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O mundo de Filipe, que trabalhava como jardineiro no palacete do coronel Osório, e de Quitéria, era como todos os mundos, feito de verdades e mentiras, mas um mundo regular. Repetiam alegrias e tristezas, eram unha e carne, odiavam-se com a mesma força que o vinho os unia. Foi uma relação complicada, num tempo e numa parte do mundo complicadas. Por isso o mundo onde viviam era contraditório de luz, paixão, confusão e caos, estava ligado a uma marginalidade que, apesar de tudo, tinha os seus princípios. A miséria possuía a chave para a relação entre estas duas pessoas, reféns de um amor maldito que foi longe de mais, para lá do aceitável. Esta é uma estória de afetividade de um casal com valores fluidos, onde já não havia ilusões, e que tinha sonos sem sonhos. O instante decisivo na vida de Quitéria correspondeu a um descarrilamento pessoal. Este romance tem de ser julgado pelas próprias cabeças que o lêem e não pelo que os outros dizem. Num dia já muito distante o calendário pendurado numa das paredes do café “Iolanda” assinalava o dia 30 de março de 1971. Quitéria passou junto a uma casa com ameias na Avenida e lembrou-se da escola primária e da professora Edviges, ao mesmo tempo que sentiu o cheiro das batatas fritas da Mariana. Viu ao longe uma imagem do passado, o senhor Bazílio em cima da carroça, puxada pelo burro, a sair da carvoaria, para mais uma distribuição de carvão pela zona:
- Coitado, morreu cedo, atropelado na curva da morte, a caminho da praia velha, - recordou este homem de temperamento vivo e raciocínio lento.
Quitéria era uma ninfeta da praia e do mar, uma mitologia natural, tinha apenas a idade e o impudor, o ar perdido, a perversidade um pouco transtornada, os brilhos e movimentos e apetites, beber, comer e andar. Quando passou junto ao Cineteatro “trocou” os cartazes do Bruce Lee, amarelados pelo sol, pelas telas gigantescas que anunciavam o concurso de Miss Paço de Arcos, onde outrora participara e ganhara. Tinham sido tempos de boémia saudável, em que as concorrentes eram conhecidas como as “espanholas”. O vidro da vitrine refletiu a sua imagem, transformando-se na porta de entrada do seu espírito sonhador. Deixava de ser a adulta que se governava pela ditadura do real, passando a reger-se pelos jogos do imaginário. Tossiu, para aclarar a voz, saudou a imagem para lhe conquistar a confiança e deixou sair uma ampla indignação exclamada de impropérios e gritos, que quase quebrava o espelho. Para ela o mais importante era voltar as costas à realidade. Conseguia assim conciliar as exigências contraditórias do sonho e da vida, mergulhando a fundo nas suas memórias, ilusórias miragens de felicidade. Fez caras baças, caras brutas, a voz ficou rouca, sobre-humana. Sabia que era capaz de grandes afeições, mas também de enormes raivas e ressentimentos, e isso assustava-a. Teve sonhos pequenos, um pouco mais longos, de novo pequenos. Era só ali que os construía. Ouviu um cão a ladrar. No bairro onde moravam dizia-se que os cães ladravam à noite porque viam fantasmas. Coisa que agora o Bóbi fazia regularmente quase todas as noites junto ao palacete, debaixo da janela onde costumava pernoitar a menina Isabel, amiga de Sara, filha do senhor Jóni, filho do coronel Osório.
Para os lados da vacaria, junto a um terreno de pasto, Carlos cavava no chão com vigor.
- Tem a certeza que foi aqui que enterrou a mula?
- Quase a certeza!
- Quase?!! Ainda vou passar aqui o dia todo e depois o bicho está a dormir noutro lado.
A vida tinha destas coisas, a mula que o pai do senhor José trouxera da tropa vinha com obrigações e livrete que a atestava como propriedade do Exército Português. A morte dela deveria ter sido comunicada, assim como deveria ter sido entregue o respetivo documento de identificação. Mas já lá iam muitos anos! E agora os burocratas bateram-lhe à porta, porque nunca um equino vivera tanto tempo.
- Penso que o meu pai a enterrou com o livrete dentro de uma saca presa ao pescoço da Joaninha.
- Pensa?!!
- Já foi há tanto tempo!
- E para que é que eles querem o livrete? – Perguntou Carlos coçando os testículos.
- Para dar baixa da mula, que já tem anos a mais!

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