quinta-feira, 21 de maio de 2026

157 - O Bisneto do Padre Joaquim - Dia 1 - 18 de novembro de 1949 (sexta-feira) - "Na Penumbra da Noite"

 

4

Antes de se deitar o Dr. Mário de Miranda aproximou-se de Maria da Glória, cuja expressão era de dor, e deu-lhe os dois comprimidos “Algimate”.

- E se este senhor diz a verdade, é mesmo nosso neto? – Perguntou baixinho à mulher, na penumbra do quarto.

- E tu acreditas neste disparate? – Reagiu indignada.

- Havia um filósofo que dizia que a ciência só conseguia interpretar arbitrariamente o mundo, e o único meio para chegarmos à verdade é olhá-lo da perspetiva de centenas de olhos. Todos vemos!

- Vemos o quê, Mário? Ele informou-se!

- Maria da Glória, tinha os meus poemas ao António naquele aparelho, vi a minha letra.

- Poemas ao António?

- Estás a ver, nunca te mostrei, escrevi-os para mim com a dor da perda. As noites em Gestaçô com vocês no Porto foram horríveis, dolorosas. Não quis mostrar-te a minha fraqueza, temos ainda três rapazes para criar. O Jorge já está encarrilhado na tropa!

- Onde estão os poemas, mostramos.

- Se nunca os mostrei, agora muito menos, são só para ser lidos no tempo dele. Não pensaste que o Miguel …

- Miguel?? Já estás a tratar o desconhecido por tu! Acorda Mário, és um homem da ciência, não te deixes enganar por esse charlatão. Manda-o embora, para o bem da nossa família. Sabes meu querido, os teus novos comprimidos fizeram-me bem, as dores passaram.

O marido sorriu.

- Fico contente em saber. Ele pode estar a dizer a verdade, as evidências, por mais que não queiramos, estão diante dos nossos olhos.

- Dorme Mário, dorme, o teu mal é sono. Disparate, nosso neto?!!

- Vou dar uma olhadela a estes livros, ainda não tenho sono.

Maria da Glória também estava confusa, por isso não conseguia fechar os olhos, e o medicamento ajudava na insónia. O marido, um homem tão racional, estava com dúvidas. A verdade era um erro necessário à vida, mesmo que fosse falsa, para que não se interferisse com o fluxo dela, e pôr em causa a sobrevivência de todos. Mário de Miranda, o fundador da Santa Casa da Misericórdia de Baião em 1933, que construíra o hospital, sabia o que tinha visto e sentido, sentia que aquele desconhecido mexera com as suas verdades absolutas, e era, sem dúvida, um conhecedor do seu futuro. Sentiu medo, não por si, porque já sabia qual era o seu destino, mais um segredo, mas pelos seus filhos, o Jorge, o Mário, o Victor e o Fernando. Se eles soubessem como iriam ser as suas vidas? Isso sim, era o verdadeiro perigo que o hóspede representava. Foi distraído por um mosquito a tocar violino no seu ouvido. Mário de Miranda esteve parte da noite a reler as teorias do seu colega Hermann von Helmholtz sobre o princípio da conservação da energia. Adormeceu com um dos livros na mão e os óculos na ponta do nariz.

- “A mecânica do Calor”, Julius von Mayer, - leu Maria da Glória tirando-lhe a obra da mão. – No que é que estás a pensar, meu velho?

Deu-lhe um beijo. Mário sonhava agora com a possível repetição dos estados do mundo, do eterno retorno, da possibilidade de cada pessoa poder regressar infinitas vezes e todas as coisas com ele, onde se incluía o seu filho António. Se fosse verdade que o Universo tivesse um número finito de partículas, também teria um número finito de combinações, a química tiraria partido das condições cósmicas, e a presença do Miguel era a prova disso. A combinação do António também se poderia repetir a partir daquele estranho aparelho que o neto trouxera? Existiriam diferentes versões de nós?

Sem comentários: