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Deus infinito, Deus misericordioso, Deus eterno, um dia ficaremos diante Dele e obteremos as respostas a todas as nossas perguntas sobre tudo o que se passa no Seu universo. O noivo entrou com o ego perfumado, ornamentado, penteado e barbeado, que cresceu à medida que entrou na igreja, batendo os calcanhares quando parou no altar. A noiva olhava através da janela para um futuro onde não descortinava esperança alguma. A seguir olhou para o noivo e sentiu uma atração estranha, como um contágio. O silêncio ficou absoluto, as pessoas curvaram-se nas cadeiras. A sala estava povoada por pequenos risos que afloravam mais ironia do que alegria. O espaço era muito preciso quanto aos olhares e aos movimentos. O padre falou de “consolação e alegria” à sua congregação, mas percebia-se que muitos não conheciam esses conceitos. Na comunidade religiosa de Paço de Arcos a ideia de irmandade estava longe de ser digerida, por isso quando se iniciava o ritual do beijo nos pés do Senhor, tudo terminava após o Craveiro Lopes os lambuzar. E muitas foram as vezes em que a sua querida Laurinda tentou assistir ao ritual, porque naquele lugar de tantos santos também havia um para a sua fiel companheira de quatro patas mas, como tudo na vida, aqui também havia filhos e enteados, apesar da “igualdade” e “piedade” serem as palavras mais proferidas nas homilias, sinal de que entre a teoria e a prática há um fosso que vai diretamente para o inferno.
- Deus é o amor e o amor é Deus, - e olhou para os noivos, que expunham as feridas da comédia trágica das suas vidas, com uma mistura de pensamentos instáveis.
Mesmo estando na comunhão mais profunda e sentimental das suas vidas, não se comoveram com aquelas palavras. Era a dor de Filipe, física e moral, que permitira à vila aceitá-lo. Quitéria lembrou-se do seu território sentimental, o bairro onde crescera, muito pobres em tudo menos em tipos humanos, ao mesmo tempo que lançava aos convidados um sorriso tímido, com um indelével toque de desassossego. Não julgavam ninguém e ignoravam o julgamento dos outros. Como era olfativa, as memórias de infância eram os cheiros dos cozinhados da mãe, e da garrafa, que escondera numa árvore na Terrugem de Cima, longe dos olhares reprovadores e violentos do seu Filipe, com um tinto que aquecia a alma mais desassossegada. Estes dois pensamentos provocaram-lhe uma lágrima fácil.
- Estado civil?
Quitéria tinha os neurónios preguiçosos, por isso demorou algum tempo a responder. Este era o momento mais feliz, mas ela não sabia. Passados tantos anos tornara-se fatalmente numa mulher diferente. O Filipe representava uma paixão sofrida, por isso mais intensa. A cumplicidade de um dia era a distância do outro.
- Solteira, - respondeu com um sorriso ríspido e rouco, desprovido de sentimentalismo, apática, olhar distraído e ânimo sufocado.

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