirmei a sua morte, eu, eu... fiz-lhe a autópsia.
- Então foi o senhor doutor que os mandou colocarem-me na capela?
A cena é dramática, o médico tem um ataque cardíaco fulminante. Os papéis mudaram radicalmente, o morto está vivo e o vivo está morto, estranhos são os caminhos do destino.
- Este arquivo, que é da Humanidade, não tenho chaves para esta porta! - Explica, para quem o pode ouvir, o senhor Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua.

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