sexta-feira, 15 de maio de 2026

106 - A Miúda do Lenço (19)

 

19

Quando ia a passar pela “Maria das Bicicletas” Quitéria sentiu duas emoções, uma boa e outra má. A primeira teve como causa um casal de pombos que se beijava afincadamente por cima da papelaria “Dáni”. Veio-lhe à memória o seu primeiro beijo. O tema ainda a atormentava. Afinal o quotidiano não era assim tão normal como pensava, e o beijinho que dera na boca de um rapaz alto, robusto e simpático, numa tarde de chuva num canto qualquer no Bairro dos Corações, depois do vigésimo olhar, com o reflexo dos pensamentos na ponta das línguas, que se enrolaram com fúria, deixou saudades do que não teve e do que não foi. Ela tinha-lhe posto os braços sobre ele, e nos olhos de ambos brilhara a mesma luz fixa. Não houve tempo para a sedução e a conversa. Viu-se longe, de perfil, na imaginação que tinha de si, grávida e só. Quitéria estava triste e contente, suspensa no seu alheamento, esquecida do tempo e de si própria, impessoal. A paixão tinha sido bela, simples e frágil. A vida afinal era mais imprecisa do que parecia. Quitéria vibrou e tremeu como os pássaros antes de gritarem, correu sem tempo e sem fôlego, enterrando os pés na terra cansada de chuva. No seu rosto havia uma fixação, uma obsessão. Escutou um susto. Era o jornaleiro a apregoar as notícias do dia. A emoção má veio do café “O Papagaio”, que lhe relembrou a tragédia do Carlos, o Pinguim. Tudo começara com pequenas derrotas diárias que tentou superar com esforços rápidos. Descobriu que a vida era mais imprecisa do que parecia e a sociedade pouco amistosa, porque não dava tréguas aos perdedores. Aquele rapaz enfrentara o desafio dos limites, que o empurrara para um estado de desespero, onde nada encaixava em nada. Deixara-se embalar pelo estribilho do mar de Paço de Arcos. Vira as nuvens encastelarem-se e as torres das muralhas da Direção de Faróis, instalações do antigo Grupo de Defesa Submarina da Costa, enegreceram até ao impossível. Um dia, quando estava no seu café “O Bachil”, pôs as mãos na nuca e pensou no caos probabilístico da vida onde ninguém tinha a certeza de coisa alguma. Lembrou-se dos vícios e dos incontáveis ridículos, olhou para a porta do armazém, uma tempestade rugiu com ventos e o céu desfez-se em água. Foi o sinal de uma coisa mais alta, e viu nele a forma indecisa de felicidade. Esvaziou o coração das mágoas e dos medos, rasgou um sorriso, pôs a corda ao pescoço e, antes de saltar do banco, o céu abriu para deixar surgir os últimos raios de uma luz lenta e leve, ouviu vozes vindas de uma raiva sem centro e apercebeu-se que a sua vida continha em si a sua própria negação. A mulher do Russo trouxe-a à realidade com uma palmada violenta nas costas:

- Acorda Quitéria, estás mais para lá do que para cá.

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