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Miguel estava à procura do centro do sonho, rodeado por um nevoeiro espesso, tentando encontrar o interruptor que acendesse a luz no meio deste alucinante sonho, que era tão real. Conseguiu, por breves instantes, quando viu passar um avião no reflexo do vidro da janela, ao mesmo tempo que derrubava a garrafa de água na mesa de cabeceira, sinal de que o seu tempo ainda existia, para logo se desfazer. Emocionou-se, deixando cair mais uma lágrima, quando encarou de novo o pai. A cena estava a ser vivida algures num tempo que tanto tinha de longínquo, como de próximo, e era isto que lhes permitia viver o espaço dentro das suas mentes, mostrando a realidade do imaginário coletivo, mais real do que tudo o que viam e que os rodeava.
- Desembuche homem, desembuche, o que é que realmente o traz aqui? – Perguntou o Dr. Mário de Miranda, já mostrando alguma impaciência fulminante contra o intruso que aparecera por ali, de geração espontânea, dizendo ser da família.
O Jorge, o pai do forasteiro, esboçou um sorriso trocista, deixando escapar uns “xs” impercetíveis. O Victor Hugo adotou uma atitude mais desafiante, batendo com a ponta do pé direito no chão, não fosse ele um futuro jogador de rugby da Universidade de Agronomia de Lisboa, onde iria ser talonador nos anos de 1952/53 e 1953/54. A prima Ilda, sentada no degrau do meio, na ponta esquerda da foto, com o Joaquim ao seu lado, filho da tia Dulce e do tio Amador, acabados de chegar do Brasil, sorriu, não deixando sair um pensamento, “um tontinho vestido de uma forma estranha”. O discurso do avô paterno Mário de Miranda estava cheio de curvas, o neto Miguel, mais velho do que ele, procurava desesperado um porto seguro, que lentamente se foi deslocando para o futuro, e por isso o inesperado tornou-se o esperado: tirou o telemóvel do bolso e abriu a pasta da “galeria”, onde guardava nos “favoritos” muitas fotos antigas da família. Todos estavam desassossegados, perdidos nos mundos que se desfaziam lentamente. Mário de Miranda parecia estar cansado de si mesmo. Saberia já o seu destino, teria já conhecimento do seu diagnóstico fatal? Houve uma breve pausa de sossego, crescia a possibilidade de considerar o mundo a partir de diferentes pontos de vista, de fragmentos, sem que nenhum fosse falso. Mas o avô do Miguel levantou-se e disse:
- Acompanho-o à estrada!

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