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Miguel estava sentado junto à lareira com o tio Fernando ao seu lado, ambos a verem fotografias guardadas numa caixa, quando ouviu o “Ford Bébé” do avô a chegar. Parou junto à porta principal e viu um vulto vestido de negro a sair do automóvel, com a ajuda dos avós e a subir lentamente as escadas. O soalho rangeu e Maria da Glória anunciou, com uma voz alta:
- Rapazes vejam quem chegou e vai passar uma temporada connosco!
- Avozinha – disse o Victor Hugo correndo para a senhora.
Maria da Purificação era mãe da avó, e após uma consulta rápida ao pdf da família Miranda, da autoria do Miguel, era viúva do Rodrigo Brochado desde 1939, e iria falecer na Casa da Barroca no dia 11 de fevereiro de 1958, com 76 anos.
- Mãe este é o senhor Miguel um amigo do Mário que é nosso hóspede por uns dias, espero eu.
- É filho do Jorge – interveio de novo o tio Victor.
Dois dos rapazes riram-se, Miguel reparou que o tio Mário Augusto não expressou alguma reação. Ficou impávido e sereno.
- Filho do Jorginho? – Indignou-se Maria da Purificação.
- Disparate mãezinha depois contou-te as novidades, estes dias têm sido uma loucura.
A senhora sentou-se à mesa e tirou dum prato uma castanha pilada.
- Estão muito boas Glórinha, as da tua irmã Isaura são muito duras dão-me cabo dos dentes.
- Pus em água de manhã.
Alguém bateu na porta principal e ouviu-se o barulho de um ferrolho a abrir.
-São os tios – informou Maria da Glória.
- Boa tarde Dona Dulce e senhor Amador – cumprimentou a criada.
- Olá Adelaide como é que estás?
- Vou andando, minha senhora.
- Soube do teu irmão Agostinho que se viu aflito com a varíola.
- Graças a Deus curou-se …
- … a Deus não, ao senhor Dr. Mário de Miranda, que fez mais um trabalho exemplar, como na epidemia de febre Tifoide que levou a tua irmã Rosa …
- … que Deus a tenha – e benzeu-se.
- Vocês eram doze irmãos?
- Sim, minha senhora. Restamos quatro!
- Bem-vindos mais uma vez cunhados, - interrompeu a dona da casa. – Esta ciática vai-me matando. Estava a ver que não conseguia subir as escadas.
- A Maria da Glória devia ter ficado lá em baixo, a Adelaide levava-nos lá.
- Viemos despedirmo-nos, vamos passar uns dias ao Vidago.
- Ainda bem que vieram, tenho cá a mãezinha que tem perguntado muitas vezes à Isaura por vocês.
- Olá madrinha – disse o Mário Augusto dando um beijinho rápido na tia paterna Dulce Augusta de Miranda.
- Estás um rapagão tão bonito. Dezassete anos, como cresceste. Parabéns, sei que dispensaste dos exames orais de admissão à faculdade.
- Treze valores, é um menino muito aplicado, lá conseguiu superar as dificuldades no latim e no inglês, - elogiou a mãe.
Mário Augusto limitou-se a fazer um pequeno sorriso de ocasião.
- Toma rapaz, trouxe-te um presente.
Mário Augusto recebeu o embrulho e escondeu-o atrás das costas.
- Abre filho, a tia quer saber se gostas.
Descruzou os braços, puxou-os para a frente e desembrulhou o pacote. Era uma caneta azul.
- Outra Parker? – Exclamou Maria da Glória. – A cunhada anda a gastar muito dinheiro com eles, pode fazer-lhe falta.
- Eu tenho e eles merecem. O meu irmão Mário, está em Baião?
- Não, está é surdo desde que apanhou a gripe. Encontra-se na biblioteca, já o chamei, mas não ouviu.
Riram-se e desceram para a sala.
O batizado de Mário Augusto ocorrera no dia 17 de abril de 1933, na igreja de Padronelo, e os padrinhos tinham sido o tio paterno Augusto Adelino de Miranda e a tia Dulce, que fora representada por procuração, por estar no Brasil, pelo irmão Aflalo, que nascera quando o bisavô paterno do Miguel fizera 55 anos.
- O teu Jorge fez-me uma visita lá em cima, a população veio toda para a rua, e ficaram enfeitiçados com as manobras do avião.
- Fico sempre muito ralada quando ele aparece, corre muitos riscos.
- Olá mana – cumprimentou o dr. Mário de Miranda irrompendo pela divisão.
Atrás dele entrou o filho Fernando e o neto Miguel.
- Este senhor ainda está aqui? – Perguntou a Dulce, baixinho, junto ao ouvido da cunhada.
- Infelizmente, o Mário continua a acreditar que é o neto vindo do futuro…
- … do Inferno …
- … e só tem dito disparates. Imagina que agora convenceu-o que vai ressuscitar o António.
- Meu Deus, não merecias este tormento.
- Quando estivermos sozinhas conto-te mais!
O hóspede parou a meio da sala e cumprimentou as visitas, que lhe responderam com desdenho.
- O Amador está muito caladinho, - notou a Maria da Glória.
- Tem uma dor de cabeça muito forte, e os remédios não fazem nada.
- Mário, ainda tens aqueles comprimidos milagrosos?
- Os do Miguel?
- Agora o hóspede também médico? – Indignou-se a tia Dulce.
- Tirou-me a dor da ciática.
- Mas disseste-me que estás com dores?
- Não tomei mais, mas que me fez bem na altura, fez. Mário, eu também tomo um.
- Eu tomo qualquer coisa que me tire as dores, - desabafou o Amador.
- Tens dois? – Perguntou Mário Miranda ao neto, um ano mais velho do que ele.
- Aqui estão, - respondeu Miguel, tirando dois comprimidos “Algimate” do bolso esquerdo traseiro das calças de ganga.
- Não será veneno? – Exaltou-se a visita.
- Dulce, por favor? – Respondeu o irmão.
- Avô, deixe estar, eu compreendo as dúvidas da tia Dulce, - disse Miguel pondo a mão esquerda no ombro direito do avô.
– Tia? Eu não sou sua tia, caro senhor!
O tio Amador tomou, sem hesitação, o comprimido, após ter sido ajudado pela cunhada a tira-lo da prata, e a mostrá-lo à Dulce Augusta, antes de o engolir com a ajuda do chá.
Miguel despediu-se e regressou à biblioteca, para ler as mensagens de WhatsApp que iam estranhamento chegando. O pensamento do avô estava distante dos convidados, Mário de Miranda imaginava a possibilidade de reativar um mecanismo de rejuvenescimento das células, e bastava uma, na campa do seu filho António haveria material necessário para inverter o processo, para o ressuscitar, como acontecera a Lázaro. Com a visita do neto, o avô tivera a impressão de começar a sentir uma harmonia entre o seu ser interior e o Universo. Estavam num espaço e temporalidade próprios, onde se cruzavam os dois mundos, o presente e o passado, só visíveis através dos pensamentos dos intervenientes, unidos pela essência invisível do Universo, a poeira inteligente. Mas não ficou muito tempo sozinho:
- E se utilizaste uma máquina para chegar até aqui, uma espécie de nave do tempo? – Perguntou o avô entrando, mais uma vez, de rompante, e continuou. - Podes recuar e levar os remédios que salvariam o António. O “Algimate” tem tirado muitas dores aqui por casa, o teu tio Amador está aliviado.
- Mas que máquina???
- Talvez essa, - e apontou para o telemóvel.
- Isto é um telefone, faz o mesmo que o dos correios onde costuma ir falar com o meu pai.
- Tenta telefonar para alguém, à tua mulher.
Telefonar para o futuro? Nunca lhe tinha ocorrido essa possibilidade. E se atendessem? O que é que diria? “Estou a falar de Palmazões … em 1949, tenho aqui o meu avô, que nunca conheci, estive com o meu pai,…”? Mas era um facto que recebia as notificações das mensagens do “WhatsApp”! Foi com relutância, e medo, que procurou o ícone do “telefone”, escolheu a opção “recentes” e ligou à “Aninhas”, a sua mulher. Por breves segundos o silêncio tomou conta do espaço, até que o sinal de chamada se tornou audível.
- Diz? - Atendeu a Ana Miranda.

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