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Nos intervalos entre momentos bem aventurados de felicidade e segurança, e momentos perdidos de desespero, desorientação e sofrimento, os avós tinham de escolher uma via perante as trevas, ou tapavam a luz, ou acendiam uma vela. Acendiam sempre uma vela! Queriam que tudo isto fosse um sonho, mas sabiam que não era. Por isso contavam recorrentemente à neta a estória do homem que saiu até tarde numa bela montanha na véspera da Páscoa e ouviu o som de uma mulher cantando com tristeza, lamentando-se, vindo das próprias pedras da montanha: “Sou uma mulher do Universo, o povo levou-me mais uma vez, as pedras pareciam dizer. Subi ao topo da montanha e o vento levantou-se, e o som dos trovões ressoou pela Terra. Colocou a mão na pedra mais alta e viajou para uma terra longínqua, onde vivi por uns tempos no meio de estranhos, que se tornaram em amantes e amigos. Mas um dia viu a Lua a nascer e o vento soprou mais uma vez. Então, tocou nas pedras e viajou de volta à terra natal e voltou para o homem que tinha deixado para trás”.
- Era uma miúda em vão tentando recuperar restos, fulgores de um dourado amor, - confidenciou uma noite à sua prima Márcia.
E a rapariga com que Vitalina sonhava todos os dias chamava-se Katherine, que se atirou ao rio Avon em maio de 1579, para cumprir o “chamamento”, que ela acreditava ter um motivo, sabia que era o seu fim, mas não que iria dar um grande salto na fé, renascendo para sempre como Ofélia em Hamlet de Shakespeare. Por isso quando deu a última expiração sentiu o corpo a fugir como um cavalo a galope, e a beleza saiu de rompante de dentro de si sem pedir autorização. O medo de acordar morta e não saber o que fazer, desvaneceu-se na presença dos novos amigos, muitos deles também antigos amigos. Os olhos melancólicos, a janela da alma, ficaram sem cor. A vida é uma série de interrupções causadas por almas semelhantes. Em Cabo verde os sábios, escondidos no meio do povo, diziam que a cada dois mil anos nascia um humano com um código genético tipicamente extraterrestre, com uma mente tão poderosa que conseguia ligar o passado ao futuro

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