domingo, 17 de maio de 2026

120 - A Miúda do Lenço (33)

 

33

Filipe e Quitéria não choraram, pois nunca tinham feito figura de coitadinhos como tantos na vila. Eram uns sobreviventes que tinham perdido quase tudo, e já só arranjavam forças para defenderem os seus próprios corpos da crueldade da vila. Embora autónomos, estavam imbricados um no outro, tinham vasos comunicantes. O casamento era um poço de ressentimentos, por isso decidiu exibir o espetáculo em público, entregando-se a jogos de indiscrição, humilhação e injúrias, passando do insulto mais inflamante à gargalhada, aos empurrões e às ternuras. Ambos tinham nascido com umas noções de liberdade muito complicadas, em tempos muito complicados.

Quitéria estava descalça, mal se tinha nas pernas. Não pediu tolerância para as previsíveis consequências de ter ingerido uns copos para lá da sua conta, pela simples razão de que a consciência já não passava por ali. Casara-se com um amante cujo desejo significava quezília, de beijos indiferentes e palavras azedas. O marido aproximou-se com um pastel de bacalhau em riste, lábios roxos de ódio, olhos molhados, baba espumosa, e gritou-lhe:

- Come! – Ele sofria porque via a amada sofrer.

- Não, prefiro isto, - respondeu a mulher com um sorriso alarve, engolindo de um só trago um copo de vinho, descendo mais um degrau até ao eclipse total.

- Não é preciso colher, - disse, tirando o bacalhau à Brás com as mãos, que foram limpas pela língua da sua fiel companheira de nome Laurinda e raça indeterminada.

Quitéria vivia sem esperança, e ninguém podia viver sem ela. Sentia uma mágoa em surdina, um pressentimento antecipava a crueldade do mundo. Tinha uma capacidade inesgotável para andar em espiral à volta de um mesmo arbusto, à procura da garrafa de tintól que havia escondido, e cujo líquido era muitas vezes substituído por outros, gentilezas dos vizinhos da pequena aldeia com o nome de Terrugem de Cima, que os acolhera com carinho, depois de alguém ter deitado fogo à barraca que tinham em Vila Fria. Filipe era arcaico nas suas devoções, às vezes gentil, afável, tendo encontrado em Paço de Arcos aquilo que nunca pensou, aquilo para que nunca fora preparado. No meio dos convidados destacava-se outra figura pública da linha, o adolescente Ratinho Blanco, que falava de um tempo que não conhecera, de uma memória que não tinha, mencionando nomes de loiras curvilíneas, transpirando charme, razão porque nunca precisara de transpirar. Regressaram à casa de divisão única, banhada pelo negrume, tão cerrada pela desgraça e pelo absurdo, que não havia Deus que espantasse, da essência alucinatória dos moradores, tanto sofrimento, tanta angústia, tanto mal. Eles sentiam na pele o cheiro entranhado da pobreza familiar, que os colocava permanentemente num estado de suspensão. Filipe abriu a porta e a claridade transparente daqueles dias em que o sol sai depois da chuva, entrou na penumbra, ao mesmo tempo que saiu o cheiro a urina. Encenaram uma noite deplorável, numa festa etílica que só acabou, exausta, ao romper da aurora, onde Quitéria tanto foi melosamente beijada, como amorosamente agredida. Acordou submersa na mais completa melancolia, amargurada, mergulhada numa dolorosa ressaca. A impossibilidade de cumprir os rituais do luto, tornaram ainda mais penoso o processo de despedida. Filipe chegou a casa com uma peça de carne encontrada dentro do contentor onde o supermercado costumava deitar fora os produtos fora de prazo. Despejou a panela que estava em cima da mesa, que servia de penico, abriu o plástico, e não sentiu o cheiro que se confundia com o dele. Saiu da barraca para ir pedir sal grosso à vizinha, ao mesmo tempo que entravam varejeiras sedentas de bicar na carne putrefacta. A refeição foi feita à fogueira, a fome apertava, e o vinho ajudava. Quitéria estava sem apetite, e desta vez não foi obrigada a comer à força de uma colher de pau que lhe arranhava a garganta. De madrugada ouviu o som muito baixo da sua respiração e os órgãos a funcionar. Fechou os olhos, tentando adormecer definitivamente. Não conseguiu. Olhou para o chão e fitou o teto. Iria para cima ou para baixo? Sentiu que as palavras estavam a ficar fora do lugar, por breves instantes ouviu a música de uma trombeta. Relacionou tudo, sons, imagens, palavras, coisas, pessoas, atmosferas, ideias, sentimentos, vestígios, miragens. Uma volta na cama pô-lo cara a cara com sorrisos e formas há muito desaparecidos, que lhe fizeram acenos subtis e trocaram olhares cúmplices. Deu uma ordem ao corpo, mas ele não obedeceu. Procurou um pensamento mais forte, pensou no ontem e no amanhã, mas o ar estava saturado de cansaços, decadências, desistências e derrotas. Teve uma fúria lenta. Deu um salto e sentiu-se uma bola de sabão a elevar-se no ar. Apercebeu-se que estava a atravessar um espelho, porque viu a mão a cruzar o espelho. Reconheceu-se como alma. A partir daquele momento iria ser um viajante na noite, em busca de um alvorecer clarificador.

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