quarta-feira, 20 de maio de 2026

152 - A irmã de Cristo (2)

 

2

Qualquer eternidade é desesperadora, por isso os seus olhos não refletiam nada, estavam esvaziados de sentimentos. A avó de Vitalina inventara uma realidade para a dama de branco, via, dentro Dela, Deus. Pensava Nela para viver num reino virtual, uma terra de nada cheia de si mesmo, onde era invulnerável, invencível, toda-poderosa. Concebeu-se sozinha, o passado sempre chegava e parte dele não se importava com aquilo que deixava. Às vezes Vitalina e a avó ficavam caladas durante longos momentos, até o silêncio se instalar por completo dentro delas, e as almas sentirem a neblina, as rajadas de vento húmido, todos os maus humores dos genes que as habitavam. A rapariga deu um gole no copo cheio de vinho tinto e, elevando-o para o céu estrelado repetiu as palavras que o avô Ezequiel costumava gritar:

- Obrigado Oumuamua pela bebida!

Há treze mil anos os Senhores das Estrelas fizeram os macacos descerem das árvores para apanharem os frutos apodrecidos que já estavam a fermentar e que os punham zonzos. Mudaram-se de sociedades pequenas para grandes e com a bebedeira veio a Humanidade. Tantas vezes Vitalina entrara à socapa na igreja do padre Januário e trouxera Cristo na barriga, pois Ele próprio era o vinho com que o padre se deliciava nas horas de solidão.


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