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Porque vivia num mundo difícil para se ser boa, Leonilde deu um gole com força no gargalo da garrafa de tintól que comprara no “Severino Seco”, não sem antes ter pedido 10 tostões de manteiga, meia-quarta de café, uma quarta de arroz, pondo com brusquidão uma garrafa fazia em cima do balcão, tendo o senhor Fernando perguntado com um ar de gozo:
- É para pôr petróleo?
O líquido entrou de rompante na garganta. Ouviu murmúrios que caiam uns sobre os outros, atordoados pelo turbilhão de sentimentos do antes, do durante e do depois. Viu olhares hostis, medonhos e perversos, os pensamentos ficaram caóticos, excessivos, fantasmagóricos, estava ali e fora dali, distante com proximidade, num universo fragmentado no tempo e no espaço, com um clima de tensão no limite do insuportável, cheio de pássaros negros chocando no ar. Protestou desesperada quando se apercebeu que estava a perder os contornos, tornando-se distante e próxima, distante porque parecia estar a ser enrolada por acontecimentos contraditórios, próxima porque sentia o seu cheiro único. Foi coberta por um nevoeiro que alastrou e cerrou, sentiu um peso pesadíssimo sobre o corpo, viu no reflexo da janela do café do “Manuel da Leitaria “que tinha uma sombra no rosto. A porta abriu-se e uma gótica com vestes negras e olheiras profundas espreitou. Leonilde sentiu então o peso inexorável do destino, as pessoas do passado tornaram-se figuras reais, acreditou então que já não tinha um começo, estava sim num tempo de epílogo. Iria dar-se o grande e definitivo confronto com o destino. Caiu desamparada aos pés da noiva.
- Que grande cadela, - gritou um jovem adulto que estava no passeio oposto. – Aproveita Quitéria Barbuda, ainda há leitinho na garrafa.
O Tubarão nascera num bairro popular, onde habitavam ladrões e polícias, e por isso hesitou durante muitos anos que lado haveria de escolher. Como ladrão seria o maior, o mais provocador, o mais inspirado. Como polícia seria o mais criativo, o mais inovador, o mais inspirador. Vivia assim numa tensão, num conflito, num desespero, na dor. Parecia que o céu inteiro se juntara para o tramar. Ele sabia que o desastre era inevitável, que acabaria por chegar até que o tempo o apagasse da memória. Teve meditações viscerais sobre a natureza da violência urbana, lembrou-se do grupo de adolescentes aparentemente fraternais, quando não estavam a lutar uns contra os outros. Se optasse pela polícia, que grau de traição seria? Não queria trair os amigos, mas por outro lado esse respeito impunha-lhe a sua submissão. Sentiu uma tensão e o sentido da ameaça, viu pesadelos no horizonte com criaturas sinistras, era uma luta entre o real e a fantasia. Não tinha aprendido a ser autêntico. O trapézio onde se encontrava não tinha rede. Estava a ir longe de mais para quem já tinha testemunhado o pior. Nunca poderia fingir ser o que não era.

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