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Desconfiava que Filipe a enfeitiçara. Olhou para as figuras de dois anjos colocados numa parede, como se fossem guardiões de mistérios e encantos, que cruzavam a tranquilidade e o desespero, e sentiu os demónios interiores que não lhe davam sossego. Quitéria era uma personagem complexa, completa, assombrada por ecos de um paraíso perdido, talvez apenas inventado ou desejado. A vida impeliu-a para o lado mais negro da existência, que a tornou vítima da dependência, experimentando no seu dia-a-dia um certo caos afetivo e existencial. E este era só mais um dia. Tentou recompor uma série de pensamentos quebrados, mas foi em vão. A sua memória era um labirinto fechado, obscuro e sem horizonte, mas onde, por vezes, se abriam pequenas frestas de reconhecimento, que a deixavam vislumbrar breves sequências, vagas lembranças de acontecimentos esquecidos. Lembrou-se então que tivera um dia outro noivo e que quase se casara, mesmo estando em continentes diferentes. A procuração substituíra a distância. O olhar parecia terno e sugeriu um esboço de sorriso atrás do véu. Mas quis o destino que tudo não tivesse passado de um sonho. Havia uma beleza singular, muita força e, possivelmente alguma candura, como se dissesse “mais do que poder ser, agora sou, de facto”.
- Estado civil?
- Viúvo, - respondeu como uma tempestade, mordendo os lábios e corando com intensidade, como se o mundo lhe devesse alguma coisa, ao mesmo tempo que batia os calcanhares.
Fora com esta prontidão militar que um dia se apresentara ao senhor Silvino Valente, o responsável pela procissão da Nossa Senhora dos Navegantes, disposto a ajudar no que fosse preciso. Não percebeu o pânico que se apoderara dos presentes, com o Craveiro Lopes na comitiva iria ser farrabadó para o povo, e uma festa séria poderia descambar num arraial, e talvez para a violência, caso o Filipe viesse com um grão na asa, como era habitual. Deram-lhe o papel de segurança, mas afastado mais de cem metros do andor, lá para a frente, abrindo as “hostilidades”. Mas quando entrava na igreja alterava-se por completo, não sabia viver sem rezar, e era sempre nestas alturas que se elevava em júbilo e louvor, tornando-se um homem diferente, com a personalidade reorganizada, digna e decente. O comportamento foi exemplar, e quando no fim bateu de novo os calcanhares, para saber como tudo tinha decorrido, levou nota máxima. Filipe perdera a esposa e o espetro da defunta perseguia-o noite e dia. Era um homem melancólico, um pouco preguiçoso, utópico e com queda para a pinga. Conhecia de trás para a frente a vila, o seu olhar era sombrio, duro. O passado tornou a apoderar-se dos seus pensamentos, e desta vez viu-se a descer o monte, em direção à vila, a empurrar o carrinho que fizera, onde levava a mercadoria do costume, linhas, panos, pensos rápidos e outro material, para o ponto de venda do costume, junto ao mercado na praceta Dionísio Matias, nome de um jovem que morrera há muito vítima da gripe espanhola. Mas desta vez levava com orgulho escrito na carreta o que julgava ser o seu nome, “Craveiro”, uma gracinha dos vizinhos, mas cuja realidade dizia “Caralho”, facto que o levou a ter problemas com a autoridade. Quando se ajoelhava para rezar, não se sabia se era a Deus ou a Satanás. A temperatura do salão estava invulgar. Parecia ter morrido quando a mulher morreu. Atrás de uma coluna o senhor Carlos Ribeiro de Porto Salvo, famoso sapateiro na Travessa do Forno, esboçou um sorriso. Filipe lembrou-se do dia em que os seus olhos, o nariz e a boca, só viam, cheiravam e saboreavam a vizinha Natividade, aquela que ele queria tornar sua amante, nem que fosse à força, ou à custa de parte da sua reforma, que muitos pensavam ser militar devido aos seus comportamentos marciais, e à farda da legião portuguesa e às medalhas com que aparecia vestido nos dias festivos. Por isso acompanhou-a até ao comboio, que ia em direção a Lisboa, e também entrou, ajudando as filhas pequenas. Eram tempos de miséria em que se matava por causa de um caminho desviado meia dúzia de metros. Foram comer a um café lá para os lados do Rossio. Filipe bebeu metodicamente, e quando a conta veio quiseram saber quem a pagava:
- Este senhor, - disse a vizinha, agarrando nas filhas, fugindo do local e dele.

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