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- Nunca ninguém falou com eles? – Interveio Sara.
- Houve muitos mal entendidos, - respondeu a governanta, acariciando a figura do candeeiro do papagaio embalsamado.
- Mal entendidos?
- Na comunicação, uns pensaram uma coisa, outros outra, e acabaram por magoar-se mutuamente.
- Agora o problema da comunicação está resolvido, – exclamou Isabel com um ar triunfante, e um sorriso de orelha a orelha, mostrando o portátil. – Com isto não pode haver enganos.
A conversa continuou, a governanta mostrou às raparigas o caderno de anotações da bisavó Matilde, que a mãe da Sara tinha deitado para o lixo, e que ela guardara, à espera do momento oportuno para o mostrar. Antes de morrer a antiga patroa pedira-lhe para tratar com carinho os seus fantasmas e passar a mensagem às gerações seguintes. Não conseguira convencer nem a avó nem a mãe de Sara, e agora com a idade avançada já pensava que falhara a missão, porque era duma missão que se tratava. Sara e Isabel eram agora a sua última esperança.
- Olá Quitéria, - gritou Filipe, o jardineiro do palácio, de longe, acenando com a mão.
Esta relação dava uma meditação lúdica sobre a realidade e a ficção, conceitos que não são nada óbvios, porque estão sujeitos a uma realidade periclitante. Ensinar-nos-á a aceitar uma fatalidade nua, crua, sem pudor e em que as emoções falam pelos corpos. Por isso a história de Quitéria da Conceição e de António Filipe escreve-se devagarinho, umas páginas aqui, outras ali, por vezes volta-se, porque a fama deles foi o resultado de uma estranha e intensa relação, cercada por prisões afetivas, que teve um profundo amor pelo vinho límpido e sem atalhos. Mesmo quando a descrição da relação é cruel no retrato, as palavras magoam, mas também são convencionais, lúdicas, acabam sempre por vir à procura do outro lado, capaz de justificar as decisões que os levaram para sítios inesperados, porque para eles o tempo era para ser vivido e não desperdiçado. Ela era uma mulher sem raízes e sempre em fuga, não pertencia a parte nenhuma e estava em toda a parte; ele era muito bem mal-afamado, um homem marcado por um passado, ambos estavam muito longe do paraíso perdido, eram náufragos na pequena vila de Paço de Arcos, destinados a tocarem-se e a divergirem de todas as vicissitudes, que os levavam muitas vezes a unirem-se como dois ponteiros de um mostrador de um relógio à meia noite.

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