terça-feira, 19 de maio de 2026

139 - A Miúda do Lenço (M) - (52)

 

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Fátima, 5 de agosto de 2013

Oh miúda, laranjinha? Foste ao aniversário do Passos? Mas olha que hoje em dia se usa tudo e um pouco de loucura não faz mal a ninguém. Se bem que gosto de te ver com o teu branquinho. Mas se podes e queres mudar, faz tudo a que tens direito. Depois manda uma foto, gostava de ver o resultado. Quanto ao resto, ora porra. E porra e porra. Mas não te preocupes com a morfina, tenho um amigo que tem um cancro da próstata, esteve há uma semana a morfina e agora está uma maravilha. Graças a Deus os tratamentos evoluíram muito, se bem que às vezes pensemos que somos uma cobaias nas mãos dos médicos. Creme tens que pôr e pôr e pôr. Felizmente os pezinhos escapam sempre são um fetiche. Mas o resto é mesmo assim, parecemos umas velhotas encarquilhadas. Vou 5 dias ao Algarve. Só 5. Não dá mais. Mas já é muito bom. Ainda não fiz praia, ando uma chata do caraças. A ver se o Tó leva as filhotas, tu também ficas aí a descansar que bem precisas. E o verão agora é mesmo quando um homem quiser Depois vamos as duas. Vai-me dizendo coisas. Quando passam três, quatro dias das minhas mensagens e não respondes, fico alerta. Sou parva, eu sei Um enorme beijinho.

 Fátima

Então, o cabelo? PSD? E o resto?

Uma noite balbuciou algumas palavras que ninguém percebeu, perdeu a consciência, dançou até esgotar a energia, foi abraçada pela sombra impiedosa do apego a que já não se tinha, sentiu uma distorção do tempo e do espaço, ainda teve tempo para fazer duas perguntas: seria só uma probabilidade matemática? Seria a sua perda a eminente perda dos seus, o caminho para chegar a Deus? Não queria morrer, mas sobrevivia naquela espécie de limbo que não era morte nem vida, apenas uma sonolência contínua que a levitava ligeiramente acima do chão que os simples mortais pisavam. Viu o Golfo de Torento cinzento, espalhando o fumo do Vesúvio, só entrecortado pela Lua que teimava em sair detrás de uma nuvem,  e morreu. Sentiu ser tocada e reencontrar-se como criança, tudo o que fora feito estava perdoado! A “morte” é uma palavra que, à priori, se refere a tudo o que não existe. O conceito sobre o momento em que termina a vida, está errado. Não há uma definição universalmente aceite para a morte, a declaração de morte difere de país para país. E ela não ocorre num único instante, mas ao longo de semanas.

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