segunda-feira, 11 de maio de 2026

82 - Cordeiro Verde - O Papão - Dies Irae (parte 2)

 

82

Asilo de Salpêtrière, Paris, 17 de Junho de 1969

- Não compreendo doutor, houve uma regressão, hoje de manhã estranhei não o ver no refeitório e vim ao quarto. Estava assim, sentado na cadeira de rodas, completamente imóvel.

- O seu olhar é calmo, parece estar em paz, – diz o neurologista Álan Lipiérre. - Estes últimos dias foram intensos para todos nós, eu tive sonhos maravilhosos, as personagens pareciam reais.

- O senhor Narciso está feliz!

- O corpo parou, mas no entanto a alma move-se, disso não tenho dúvidas.

A enfermeira retira-se e o médico senta-se junto do paciente, agarrando-lhe cuidadosamente numa das mãos.

- Caro Narciso, agora sei que não tem tormentos, a prisão onde se encontra é maior que o mundo, nada daquilo em que acreditamos tem valor junto do tesouro que descobriu. Nestes últimos quatro dias aprendi mais do que em toda a minha vida.

Lipiérre levanta-se, dirige-se para a janela e olha sofregamente para o jardim mal cuidado.

- Nos meus sonhos o relvado era lindíssimo, as flores pareciam o arco-íris e até havia um labirinto mágico, onde íamos dar de beber às nossas almas. Narciso, só nos sonhos é que alcançamos aquilo que desejamos, é um sentido reprimido nas nossas profundezas. Tu conseguiste descobrir o pote de ouro que se esconde no fundo do teu espírito, – um rápido silêncio põe os olhares frente a frente. - Que paz interior tu exalas, a tua felicidade é contagiante, quais são os teus sonhos?

Uma lágrima escorre pela face do doente, é a resposta da emoção ao silêncio do corpo.

- Obrigado meu amigo, vou em paz, agora sei que tens o espírito sereno.

Um novo planeta vem saudar os passageiros da “Air-Cabreiro”. Envolve-o uma auréola brilhante, as suas cores distribuem-se entre o castanho e o azul. Perto de si há um corpo celeste mais pequeno, luminoso e pelejado de crateras.

- Terra, este planeta chama-se Terra e é o destino de John.

- Mas afinal, para que é que serviu toda esta aventura? Vou ser despejado aqui, num sítio que não conheço, longe da família e dos amigos, para quê?

- Para arranjares um passado! Sem ele, ficarás à mercê da selectividade do Eterno Retorno, que é parecida com o que vocês chamam selecção natural.

- Uma selecção natural de ideias?

- Mais ou menos.

- Aquilo é o “Piolho-Um”? - Pergunta Rita, apontando para um objecto que se encontra atrás do autocarro.

- É, o vosso querido “Piolho-Um” vai levar John para a Terra.

A nave corporal aproxima-se e...

- Meu Deus, quem é que vem dentro dela?

- Não Rita, é melhores não olhares.

Em tempos de muitas dúvidas, tudo serve para procurar explicações que deem respostas apaziguadoras. Mas na ânsia de alcançar a verdade, muitas vezes descobre-se o que não se quer. Na nave “Piolho-Um”, que se encontra à deriva, perdida no Universo, enviada pelo Coração, o mais poderoso país do planeta Corpo, vai o que resta de toda a tripulação, dez corpos mumificados pelo tempo. Rita observa-se, em silêncio, sabe que não há respostas, ou talvez também não as queira. Vê John a entrar na nave e a desaparecer na atmosfera da Terra.

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