sexta-feira, 15 de maio de 2026

108 - A Miúda do Lenço (21)

 

21

Quando a noiva ia a atravessar a rua, um gato preto atravessou-se no seu caminho e pediu-lhe uma festa, sendo prontamente correspondido. Lembrou-se da experiência mística em Vila Fria, que a marcara para toda a vida, um encontro imediato com Mefistófeles. Só que a estória ficava sempre pela metade e a parte do tinto nunca mencionava. Era agora uma sofrida mulher de branco, com uma silhueta atípica, senhora de uma voz sem paz e de um amor profundo por um gato preto vadio, que escolhera por residência um buraco no telhado da primeira barraca que habitara com o Filipe. Nesse tempo Quitéria guardara uma cautelosa distância desse felino, que todas as madrugadas miava junto à roupa estendida. Mas uma noite acordou sobressaltada com o desespero do gato a bater-lhe freneticamente na cabeça, ao mesmo tempo que gritava desesperado. Sentiu pavor e deslumbramento. Pavor do fogo que se aproximava vindo da porta do quarto, aceso pelos vizinhos, e deslumbramento por aquele gato preto que tanto temia, tudo isto acompanhado por memórias sensoriais da infância. Diante dos dois seres vivos desenrolou-se uma comédia indecifrável, que os contaminou e tornou a dissociação dos dois impossível de fazer. Nasceu assim um amor belo de ir às lágrimas, a preto e branco, milagroso, que teve a força dos acontecimentos. Por isso quando vieram viver para Paço de Arcos, o Eusébio veio com eles. No fim da vida, na Torre da Aguilha, um lar de freiras no Arneiro em Carcavelos, já cega, pedia sempre às amigas que a iam visitar para alimentarem o gato que ficara. 

A igreja de Paço de Arcos estava pejada de homens, mulheres e crianças, quase sem espaço para respirar, o ar estava espesso com toda aquela respiração excitada, todos à espera que começasse o magnífico entretenimento. Quando Filipe viu Quitéria atravessar a rua na sua direção reviu a sua antiga mulher, benzeu-se. Nunca conseguira molda-la à sua fantasia. Os noivos deram um abraço, entregando as saudades que tiveram um do outro, e entraram de braço dado. Ela tinha uma figura humilde, sorriso tímido, olhos magoados, com receio de se fazer grande, ele ia sempre muitíssimo além dos limites, tinha sentimentos reativos muito instáveis, exterminaria sempre as suas personagens se deixado sozinho com elas.

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