quinta-feira, 21 de maio de 2026

159 - O Bisneto do Padre Joaquim - Dia 2 - 19 de novembro de 1949 (sábado) - "O Tio Fernando"

 

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Quando o Fernando se afastou, Miguel imitou o uivo de um lobo. O tio parou, olhou e perguntou:

- Acredita em lobisomens?

Miguel lembrou-se das noites na Quinta de Palmazões quando iam visitar a avó Maria nas férias de Natal. O tio Fernando levava-o, e à irmã Tété, para a noite escura e uivava aos lobisomens, apesar da ciência oficial, embebida de aristotelismo, refutar a possibilidade de uniões férteis entre espécies diferentes. Seria o conceito de “mundo” o resultado de erros e fantasias transmitidas de geração em geração? Qual é a essência da vida que permitiu a criação da situação onde os dois agora estavam? O tio Fernando sabia que havia mais coisas no céu e na terra do que alguma vez sonhara a filosofia, por isso tinha uma mente contranatura, e talvez fosse através dele que iria convencer a família Miranda, à qual também pertencia, da realidade que não era a deles.

- Nada morre verdadeiramente – disse, e continuou. – O universo não desperdiça nada, tudo é simplesmente transformado. O meu irmão António está vivo algures.

- Se todos nós estamos, é possível, - respondeu o Miguel.

- O que não percebemos pode ser assustador. Andava eu a escrever sobre civilizações extrassolares, e afinal de extraterrestre não tens nada, viajaste apenas para o passado para chegares aqui.

- Estamos possivelmente ligados por uma espécie de sintonia familiar, a nossa consciência criou a mesma realidade.

- Tenho ali na biblioteca um livro que associa o pensamento a quantos de energia que podem sintonizar pessoas que estejam na mesma onda, da mesma forma que as ondas de rádio na mesma faixa podem ser captadas por aparelhos específicos. Mas pensava que tudo se passava no mesmo tempo. Espinosa dizia que Deus era a natureza e eu acredito agora nisso. A tua presença é sinal da nossa imortalidade basta navegar no tempo.

- Mas até agora fui eu que vim, será que o tio pode ir ao futuro?

Quando a realidade do mundo nos assusta, pode ser reconfortante pensar noutras hipóteses. Essas hipóteses podem perturbar-nos, mas não superam o nosso desejo de fugir à tirania da consciência e aos limites das nossas perceções, para podermos libertar-nos da mente que nos aprisiona. Tudo na esperança de compreender as coisas, principalmente as ilógicas.

- És um viajante, vieste através do tempo - disse o tio Fernando quebrando o silêncio contemplativo.

 - Viajante?

- Sabes o que são Tabuleiros de Ouija?

- Tabuleiros de Ouija?

- Servem para comunicar com quem partiu. O meu pai tem usado esses tabuleiros para tentar falar com o António. Um dia destes aconteceu algo, um “fenómeno espetral” segundo contou à minha mãe, e eu ouvi quando ia a passar pela porta do quarto deles, E apareceste tu!

- Eu não sou um fantasma!

- Dizes tu. Então, quem és?

- O Miguel, seu sobrinho, filho do Jorge!

- És um paradoxo, só deverás nascer em …

- 1960!

- E, no entanto, estás aqui, em 1949, 11 anos antes. Existes e não existes permanentemente, assim o permite a tua energia inconsciente, somos uma ilusão um para o outro.

- E, no entanto, dialogamos e sentimo-nos, - exclamou o Miguel dando um abraço ao tio, fazendo abanar o penico, que transbordou.

Riram-se!

- Para a seguir nos esquecermos, sinal de que os nossos mundos se integraram, para a seguir se desintegrarem. Por alguma razão atravessaste o plano astral. Talvez tenhas passado a membrana com a tua mente, através de uma descarga de adrenalina que causou uma curta explosão num sonho profundo de onda alfa. Os únicos seres superiores com quem possamos entrar em contacto somos nós próprios. Fico descansado, não podemos ser eliminados por outros, porque se interferires nos destinos que conheces arriscas-te a deixares de existir. A minha dúvida sobre a teoria de Einstein de não conseguir explicar correlativos com a velocidade e peso da luz confirmou-se com a tua chegada.

- A minha presença já está afetando a realidade, já estou a interferir, porque em vez do tio manter as dúvidas já tem uma certeza, um conhecimento que pertence ao seu futuro.

- Esperemos que o tempo não seja tão sensível a estas nuances, que elas não quebrem o seu ciclo. Quanto a mim, não passarei de um simples maluco em quem ninguém confiará.

 

“Carta de Marco Aurélio a informar a Tia Glória do internamento do Fernando

20/08/1956

Lá consegui internar o Fernando no regímen livre, para experiência. Também falei com o director das estradas do distrito, que é um antigo condiscípulo, e que me prometeu que o deixaria andar neste regímen de não fazer nada mais algum tempo. Assim como tem as ajudas de custo 70$00 diários, isso dará para o Hospital que são 52$00 diários. Paguei as contas do hotel, 2 semanas, visto ele andar sem dinheiro, e a pensão no hospital até ao dia 30 de setembro. De maneira que ele assim não precise de dinheiro a não ser para pequenas coisas. O melhor será não lhe mandar dinheiro a não ser por meu intermédio, porque eu direi que lhe empresto pois assim ele vem traze-lo logo que receba e não haverá desperdícios. Ele anda um pouco melhor. No próximo sábado tenciono ir às Figueiras e se ele estiver melhor e quiser ir, levo-o comigo. Disponha do sobrinho e amigo, Marco. P.S.: Incluo as contas.”

Os eletrochoques, sem usarem relaxantes ou anestesia, causaram transpiração abundante, subcoma, agitação, gritos, espasmos, ataque epilético, paragem de agitação. Irá culpar a PIDE de tortura, e por arrasto Salazar. Os delírios corriam em paralelo com as suas obrigações profissionais, que nunca foram afetadas, encontrando-se sempre em pleno uso das suas faculdades mentais. Por isso chegou ao topo da carreira de engenheiro de estradas da Junta Autónoma do Porto.

A partir de uma determinada altura da sua vida o Fernando passou a entrar e a sair de estados cognitivos.

Miguel ligou o telemóvel e na pasta “galeria” procurou uma fotografia. Quando a encontrou mostrou-a:

- O tio de smoking e óculos escuros parece um mafioso.

O Fernando agarrou no aparelho e riu-se.

- A festa na Faculdade de Engenharia.

No dia 23 de maio de 1949 o dr. Mário de Miranda teve de arranjar à pressa um smoking, para o filho poder ir ao fecho do Congresso de Engenharia.

- Tio como é que vai a tropa, gosta de Tancos?

- Até agora está tudo calmo.

No dia oito de agosto o Fernando tinha-se apresentado no quartel para frequentar o Curso de Oficiais Milicianos. Iria estar até 1954 onde terminaria no posto de tenente.

- Vai viajar pelo mundo – desabafou o Miguel.

- Viajar?

- Macau, Hong-Kong, Yokohama, Tóquio, Kamakura, Nagoya, Kyoto, Osaka, Kob, Moçambique.

- E vou viver até quando?

O hóspede apercebeu-se do possível erro, falar do futuro, apesar de ter uma vontade imensa para o fazer, e mudou de assunto, nunca poderia dizer ao tio que iria morrer na casa de Palmazões, no dia 11 de novembro de 1990, às 11H00, com 65 anos, porque as consequências poderiam ser desastrosas para si.

- Preciso de ir fazer xixi!

A casa era grande e arejada, tinha 8 divisões, cozinha de chão térreo e telha vã, para suspender o fumeiro e a rede onde se deitavam as castanhas para secar ao fumo e ficarem piladas. Não tinham água corrente, era transportada em cântaros à cabeça de uma nascente a 200 metros abaixo, por uma criada descalça quase exclusivamente dedicada a essa tarefa. Na casa de banho havia uma banheira grande de zinco, uma sanita, um estrado de madeira sobrelevado com um orifício redondo que vazava diretamente para um rego, uns 5 metros abaixo. Ao sair deu de caras com a avó que exclamou:

- Isto não está a acontecer, - recusando a realidade que estava à sua frente.

O que todos não sabiam era que a realidade não era pré-definida, o Miguel não passava de um paroxismo de algo que sempre estivera lá, era essa a correlação entre os genes e a gravidade quântica, que permitia manipular o espaço-tempo, neste caso inconscientemente, porque também era um assunto do futuro para o bisneto do padre Joaquim. As fórmulas para transpor as ondas de matéria, que permitiam traçar uma viagem para outro lugar, e para outra altura, ainda estavam muito distantes, apareceriam na altura em que as naves fossem dirigidas pela Inteligência Artificial, que as tornariam vivas, permitindo que as suas ondas de matéria crescessem e se modificassem, abrindo caminho para o passado. Fernando abraçou repentinamente o sobrinho e ele correspondeu com a mesma força. O tio afastou a cabeça, olhou para o hóspede e este reparou nos olhos húmidos de emoção, tal como estavam os dele. Como era possível sentir-se assim sobre alguém que ainda não tinha conhecido? Talvez o Fernando estivesse a sentir que as ondas gravitacionais estavam a levar a consciência do Miguel a escorregar para o tempo dele. O espaço-tempo estava a desdobrar-se!

 

 

 

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