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Há momentos em que a nossa vida muda numa fração de segundos e nunca mais seremos os mesmos. Esmagada pela dor, a piscar os olhos à luz que já não via, qual cega que pestaneja na noite, levantou-se sem visibilidade, sem qualquer orientação, sentindo-se abandonada. O tempo não espera por ninguém e também não cura todas as feridas. Nesta estória o corpo da Menina do Lenço foi objeto durante o tempo que durou a doença, porque foi mexido e remexido por dezenas de mãos, tal como os corpos das prostitutas. A sua morte foi uma interrupção obscena da normalidade quotidiana. Deixou o seu marido e as duas filhas aturdidas diante do vazio, do súbito silêncio das coisas, numa aproximação à entropia do luto. Deus enganou-se, apesar de alguns dizerem que houve razões para tudo ter acontecido. Como é que Ele iria emendar um erro Seu? Parando o Tempo? De tudo o que o futuro poderia trazer, o passado era o menos provável. Ninguém faria voltar à vida aquela que morreu.
- Nunca morras, – pediu-lhe um dia a miúda gira, de olhos vivos.
- Vou fazer os possíveis! – Prometeu-lhe a miúda do lenço, de olhos sorridentes.
Enquanto o estado físico geral se degradava, o mundo inteiro começou a colapsar nos abismos da memória, que levaram à lenta ruína da mente, à medida que a patologia progredia, empurrando-a para o apagamento definitivo, que ocorreu no dia 12 de setembro de 2013, não sem antes acordar, com uma explosão de crise, a última energia antes do final, e dizer que não queria, sinal da sua promessa de ser sempre forte e de ter entusiasmo pela vida. A última imagem que viu foi o sorriso das suas meninas do coração, exemplarmente preparadas para enfrentar o dia seguinte. E foi neste momento que apareceu um anjo e disse o seu nome, a sua consciência continuou, deixando o corpo para trás. Iria agora saber que fazia parte de algo maior. Infelizmente ninguém a fará voltar à vida para ver o que aconteceu depois. Não é o número de anos que vivemos que importa, as nossas vidas resumem-se apenas a um conjunto de momentos. Nunca saberemos quando ou onde irão acontecer, mas eles ficam connosco, marcando as nossas almas para sempre. Sesaltina deixou as memórias dos seus abraços, das suas mãos, do seu cheiro, do tom da sua voz, das suas gargalhadas, porque o silêncio tem cor, cheiro, temperatura, gosto, o seu futuro será o silêncio. Por isso há sempre um tempo para ganhar, um tempo para perder, um tempo para amar, um tempo para odiar, um tempo para a paz. Ouviu pássaros e um vento a chegar de longe, era a parte morna da vida a trazer novas cores. E nunca é muito tarde. Com a estória da Miúda do Lenço caiu o maior mito de todos os tempos, o livre arbítrio, o amor irá pois dar continuidade ao sofrimento e à dor. Agora que a madrugada começa permanecerão calmos, e a lenta mão do destino puxa o véu e deixa-o exposto. O Céu não conhece tamanha ira como a do amor transformado em ódio!
A diferença entre passado, presente e futuro é apenas uma teimosa ilusão. O erro em todos os nossos pensamentos, é que cada um de nós acredita numa identidade independente. Um eu ao lado de incontáveis eus, quando na realidade somos apenas fra ções de um todo infinito. Tudo se repete, uma e outra vez, para toda a eternidade, porque somos todos feitos de estrelas!
A relação da Fátima com a Sesaltina ficou guardada nos SMSs, eliminando as barreiras do tempo e do espaço, passou a ser uma conversa entre dois planos, abrindo assim um imenso universo de possibilidades. Iriam um dia encontrar-se numa dessas esquinas dos caminhos insondáveis do deus dos cristãos.
P.S.: Jesus não se sentou à direita do Senhor, mas sim à esquerda!

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