sexta-feira, 22 de maio de 2026

162 - O Bisneto do Padre Joaquim - Dia 2 - 19 de novembro de 1949 (sábado) - "No pequeno-almoço"

 

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- O Matias cada vez está pior, - queixou-se o avô.

- Mas o que é que lhe aconteceu pai? – Perguntou o Victor Hugo. – Adorava essa garagem de Amarante.

- Mudou de mecânico, e este só fez asneiras.

- E o Joaquim, que dizem ser mecânico da aviação, não será mais sério? – Interveio o Fernando.

- Na dúvida é bom não mandar fazer consertos em Amarante, sem que o proprietário esteja presente, ou pessoa da sua confiança, a fiscalizar a obra. – Respondeu o dr. Mário de Miranda, e continuou. - Na segunda-feira vou ao Porto remediar as asneiras feitas em Amarante.

- Não te esqueças de levar o documento de identificação, - advertiu a mulher Maria da Glória.

Os documentos de identificação passaram a ser obrigatórios a partir de 1926.

- Está aqui – disse o avô do Miguel mostrando um livrinho.

- Posso ver – pediu o neto.

Era um livrinho de seis páginas de capa dura, forrado a pano vermelho vivo. O hóspede abriu o documento e reparou na foto, tipo passe, o senhor estava com um ar composto, sinal de que se tinha preparado, o olhar era sério e compenetrado, sobrancelhas cuidadas, em formato de acento circunflexo. Escolhera uma camisa branca com gravata preta e um blaiser escuro.

- Também deves ter um documento de identificação? – Perguntou o avô.

- Sim tenho a aplicação “Gov.pt”!

- Aplicação “Gov.pt”?

- No aparelho, - mostrou e ativou a app, mostrando de seguida o Cartão de Cidadão.

O Dr. Mário de Miranda olhou demoradamente para o écran do telemóvel e de seguida devolveu-o ao neto.

- Pai ouvi dizer que a filha alemã do tio Marco Aurélio vem passar aqui uns dias? – Inquiriu o Mário.

- Passar umas férias, concluiu o curso dos liceus e vai ingressar numa universidade alemã.

- Mas tu não falas alemão Mário, - provocou o Jorge.

Riram-se!

- E a mulher do Marco deixa? – Questionou o Fernando.

- Não sei, brava como ela é. É preciso diplomacia. A pequena não tem culpa de vir a este mundo. Enfim, quem as faz é justo que as pague. E esta extravagância é um aviso para vocês não caírem no mesmo erro, - e olhou diretamente para o Jorge.

Na vida há muitas perguntas e falta de tempo para dar respostas. Quem principiara a conversa no pequeno-almoço fora o anfitrião, depois de todos se terem servido de leite, colhido uma hora antes, e barrado o pão de Padronelo com manteiga rançosa.

- Muitos japoneses vivem segundo um livro chinês com 5000 anos, o “I-Ching”. Fazem-lhe perguntas como se estivesse vivo. E está vivo. Dizem que tem um objetivo porque não conseguimos ver o caminho em frente sozinhos. Ele mostra-nos o que nos espera. – Exclamou o Fernando mudando o assunto.

E olhou para o senhor que se dizia ser seu sobrinho.

- O nosso livro está à mesa, - disse o Jorge com um ar jocoso.

Miguel olhou para o pai e sorriu. A situação era inimaginável, olhava para a família de quem conhecia todo o futuro, ele era uma espécie de “I-Ching”, sabia o que lhes esperava. Conseguimos viver no nosso mundo, se o tolerarmos. Sabia que o tio Mário não o iria tolerar. Será que se lhe contasse tudo seria diferente?

- Caro senhor Miguel, - chamou o avô Mário. – Dê uma olhadela nestas anotações feitas pelo meu pai.

O profícuo padre Joaquim Ribeiro Alves de Miranda, senhor da Casa de Quintela, que nascera no dia 31 de janeiro de 1830, e educara, com a ajuda da sua “santa irmã”, Eufrásia Clemente de Miranda, todos os filhos que tivera com três mulheres diferentes: Christina Augusta, Manuel Augusto, Augusto Adelino, António Augusto, Leonor Augusta, Mário, Dulce Augusta e Albertina Augusta. O bispo do Porto acabou por chamá-lo para lhe pedir para ser “mais discreto”. No dia 17 de setembro de 1912 foi para um jazigo perpétuo no cemitério de Gestaçô.”

Durante largos minutos a mesa permaneceu em silêncio observando o hóspede a ler o papel, ao mesmo tempo que comiam, o que ele fez várias vezes. Contou pelos dedos e disse:

- Falta aqui um avô, o tio-avô Aflalo! – Exclamou o hospede.

Pararam de comer e olharam para o desconhecido.

- Não sou mais do que um homem iludido, - desabafou o Dr. Mário de Miranda quebrando o silêncio.

- Iludido? Tem uma família unida, uns filhos responsáveis, criou a Misericórdia de Baião, onde esteve 15 anos, construiu o Hospital, contra tudo e contra todos. “Só prejuízos e más vontades”, escreveu na carta que enviou ao meu pai em 3 de dezembro de 1947. Não, é um bom homem, talvez bom demais para este mundo.

O avô tinha várias queixas da vida. Quando era miúdo só queria um pai, era a única ambição, imaginava-o um grande homem, a fazer coisas tão importantes que não teria tempo para ele. Mas no fim só fizera muitos filhos, de mulheres diferentes, e quando chegara a sua vez deu-lhe um nome a correr, Mário de Miranda, ao contrário dos primeiros, só tivera direito a dois, um nome próprio e um apelido. A única maneira de encarar a verdade da vida é afastarmo-nos dela, para podermos ver as consequências de todos os pensamentos, de todas as ações. Mas mesmo assim estamos limitados ao tempo e ao espaço, incapazes de definir o nosso destino. Ele só está nas mãos de alguns homens, por isso são incapazes de perceber as diferenças entre tempos e espaços diversos.

 

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