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- Rápido lá para fora, o teu pai vem aí, - gritou o avô Mário de Miranda agarrando na mão do neto e puxando-o para o pátio da entrada.
Miguel correu para o exterior e foram para junto da avó Maria da Glória que acenava com um lenço branco na mão. Nem teve tempo de olhar para cima, o barulho ensurdecedor de um Hurricane a rasar as copas das árvores e a provocar uma tempestade de folhas e pó fez o Miguel rir de alegria, tentando tocar no avião, ao mesmo tempo que o avô acenava com os braços e a avó punha as mãos na cabeça. Conseguiu ver o Jorge a rir-se através da carlinga aberta e reparou que lançou um papel que esvoaçou até cair no campo de milho. O sol estava alto e quente, o ar poeirento provocava um cheiro intenso a terra revolvida.
- Mário tens de lhe dizer para não passar tão baixo, assusta-me tanto, - disse Maria da Glória entrelaçando o braço no do marido, ao mesmo tempo que viam o avião precipitar-se para uma nuvem nas alturas e desaparecer.
- Estou farto de queixar-me nas cartas que escrevo, mas tens de compreender que é um jovem com sangue nas guelras.
- Mas é meu filho e não quero perder mais nenhum, já bastou o António.
O neto aproximou-se dos avós, abraçou-os e exclamou:
- Não se preocupem, nunca irá acontecer nada, a vida do meu pai irá ser longa, e será feliz.
Pela primeira vez Maria da Glória não se afastou do intruso, olhou para ele, sorriu e fez-lhe uma festa na cara:
- Se tu o dizes, eu acredito, - retorquiu.
Foram interrompidos pelos gritos duma das criadas que acabara de sair do campo de milho:
- Minha senhora o menino deixou-lhe uma carta – e acenou com ela no ar.
“… que tenhas sorte e sejas feliz é o nosso maior desejo. Que a padroeira dos aviadores te seja propícia” – Mário de Miranda, Baião 29/02/1948.
“Não desças, há arvoredo e o terreno é acidentado. Além disso o indígena assusta-se e comenta. Por exemplo, que a mãe te disse adeus muito alto e que lhe deitaste uma carta. E afirmam que foi certo. Bem, mas isto não importa. Todavia a descida é ou pode ser perigosa para ti. E isso importa e muito.” – Mário Miranda, Baião, 23/11/1948.
“As tuas visitas aéreas têm sido devidamente apreciadas. O voo mais perfeito, porém, pareceu que foi aquele em que vieram dois aviões: serenidade, comando, distâncias guardadas como que marcadas por uma régua. E, também, altura razoável.” – Mário de Miranda, Baião, 7/12/1948.
“Cá recebemos a tua visita e dum teu colega, decerto, há uns oito dias. Estava eu, e o Fernando comigo, e o resto do pessoal em Palmazões. Por cá frio bastante. Apreciamos sobretudo o facto de não teres descido muito aqui por cima das árvores.” – Mário de Miranda Baião, 14/1/1949.
“Estava sentado à secretária a escrever a várias pessoas, entre elas a ti e aos teus irmãos, quando ouvi o ruído do motor de avião que me pareceu ser dos Hurricanes em que costumas voar. Efetivamente, interrompendo o meu trabalho e saindo de casa, verifiquei não me enganar. A mãe e a avó também suspeitaram e saíram para verem o aparelho. Eu acenei com o braço e com o chapéu e a mãe com um pano branco. Vimos os movimentos do teu braço. Na 3ª volta pareceu-nos que desceste muito perto dos pinheiros. Isso está fora da tua promessa.” – Mário de Miranda, Baião, 22-2-1949.
“Há dias recebemos, a mãe em Palmazões e eu aqui, a tua visita aérea. Devo prevenir-te de que à tardinha fui encontrar a mãe doente porque lhe deixaste a impressão de que voaste a baixa altura. Deves poupa-la a essas impressões fortes porque lhe dão como resultado dores de cabeça e falta de apetite. Há muitas árvores e teem-lhe dito, creio mesmo que tu também, que são perigosos os voos feitos nessas condições.” – Mário de Miranda, Baião, 11-10-1949.
O médico aproximou-se do hóspede pôs-lhe o braço nos ombros:
- Meu querido neto, eu vivo cada dia que me for concedido, mas tu podes partir, tens escolhas, podes viver em qualquer mundo.
- O avô está a falar com uma pessoa que está para vir, mas que nunca conhecerá.
- Nunca conhecerei? Não te vou conhecer? Queres dizer que vou morrer antes de nasceres?
Miguel apercebeu-se do erro, era complicado olhar pela porta do tempo, ver pessoas do passado e não lhes poder falar do futuro, ou ser prudente não o fazer, pois poderia ele próprio pôr em risco a sua própria existência. Estava confuso, o avô sabia ou não da sua situação?
- Gostava de saber qual será o futuro dos meus filhos, ainda preciso de continuar a trabalhar para eles, as despesas são grandes.
“Queria melhorar porque preciso ainda de trabalhar para os teus irmãos”. – Mário de Miranda, Palmazões, 03/05/1950, última carta para o filho Jorge.

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