quinta-feira, 21 de maio de 2026

156 - O Bisneto do Padre Joaquim - Dia 1 - 18 de novembro de 1949 (sexta-feira) - "Prova de Vidas"

 

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O avô acompanhou-o até aos limites da casa e desejou-lhe uma boa-tarde, pedindo-lhe educadamente para que não os voltasse a incomodar.

- Dá-me uma última oportunidade para tentar esclarecer as dúvidas, Dr. Mário de Miranda? Ou será Mário Joaquim Ribeiro Alves de Miranda, como sempre desejou, mas que o seu pai não registou?

- O que é que o senhor quer dizer com isso? – Perguntou, já um pouco transtornado.

- Sei que o avô ….

- Não me chame de “avô”, o senhor é mais velho que eu. Não posso estar a perder tempo com fantasias, tenho mais em que pensar!

- No seu cancro do pâncreas?

- Como é que sabe disso? É confidencial, não contei a ninguém, os rapazes não podem saber.

- Avô, é tudo verdade, venho de 2023, sou o seu neto Miguel, filho do Jorge. Vim visitar-vos, o meu pai morreu no dia 2 de abril de 2022. Não me peça explicações sobre isto tudo, porque eu também não sei dá-las. Mas esteja descansado, o destino de todos não será revelado, eu não vim aqui para mudar o passado.

Mário de Miranda sentou-se num muro, tirou um lenço do bolso esquerdo do casaco, ajeitou os óculos, e limpou a testa.

- Fantástico! – Exclamou, olhando pela primeira vez para o neto. – Mas ainda tenho dúvidas!

- Ambos temos, e muitas, - retorquiu Miguel mostrando-lhe uma foto de 1943.

- Os meus versos para o António? Mas como é que os conseguiu? Não mostrei a ninguém, tenho-os guardados na escrivaninha!

 

“Filho perdido!

Cobriu-se-me de sombra o claro dia

Por onde a frágil vida me levava;

Por ele venturoso caminhava

Dos meus entre o amor e a alegria.

 

Ao meu filho querido eu já o via

No meio dos triunfos que sonhava!...

Passou a asa da morte e transformara

Curta manhã de sol em noite fria.

 

Como relíquia nesta solidão

Deixou-me n’ alma o derradeiro beijo

Da sua primavera inda em botão,

 

O adeus supremo o último lampejo.

E chamo: - António! Filho!.. Mas em vão

Ansioso o vou buscando e não o vejo.

 

Penaventosa

Abril 1943”

 

O Miguel sabia que o tio António tivera uma vida efémera, nascera em Baião, a 20 de abril, dois dias depois dele, em 1930, dia de Páscoa, às 0H30 em Penaventosa, freguesia de Campelo, e morrera no dia 31 de janeiro de 1943 de sarampo com broncopneumonia e abcesso pulmonar na casa de família na rua Fernandes Tomaz, 242, Porto. Doze anos, somente doze anos! No ano seguinte a Penicilina foi introduzida em Portugal pela Cruz Vermelha.

- Fantástico aparelho, como é que disseste que se chama?

Miguel esboçou um sorriso ao se aperceber que o avô Mário o tratara agora por “tu”.

- Telemóvel, chama-se telemóvel, e serve para muita coisa, mas é principalmente um telefone.

- Como é que o texto sobe?

O neto aproximou-se do visor e arrastou-o com os dedos, passando para o outro verso.

 

“Angústia

Em sonhos o meu filho bem amado

Veio aquecer a minha solidão:

Entrei no mundo irreal da ilusão

Do seu límpido olhar iluminado!

 

Contra o peito o seu peito magoado

Cingi a dar-me alento ao coração!

Meiga cara era sol! Com seu clarão

Deixou-me por instantes deslumbrado!

 

Acorre a mãe dorida de ternura

E o nosso amor o vai acalentando …

O doce sonho teve pouca dura

 

E foi-se, como sonho, dissipando …

Se me havia de fugir a visão pura

Ai! – porque não continuei sonhando?!!

 

Penaventosa

Maio 1943”

 

- Foi duro avô, perder um filho assim tão novo. O meu pai praticamente nunca falou dele, aliás falou muito pouco de vocês, optou por escrever.

- Não se recupera de uma perda destas. Ainda tenho uma sensação visceral de que ele está vivo. Em breve estarei com ele, não é? Sinto a presença do António, é como se ele tivesse acabado de sair para a escola.

- Não sei, não sei!

- Não sabes? Mas estás aqui, sabes mais do que eu!

- Sei que estou aqui, mas não sei como.

- Gostava de adormecer como tu e rever o António. Se alguma vez souberes onde fica a passagem para esse mundo paralelo diz-me. Houve uma coincidência estranha no dia da morte, 31 de janeiro, em 1943, pois foi o mesmo dia e mês do nascimento do meu pai, teu bisavô, em 1838.

Fez-se o silêncio das memórias, até que Mário de Miranda se levantou, abraçou o neto e convidou-o:

- Vem, ficas por cá o tempo que quiseres, temos muito para conversar, e uma coisa é certa, estamos os dois no mesmo dia, que é o sítio onde ambos estamos obrigados a viver. A tua viagem tem uma razão ou propósito. Talvez a energia do António ande por aí, e a sua substância material esteja com ele. O teu aparelho já conserva algo, a imagem. Será que podíamos ir mais longe? Fica, fica o tempo que quiseres, espero que seja muito. Talvez conheças mais um tio!

- Se deixar ir o António, ele libertar-se-á e talvez regresse com mais facilidade. Em 1956 uma ambulância que irá ser oferecida à Santa Casa da Misericórdia de Baião terá como madrinha a avó!

- A minha viúva! Tenho de ir tratar dela, está outra vez cheia de dores.

- É a ciática da avó?

- Como é que tu sabes?

Miguel abriu os braços com as palmas das mãos viradas para a frente e levantou os ombros, ao mesmo tempo que sorria.

- Esquece, tens razão. Estou-lhe aplicando umas injeções nas veias, diariamente, que parece a vão curando, embora lentamente.

O hóspede abriu a bolsa que trazia pendurada à cintura e tirou 4 comprimidos.

- Dê dois à avó!

O dr. Mário de Miranda olhou para o remédio e leu:

- “Algimate”?

- É para as dores!

- E como é que os tiro daqui?

- Carregue no comprimido.

Quando se despediram o neto ainda reforçou:

- Sei que o avô salvou um rapaz de morrer afogado no rio Teixeira, no verão de 1904. E em 1921, dia 30 de março salvou outro na praia da Polana, em Lourenço Marques reanimando-o.

- Como é que sabes? Que pergunta estúpida!

- Li a carta que escreveu em 1932 ao Diretor do Instituto dos Socorros a Náufragos a candidatar-se a uma medalha. A propósito, como é que o processo andou, não descobri qualquer registo nos papéis do meu pai?

- Nem me respondeu!

- A notícia no “Lourenço Marques Guardian” do dia 30 de março de 1921 ficou para a posteridade, a medalha seria só mais uma carica.

- Carica?

- Uma rolha! Um exemplar do jornal está arquivado na Torre do Tombo em Lisboa.

O homem só é forte pelas pessoas que o rodeiam, pela comunidade que serve e pela família que se comprometeu proteger. A força vai busca-la a eles, e por eles tem de estar preparado para dar tudo. A sua vida através do seu sangue, senão tudo o que fez não servirá para nada. Ele é nada. Mário de Miranda, como homem da ciência, ficou a pensar em tudo e em nada, por isso foi à biblioteca e escolheu dois livros, que levou para o quarto. Não disse que revia o seu filho Jorge no hóspede. Uma coisa o bisneto do padre Joaquim já notara, a energia do seu telemóvel conservava-se nos cem por cento, e a data estava atualizada: 18 de novembro de 1949!



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