sexta-feira, 15 de maio de 2026

110 - A Miúda do Lenço (23)

                                          

110

Sara deu uma olhadela rápida ao caderno da Bisavó e leu em voz alta:

- “O segredo dos meus hóspedes não está neles, mas sim na perceção que temos dos objetos da casa. Consegui desenvolver a sensibilidade mínima para descobrir as visões localizadas, é tudo uma questão química e hormonal”.

- “Visões localizadas”?! – Exclamou Isabel, uma adolescente frágil, de dentes encavalitados, com um olhar risonho.

- É melhor irmos dormir, amanhã temos de estudar a porcaria da matemática, não te esqueças dos TPC, - disse Sara levantando-se.

- Descansem meninas, amanhã levo-lhes o pequeno almoço à cama, - prometeu Adelaide, fechando o diário de Matilde.

As únicas provas dos acontecimentos que tinham conseguido resistir à erosão do tempo era o livro de registos da bisavó, vestígio físico e afetivo do passado. A meio da noite Isabel foi acordada por um suspiro sofredor e sonoro. Sentou-se na cama e começou a olhar com os seus olhos perscrutadores.

- Quem és tu? – Perguntou, com uma voz lenta e baixa.

As janelas abriram-se com estrondo, levadas por um vento e por uma tempestade inesperada, brilhante, veloz e aterradora, como se fosse, não do domínio do ar, mas do interior obscuro do quarto. E ao contrário do que era previsível, Isabel riu-se com satisfação, deixando cair uma lágrima. Só uma, que caiu indefinidamente, fazendo-a aperceber-se do seu amor pelas coisas. Havia uma alquimia em que não era fácil reconhecer se se brincava ou se era a sério.

- Afinal existes, e eu quero ser tua amiga! – Disse, ao mesmo tempo que agarrou numa caneta que estava na mesa de cabeceira para tirar apontamentos visuais e registar reflexões, com pequenas letras negras impressas em pequenas folhas brancas.

De repente tudo ficou calado, o vento, o pó e a rapariga. A figura esguia de Isabel levantou-se com uma gentileza leve e um gesto ritmado, aproximou-se das janelas e fechou-as. Sentia um amor que nunca fora vivido, que estava suspenso.

- Queres que eu me constipe?

Uma sombra vaga rodeou-a e a rapariga controlou a ansiedade com um sorriso no rosto e uma calma no corpo, ao mesmo tempo que se aproximava de um quadro pendurado na parede, onde uma fruta vermelha cintilava. Ouviu um sussurro, que pairou durante breves segundos, e depois voou. Isabel estava decidida a passar pela porta interdita. Da maçã brilhante saiu uma pequena luzinha com a forma de um pirilampo, que caminhou com passos vagarosos para o centro do quarto, que era uma sombra. Quando viu a mão estendida da rapariga, que estava ao seu lado, avançou para o corredor vazio e apagado, parando junto de uma janela com uma cortina de cor branca em fuga, marcada numa ponta com um borrão vermelho. Foi nesse momento que Isabel ouviu uma tosse surda, seguida de um silêncio denso. Esperou. Ao longe, junto de uns sofás, havia uma estante com livros. Um Tolstói destacava-se e um papel sobressaía. A rapariga aproximou-se e reparou que tinha algo escrito. Era uma mensagem com palavras escritas com uma tinta inquieta:

- “Os meus mortos continuam a mudar dentro de mim. Continuam a inquirir-me. Ando à procura de um rosto em fuga, com uma beleza tão natural que parece sobrenatural”.

Ouviu um silêncio cheio de gritos.

Sara sonhou com palavras, imagens e cores de um tempo a preto e branco, onde um fantasma, que emergiu súbita e gentilmente da leveza do ar, lhe sussurrava ao ouvido, com frases que corriam, paravam, recuavam, avançavam, desapareciam e reapareciam. Viu uma luz, seguida de uma sombra. Foi acordada por uma canção acerca de coisa nenhuma. Estava tudo desfocado, desproporcionado. Sentiu uma entidade estranha, não corpórea, porque não podia tocar, mas que podia escutar e encarar como um ponto de luz. Viu então um mulher lívida, de sorriso estampado na cara. O seu olhar era doce e perspicaz. Sara chorou, talvez de medo, talvez comovida.

- Olá, - disse, com graça e gentileza, tateando no escuro.

Foi rodeada por uma aura de luz fantástica, com cores e brilhos. Sentiu forças e energias novas, que lhe deram uma sensação de superior serenidade. Uma tinha uns olhos azuis penetrantes enquanto que a outra tinha uns olhos pretos pequeninos.

- Bisavó? – Perguntou timidamente.

Respondeu-lhe “sim” com a boca e “não” com a cabeça. A noite espessa voltou. Sara tentou encontrar algum interruptor que lhe acendesse uma luz. Pediu ajuda para o ar. As emoções espontâneas fizeram-na gritar frases soltas. Isabel entrou de rompante no quarto e ambas abraçaram-se com força, sentindo abraços frios. No chão do quarto estava um pequeno papel escrito que caíra de um velho livro do Eça: “Um quarto para as seis. Que hora tão improvável”.

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