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O pecado é só a incapacidade de escolher a bondade. A bondade é uma escolha. Cada momento é uma oportunidade de fazer uma escolha. A escolha de pensar um bom pensamento, de pensar um mau pensamento, de reagir a ele, de deixá-lo passar.
- A minha bisavó deve andar por aí, - exclamou Sara entusiasmada e olhando para todos os candeeiros que podia alcançar. – Ainda vamos ser amigas.
Abriram com sofreguidão o caderno e leram-no pausadamente, ao mesmo tempo que Adelaide recuperava as memórias empoeiradas. Tinha todos os momentos guardados, registados, retidos. Ela suportou-lhes as impaciências, as queixas e as revoltas.
- Às vezes ouvem-se os soluços, - explicou a governanta.
- Talvez seja uma destas figuras, - disse Isabel, apontando para um candeeiro e rindo-se.
Quando a noite veio ficaram cercadas pela escuridão, junto a uma lareira, imóveis, silenciosas, observando o fundo de um corredor e a sua paisagem visual cheia de tudo e de nada, como se fosse uma tempestade parada. Sara abriu um livro, uma fotobiografia de Fernando Pessoa, e deu de caras com o poeta a enfiar um copinho pela goela abaixo, enquanto Isabel subiu por uma escada ornamental. Primeiro ouviu um ruído ténue, que se tornou mais forte, mais firme, mais audível. Correu em direção a algo, mas foi distraída por uma frase escrita num quadro:
- “Princípio de um caminho é a nascente de um rio” – Leu, em voz alta.
Adelaide reparou que a amiga de Sara prolongava as suas palavras com as mãos e que quando tocou na pintura os dedos apertaram-se, como se colhessem a fruta.
- Sinto o cheiro, e o gosto da casca, colam-se à minha pele.
Por momentos Adelaide viu Isabel fazer-se corpo de Matilde. Os minutos de espera eram agudos como agulhas. Isabel sentiu afetos envolverem-na no silêncio e na escuridão, mas quando sentiu uma mão fria a apertar-lhe o rabo, gritou:
- Apalparam-me!
Sara levantou-se e correu para junto da amiga. Olharam-se em silêncio, até que se abraçaram no meio de risos barulhentos de adolescentes. Adelaide sorriu e lembrou-se duma passagem no livro de anotações da sua antiga e saudosa patroa: “Não há detalhes supérfluos, tudo é significante, nada é natural ou está lá por acaso, por isso decorei a casa para que os meus amigos se sentissem confortáveis”.
- Eles querem falar, - disse a governanta.

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