sexta-feira, 22 de maio de 2026

165 - O Bisneto do Padre Joaquim - Dia 3 - 20 de novembro de 1949 (domingo) - Parte da Mobília

 

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Miguel não sabia que quando se debruçara sobre a tumba de Agostinho Clemente de Miranda, rompera a membrana que separava o seu tempo do tempo do avô, por isso sonhou com o Sol e a Lua na noite seguinte, sinal de que estava na roda do tempo, tendo caído desamparado no vazio. Pelo caminho viu o antepassado a atirar-se em desespero ao rio Douro, tendo no seu encalço uma turbe de miguelistas decididos a fazer-lhe a folha. Sentiu o cheiro a gordura, a suor, a fumo, a serra e a sangue. A sortida dos liberais a Vila Nova de Gaia não tinha corrido bem. Viu também o Clemente a pôr em fuga o francês Loison na Volta Grande, abaixo de Quintela. Riu-se, como num filme do Charlot, e esqueceu-se, arrumando as imagens nas memórias mais profundas. Para todos a simetria era o princípio ordenador da vida, com um alcance infinito, e que abrangia tudo. Mas agora o Universo revelara-se paradoxal, o aparecimento do senhor Miguel, um cidadão de 2023, em Amarante de 1949, denunciava uma assimetria. O tempo não tem princípio nem fim, o tempo está em nosso redor e em nós, o tempo é o nosso lar antes de nascermos e depois de morrermos, o tempo dá e o tempo tira, liga todas as coisas, a vida e a morte, a noite e a luz. Acreditar é muitas vezes um imperativo de sobrevivência, por isso temos de aceitar o que nos é oferecido. Estamos aqui apenas para ser memórias daqueles que amamos. Quando se é pai somos o fantasma do futuro dos nossos filhos. O pai tinha regressado à base, e nem se despedira, talvez por despeito, talvez por feitio, e este era o único comportamento que lhe conhecia.  A noite estrelada de luar que iluminava a biblioteca ganhou mais peso com a luz discreta, amarelada, do candeeiro a petróleo que o avô do Miguel trazia.

- Estás muito pensativo, é o teu pai?

- Sempre foi assim, não é novidade.

No seu mundo o pai tinha morrido, aqui estavam juntos. Acontecia a todos os viajantes, ter ansiedade para chegar a casa, de volta ao seu tempo. Todos naquela casa não passavam de uma consistência contranatura.

- Quero recordar-me de nós tal como estamos neste momento – disse Miguel dando a mão ao avô.

- Serás o meu neto durante o tempo que puderes.

Deus tinha criado as leis da Natureza, dizia sempre o bisavô paterno do Miguel ao seu filho Mário, um homem da ciência. Por isso um milagre não era mais do que uma transgressão dessas leis, ou seja, se Deus tinha por vezes necessidade de violar as suas próprias leis, significava que não era assim tão perfeito como o pintavam. Ou então os “milagres” não eram mais do que aberrações dos fracos. A presença do neto, palpável e inegável, só podia seguir as leis da Natureza, o tempo de sentido único não existia, e com isso abriam-se tantas possibilidades. O tio António estava vivo no passado, e nada os impedia de ir ter com ele. Só precisavam de saber como. A vinda do neto estava lentamente a tirar Mário de Miranda da cegueira da dor, e tudo graças a uma tecnologia que nunca iria conhecer, que facilitou o controle de partes do cérebro, onde abriram uma via direta através de acontecimentos cósmicos que se alinharam inesperadamente. Uma notificação do H3, o ritmo cardíaco, a temperatura ambiente, a pressão atmosférica, a humidade, fizeram o Miguel ter acesso a memórias genéticas incrustadas na carne, dum tempo nunca vivido, fazendo-o recuar no relógio do tempo, para a banda Theta.

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