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O dom da presença do avô não desapareceu com o corpo, que lavou e vestiu, e cuja morte assumiu nas suas próprias mãos, após a vigília ao moribundo. As últimas palavras aumentaram ainda mais as dúvidas sobre a sua origem: “Aí vou eu Príamo!”. Às vezes os dias não acabavam, ou então terminavam longe, as estórias ficavam fora de controlo e baralhavam ainda mais Vitalina. Recordava-se de ser miúda e ouvir, ao pôr-do-Sol, as estórias do avô sobre um mundo esmorecido, mas do qual ainda lhe chegavam ecos audíveis. A memória do avô pairava numa espécie de limbo, de onde a verdade era difícil de resgatar, por isso muitas vezes os dias nunca acabavam, dando-lhe apenas escassos fragmentos. O tio Eduarlete teve mais uma das suas muitas convulsões na noite do velório, e todos olharam para aquela manifestação vendo um transtorno ético e divino, que o avô sempre dissera ser profético, pois ouvia-o a falar com os deuses. O olhar ficava vazio, sinal de que entrara no estado de transição, necessário para ir além do compreensível. O avô via os ascendentes da neta como entidades divinas, mas dizia que não acreditava nisso porque conhecia muito bem Vitalina, e ela via-o como igual. E numa noite escura apontou para uma planta florescente junto a uma árvore e disse:
- Em noites de Lua cheia trava a transformação de gente como tu em homens e mulheres. Mas a tua avó nunca me deixou dar-te para comê-la, por isso agora não sabes quem és. Até as peles que tinhas a ligar os dedos dos pés caíram.

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