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O detetive Bartolomeu espreitou pela janela da instituição e assistiu a um acasalamento de cães, ao mesmo tempo que sentia aquele imenso espaço existencial, e frio. A mãe do Paulinho veio-lhe à cabeça. Nunca pensou que este caso pudesse ter tanto poder, que pudesse criar um poço sem fundo, onde todas as suas convicções acerca da justiça caíssem e desaparecessem como fantasmas. Perdera-se a si próprio, estava triste, queria desesperadamente sair daquele mundo sem sol, onde só havia frio e sombras. Descobriu que a sua incessante busca de conhecimento não o tinha tornado imune às emoções. Lembrou-se do diálogo com a mãe.
- Onde está Deus senhor Inspetor? Que mal é que eu Lhe fiz para me dar mais uma desgraça destas, já não Lhe bastou a primeira? - Perguntou, agarrando-lhe a mão, como um náufrago a uma tábua de salvação.
As perguntas eram pertinentes, o Deus Omnipresente e Omnipotente distraíra-se durante o nascimento do Paulinho, e também não a ajudara agora na hora da sua morte.
- Dona Maria José, o deus em que eu acredito não é exclusivo de ninguém, por isso nunca pode estar em todo o lado ao mesmo tempo – respondeu o detetive apertando a mão daquela mãe desesperada, com carinho.
A maioria dizia que acreditava em Deus, mas zangavam-se constantemente com Ele sempre que lhes acontecia algo de mau, o Livro Amarelo do Céu estava cheio de reclamações, onde todos Lhe perguntavam porque é que não tinha escolhido o vizinho em vez deles? Um deus particular e uma fé limitada, em vez de um Deus de todos e de uma Fé inquestionável.
- O Mal é mais generoso para os seus, veja esta juíza. Mandar analisar a urina na fralda para ver se o Paulinho morreu por falta de medicação. Isto é mau, é muito mau!
- Confesso que acho um exagero, é a primeira vez que sou confrontado com uma coisa destas.
- Se eu fosse uma assassina ele nunca teria chegado a esta idade. E passou-me tantas vez pela cabeça acabar com todo o seu sofrimento.
- Só quem passa pelas situações é que sabe, os outros limitam-se a falar sem conhecimento de causa.
- E é só para alguns. Durante algum tempo o meu filho foi seguido em Lisboa, num centro grande chamado Caloustre Gulbenkien e teve uma colega, a Obiana, com o mesmo problema, e que viera com o pai de Cabo Verde, ao abrigo do protocolo de saúde que existe com o nosso país.
E contou que mal o pai se legalizou em Portugal, chamou a numerosa família, que tirou de imediato a Obiana da instituição onde andava, para assim recuperar o subsídio com que o Estado Português pagava à escola, e trancaram-na definitivamente na barraca, deixando de lhe comprar os medicamentos necessários para a sua sobrevivência. O golpe tinha sido dado, a Obiana servira para saírem de Cabo Verde, e agora não passava de um fardo em Portugal. A assistente social foi várias vezes alertada para a situação dramática, mas como não gostava da profissão, que conseguira à custa de uma bela cunha, nada fez e nada disse. E quando a menina morreu, acompanhada pelo seu fiel amigo, não apareceu nenhuma juíza para fazer justiça. Por terem a cor escura estavam imunes, graças ao “politicamente correto”, que poderia virar o feitiço contra a feiticeira, e acusá-la de racismo. A justiça estava exclusivamente direcionada contra os brancos!

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