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O que distingue uma estrela é estar lá, naquele limite isolado, brilhando a vida toda. Quando Vitalina ouviu a patroa, professora no Instituto de Geociências e Ciências Exatas da Unesp, a mencionar “oumuamua”, numa conversa ao telemóvel, sentiu um arrepio na espinha. Lembrou-se do avô Ezequiel em São Tomé, um homem alto, elegante, quando um dia lhe perguntou se tinha sido trazida por uma cegonha:
- Oumuamua! – Foi a resposta, acompanhada de um sorriso cativante.
O 1I / 2017 U1 fora descoberto um dia por uns astrónomos mais curiosos, era o primeiro visitante interestelar do sistema solar, e desaparecera em alta velocidade pouco depois. Chamaram-lhe “Vela Solar”, uma forma de transporte que se move usando a radiação do Sol como vento, e calcularam ter um comprimento de 800 metros. E a órbita não era uma elipse. Vitalina tinha agora demasiadas perguntas para aquele momento. O avô Ezequiel amava a sua língua, dizia que era a sua arma, antecipando o que um dia sabia que aconteceria, a comunicação, e ela já era compreendida por muitos dos outros. As respostas que estavam caladas no seu inconsciente tinham emergido agora quando ouvira o telefonema da patroa. Lembrou-se dos livros de Júlio Verne que o avô lhe oferecera na Ilha do Sal, e dissera que os outros eram eles próprios, estava na sua natureza, nos seus sonhos e pesadelos. Sentiu medo, medo do desconhecido e das más memórias. Seria mesmo uma “Princesa” de verdade, e não apenas um miminho do avô? O ancião respondera-lhe que era amada pela Deusa Chang, que morava no lado oculto da Lua. E ele tinha um dom de fundir calão e erudição sem quebras de tom, e tudo isto dentro de uma relação forte e divertida com uma mulher que conhecera cedo na escola. A conversa tivera lugar à frente de um mar de uma praia coberta por um céu cinzento. O avô sentia que pensar na morte alguns minutos por dia o fazia sentir-se mais vivo, sabia que a sua breve partida era inevitável, pelo menos como bastante provável, no estado em que se encontrava.

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