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Uma certa manhã, quando se preparava para fazer a barba, o coronel Osório descobriu estupefacto, no espelho da casa de banho, o rosto de um estranho. E reparou também que a casa estava toda a preto e branco. Sentou-se num banco e olhou para o chão, para o espaço entre os seus pés. Lembrou-se subitamente de um gesto e de coisas num outro tempo passado. E foi com as mãos aflitas à procura dum fósforo, que acendeu um cigarro que já estava na boca. Apesar de perseguido pelo fantasma do seu próprio fim, tomou a decisão de não se deixar derrotar. Afinal ele era um militar! Tinha a ilusão de que a sua normalidade o salvaria. Sentiu ciúmes. Correu para a secretária, tirou uma folha de papel, agarrou na caneta de tinta permanente e começou a escrever uma carta. Subitamente a sua mão esquerda apoderou-se da folha e da caneta e atirou-as ao chão.
- Queres guerra canalha, mas a Mercedes é minha – disse, agarrando na caneta e pondo-a debaixo do braço. – Acho que estou com febre.
Olhou para o quadro a óleo que estava pendurado por cima da lareira, que nunca queimara nada, e reparou que o olho esquerdo da sua saudosa mulher estava um pouco maior que o direito. De repente viu-a a um canto da sala. E não foi só uma vez, nem só um dia. Nos espelhos estava o estranho, nos cantos a dona Mercedes.
- Além de não teres morrido, ainda por cima trouxeste cá para casa um amante, - gritou, tentando agredi-la. – Desavergonhada!
E viu também que a decoração da casa tinha sido mudada, havia novos quadros nas paredes. Quando um dia entrou no quarto de hóspedes, reparou que as paredes não passavam de um amontoado de tijolos e argamassa.
- Obras, o teu amante é pedreiro.
O coronel Osório estava perplexo e inquieto. Sentiu que o seu amor pela Mercedes fora longe de mais, amaldiçoado para lá do aceitável. O espetro da defunta perseguia-o noite e dia, assim como a sua solidão sem alívio, que o obrigava a lidar com a sua culpa e o ódio aos outros. Jacob enfeitiçara-o. Acordou e sentiu que estava abandonado quando viu o rosto vandalizado por uma mulher de buço. A primeira coisa que fez foi agarrar no candeeiro maldito e arrumá-lo no mais fundo da arrecadação.
- Quero ver se o pedreiro fica contigo quando começares a ganhar bolor, - gritou, fechando com estrondo a porta de ferro, e dando duas voltas à chave.
Foi quando a fronteira entre a realidade e o sonho se diluiu por completo que a morte o veio buscar num Mercedes, não sem antes atirar o bicho pela janela fora.

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