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A grande bênção de Deus é que, a cada momento, podemos recriar-nos. Cada momento é uma oportunidade de fazer uma escolha. A escolha de pensar um bom pensamento, de pensar um mau pensamento, de reagir a ele, de deixá-lo passar. O pecado é só a incapacidade de escolher a bondade. A bondade é uma escolha!
Fátima 23 de dezembro de 2011.
Não, o Jorge ainda não casou e se queres que te diga, não tem intenção de o fazer já. Vai namorando, tem uma boa cabeça e faz tudo com uma inteligência que me surpreende. Faz amigos e amigas em todo o lado, é super popular, mas muito, muito simples. Nem sei a quem sai. A tua Carlota é mesmo a tua cara. Parecias tu. Só que não podia ser. Mas de repente foi um "olha a Sesaltina". Já tem namorado? E tu, pelo que me disse a Natália, estás muito bem. A Natália está sofisticada, anda sempre impecável. Quanto a mim, cá vou. Ainda não acabei o tratamento que continua a não ser pera doce. Mas tenho coisas boas, e essas é que realmente interessam. Um grande beijinho, a ver se um destes dias combinamos um café rápido no Shopping. Daqueles ao fim da tarde, um bocadinho à pressa. Mas como nós sabemos fazer resumos, dizemos tudo. Um grande beijinho de todos para todos.
Sesaltina, 8 de julho de 2012.
Olá Fátima, preciso muito de falar contigo ao telefone, pode ser? O meu numero é 910000000 mas como não pago a chamada manda-me um sms p.f. com o teu num que eu ligo-te. Bjs e até breve
Na Casa do Lago, a meio caminho entre os dois dúplex que serviam de habitação ao senhor João e à mulher, a dona Rosa, caseiros, e ao senhor Manuel, motorista, e à mulher Blondina, vivia a filha do coronel Osório, Palmira, casada com o doutor Henrique Matias, que deambulava diariamente pela vasta vivenda, perdido nas alucinações da Doença de Alzheimer. Num anexo a Maria José, criada e mãe solteira, era o seu braço direito e fiel amiga, que estava eternamente agradecida à patroa por a ter acolhido na gravidez de adolescente acossada. E um parto difícil tinha transformado a vida do seu Joãozinho num inferno, só atenuado pelas mãos de fada destas duas mulheres. Chegara agora a vez do infeliz ser chamado para junto do Senhor. Não muito longe dali o investigador incumbido de descobrir a causa da morte do Joãozinho dava início, contrariado, à missão que lhe fora distribuída. Na escola que o rapazito frequentara, Bartolomeu deu de caras com um mundo vivo, com personagens caóticas e orgânicas, presas num ambiente claustrofóbico e insano. Sentiu-lhes a respiração possível e viu que nos seus olhares havia uma vontade de falar, porque gritavam sem voz. Eram homens e mulheres em constante conflito, vítimas da rejeição e ignorância do passado, e catalogados no presente como “socialmente diferentes”, que comunicavam mais pelos gestos do que pelas palavras. Depressa descobriu a primeira qualidade desta gente, não fingiam ser o que não eram, com eles todos aprendiam a ser autênticos. Sentiu o cheiro agreste de fezes e urina. A cena era tão comovente como perturbadora. Estava perante um hipotético crime incomum, que teria passado despercebido se o corpo tivesse ido parar às mãos de uma médica comum, onde o simples bom senso imporia uma solução óbvia. Espreitou para outra sala, também tão lúgubre e silenciosa que, só de olhar, se emocionou. Tossiu uma tosse seca e nervosa, e esfregou, com rapidez e repetição, as mãos uma na outra.
- A intransigência trouxe-me aqui – disse, com uma voz com um travo de tédio, resguardando cuidadosamente do olhar aquele mundo de emoções.

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