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- Uma palavrinha rápida, caro senhor, - pediu o tio Victor sentando-se junto ao hóspede.
- Tio!
- Sabe que tudo isto é ridículo. Não sei quais são as suas intenções em relação aos meus pais, mas fique sabendo que não irá ter sucesso, - exclamou o jovem que quatro anos depois, mais precisamente no dia cinco de junho, iria obter dezanove valores com a sua tese “Fósforo em Solos de Angola”.
- Compreendo a sua estupefação, é tão grande como a minha. Não sei como, mas vim parar aqui.
- Posso-lhe sempre fazer umas perguntas.
- Faça tio, não sei se lhe conseguirei responder, mas após a morte do meu pai li muitas das memórias que ele deixou escritas.
- Então sabe quem são os meus padrinhos?
- Rodrigo Cardoso Brochado e Maria da Purificação Brochado, seus avós maternos.
- Para um burlão a informação não é difícil de obter.
- Basta ir à igreja de Padronelo. Foi a 7 de junho de 1928, vinte e um dias depois de ter nascido.
- Em que data tirei a carta de condução?
- Foi no Porto no fim de outubro de 1948. O dia certo não sei, o avô foi consigo.
- A construção da torre da igreja de Padronelo foi paga por quem?
A resposta não foi imediata, por isso o Victor impacientou-se algum tempo depois enquanto Miguel revia nas suas memórias, o telemóvel, as centenas de folhas que lera.
- Vê, as outras perguntas eram fáceis, esta poucos a sabem, foi o meu padrinho que me contou. – E levantou-se!
- Espere tio, espere, eu sei a resposta.
- Acabou a farsa caro senhor, eu não sou seu tio coisa nenhuma.
A assimetria do lugar foi evidente quando o Miguel deixou cair inadvertidamente o ovo para a gemada, ele e o tio viram-no desfazer-se, mas imediatamente voltou ao seu estado original. Se mais alguém tivesse presenciado a cena teria sido um milagre, que traria a respetiva carga de trabalhos.
- Foi o filho daquela senhora que era sobrinha de um general, o apelido dela era Montenegro, e o marido era apoiante de D. Miguel, a espada curva que está pendurada na sala dos meus pais era dele. António Cardoso Brochado foi o filho único que deu cabo da fortuna e um dos filhos dele fez fortuna no Brasil e quando regressou comprou as quintas da região para os irmãos. Chamava-se Francisco Joaquim, deixou dinheiro em testamento para construírem a torre da igreja de Padronelo.
O hóspede tirou o telemóvel do bolso, abriu a galeria e mostrou a fotografia da tia.
- Não percebo, - disse o tio.
- A tia Fernanda, a sua futura esposa. Como é que está a sua garganta? Nas férias da Páscoa do ano passado esteve todo o tempo com anginas. Essa caneta – e apontou para o bolso do casaco de onde ela sobressaia, - é a Parker que a tia Dulce lhe deu?

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