sexta-feira, 22 de maio de 2026

160 - O Bisneto do Padre Joaquim - Dia 2 - 19 de novembro de 1949 (sábado) - "O tio Mário"

 

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Olhou para o tio Mário e pouco se lembrava dele, muito pouco, rasgos da memória. A prenda que lhe deu em Moçambique, quando visitou os pais, um carro de lata, e nem sabia se tinha sido em Moçambique, e o choro compulsivo da irmã Teresa na altura em que deram a notícia, na casa dos avós maternos em Paço de Arcos, do seu suicídio. Mais nada! Sabia que o futuro iria maltratá-lo e encher-lhe a cabeça de demónios, que lhe acabaram com a vontade de viver. Apetecia-lhe dizer para aceitar a bolsa que iria ganhar em 1959 na especialidade de cardiologia no Hospital Central de Verdun, no Canadá, e não ir pedir autorização à tropa para adiar a incorporação, pois caso o fizesse seria negada e mobilizado para Moçambique inserido num grupo de baterias de artilharia do RA1 de Lisboa, onde iria exercer os cargos de alferes e tenente médico. Chamava-se Mário Brochado de Miranda e como a PIDE andava à procura de um Mário Brochado da UDP, enganou-se e prendeu-o. Foi a partir daqui que os demónios o dominaram. Suicidou-se com 35 anos! Conhecia-o através das fotos das inúmeras festas em que ele participara em Coimbra, onde estudara medicina. Estava quase sempre mascarado, libertava-se através da embriaguez. Miguel reparou que o relógio da casa acabara de dar as badaladas fora das horas do seu relógio de pulso digital, ao mesmo tempo que sentiu um cheiro a naftalina.

- Ao menos podiam ter evoluído, mas não, sempre a mesma coisa sem graça, - exclamou o Mário.

- Quem?? – Perguntou o sobrinho Miguel.

- Os fantasmas! Não ouviu o relógio a tocar sem nexo?

- Mas o tio já tentou falar com eles?

- Essa de “tio”! Tentei de tudo, mas ficam caladinhos. O meu irmão Fernando …  

- O tio Fernando!

Olhou para o hóspede e esboçou um sorriso desconfiado. Continuou:

- O meu irmão Fernando, talvez o único aliado que irá encontrar aqui, diz que eles se escondem nas pinturas dos quadros.

- O tio Fernando, o meu único aliado? E o avô?

- O meu pai deve estar com algum tipo de demência para acreditar na sua estória. Pela minha mãe já estava na estrada!

- Demente ou lúcido, terá visto em mim alguns traços do tio António.

- O António?? Já morreu há 6 anos, era um miúdo.

- Eu sei, 31 de janeiro de 1943 de sarampo com broncopneumonia e abcesso pulmonar, na vossa casa na r. Fernandes Tomaz, 242, Porto, - disse Miguel dando uma palmada na testa, tentando acertar num mosquito.

O gesto fez acender a luz do relógio digital.

- Uma luz no seu braço, o que é isso? – Perguntou o tio com uma cara espantada.

- É um relógio, - e mostrou ao Mário, que se levantou, desaparecendo na noite cerrada.

- Isto é tudo uma loucura!

- Tio espere tenho mais uma pergunta para lhe fazer – pediu o hóspede.

O rapaz de 17 anos parou, olhou para o sobrinho de 63 e retorquiu, encolhendo os ombros:

- Diga lá!

- Não se preocupe com o Inglês e o Latim, para o ano vai entrar no Curso de Medicina na Universidade do Porto.

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