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Miguel e Fernando passaram por uma pequena casa, o vento norte uivava no telhado de pedra, iluminada por uma fogueira no centro da sala, cujo fumo saia pelas telhas, e ouviram o chorar de uma criança, seguido de um aviso:
- Se não te calas vem aí a Dona Loba e devora-te.
- Contavam que a filha da galega Dona Goda, irmã de D. Estevainha, Dona Uraca, do Fernão, do Lourenço e do Egas, rapazes que tinham o feitio aventureiro do pai, D. Mem de Gondar, que auxiliou o conde D. Henrique no alargamento do Condado Portucalense, tinha um apetite devorador, por isso comia um boi por dia, - explicou o tio do hóspede da Casa da Telheira.
À medida que se aproximavam da enorme torre, ouviram ao longe o bramir de animais.
- Os bois da Dona Loba, - disse o cicerone levantando um braço e apontando na direção do som.
De repente surgiu, no meio da escuridão, uma enorme ruína. Miguel olhou para a torre e viu, sentada num almadraque junto à porta, uma gigantesca mulher, que fiava sonolenta com uma pesada roca de prata. Assustou-se!
- Dona Loba?
O cenário mudou repentinamente, a ruína da casa transformara-se agora numa torre com dois pisos, o telemóvel indicava o ano 1250, e todos foram transportados para uma grande sala mobilada, com uma mesa enorme repleta de comida. Como a largura do seu tronco excedia a da porta, a senhora entrou de lado e fez um sinal para se sentarem, sentando-se também. Miguel reparou que ela tinha rugas profundas e vincadas, as mãos estavam manchadas de várias cores e a roupa que vestia era coçada e usada. A refeição parecia ir ter uma tonalidade afetiva. O jovem Fernando olhava com espanto para tudo aquilo e tirava apontamentos visuais, que registava em reflexões com pequenas letras negras numa folha branca. Por uma janela no meio da escada penetrava uma luz cinzenta.
- Fica para memória futura, alguém há de ler, - disse.
- Vou ser eu a encontra-las no escritório do meu pai após a morte dele. Tem lá centenas de documentos de várias gerações.
- Em que ano?
- 2022!
- 2022?? O Jorge vai viver até esse ano? E eu?
De repente instalou-se um silêncio, as janelas abriram-se com estrondo, levadas por um vento e por uma tempestade inesperada, brilhante, veloz e aterradora, como se fosse, não do domínio do ar, mas do interior obscuro da sala. Miguel viu a luz da parede piscar, como costumava acontecer inexplicavelmente de tempos a tempos, e ele dizia ser alguém a querer comunicar do Além. Tinha entrado de rompante no tempo da mulher, que dormia profundamente ao seu lado, abraçou-a com força, sentindo o seu corpo quente, viu a luz de presença que indicava que o aparelho anti melgas estava ligado, mas foi de novo envolto por uma noite espessa. Tentou encontrar o interruptor do candeeiro da mesa de cabeceira, abriu os olhos e viu que tudo estava calado na casa da Dona Loba, o vento e o pó. A senhora levantou-se com uma gentileza leve e um gesto ritmado, aproximou-se da janela e fechou-a.
- Não me posso constipar, - explicou aproximando-se do senhor, e continuou colando os seus lábios carnudos ao ouvido do visitante. – Livre-se de alterar a História! – Disse, zangada, ao Miguel.
Uma sombra vaga rodeou o convidado, ele controlou a ansiedade com um sorriso no rosto e uma calma no corpo, ao mesmo tempo que deu um golo numa água cheia de sabores da época. De uma maçã brilhante saiu uma pequena luzinha com a forma de um pirilampo, que caminhou com passos vagarosos pelo corredor vazio e apagado, parando junto de uma cortina de cor branca em fuga, marcada numa ponta com um borrão vermelho. Ouviu-se uma tosse surda, seguida de outro silêncio denso. Ao longe, junto de um cadeirão, havia uma estante de livros. Agora um terceiro silêncio cheio de gritos. Ao mesmo tempo ninguém conseguia desviar o olhar do nevoeiro e da chuva que caia do lado de fora das janelas. Miguel sonhou com palavras, imagens e cores de um tempo a preto e branco, onde um fantasma com a cara do pai, que emergiu súbita e gentilmente da leveza do ar, lhe sussurrava muitos “xs”, ao ouvido, frases que corriam, paravam, recuavam, avançavam, desapareciam e reapareciam. Viu uma luz, seguida de uma sombra. Foi distraído pelo barulho de homens que gritavam para algo. Espreitou pela janela e viu que uma carroça cheia de milho tinha ficado atulhada numa poça de lama com uma parelha de bois lá dentro. Alguém bateu à porta. Abriu-a, deu de caras com o jovem Fernando.
- Fiz-lhe um esboço da casa da Dona loba, para teres uma ideia quando formos lá. Está orientada para o Marão, assim como a nossa Casa da Telheira e a Casa de Palmazões ali ao lado, - e entregou ao sobrinho um papel cheio de rabiscos, que ele já conhecia, ao mesmo tempo que agarrava, com a outra mão, um penico cheio de urina, com um polegar mergulhado lá dentro.
A Casa da Telheira tinha feito parte da Quinta de Palmazões, cuja casa principal estava destinada aos donos e aquela aos rapazes solteiros, mas devido à guerra civil entre miguelistas e liberais dividira-se, assim como a família.
- Obrigado padrinho!
- Padrinho?
- Lembrei-me agora que irá ser meu padrinho, juntamente com a tia Milú.
- Tia Milú?
- É outra estória, é alguém que irão querer casá-la consigo!
O tio Fernando estava sintonizado para o momento:
- Dois pisos como sempre pensei!
- Meus caros convidados, como calculam o meu nome é Loba Mendes, e é impossível estarmos juntos, mas estamos, porque estou em todos os sítios ao mesmo tempo, e a realidade agora é esta.
- E o meu tio finalmente encontrou-a – interrompeu.
- O significado da minha vida não está presente no vosso mundo, mas na verdade nós estamos sempre entre uns e outros. No tempo deste senhor …
- …. Miguel ….
- …. Do senhor Miguel e no deste jovem …
- … Fernando ….
- … do Fernando, eu já não existo! No meu tempo são vocês que não existem. E, no entanto, estamos todos aqui juntos a conversar. Esta sala, para mim, está cheia de gente.
Os convidados tiveram a sensação de ouvir um silêncio cheio de vozes e riram-se.
- “Os meus mortos continuam a mudar dentro de mim. Continuam a inquirir-me. Ando à procura de um rosto em fuga, com uma beleza tão natural que parece sobrenatural”, Tolstói, - interrompeu o tio Fernando.
Foram rodeados por uma aura de luz fantástica, com cores e brilhos, sentiram forças e energias novas, que lhes deram uma sensação de superior serenidade. A senhora que serviu sopa ao Miguel tinha uns olhos azuis penetrantes, enquanto que a do Fernando tinha uns olhos pretos pequeninos. Repentinamente a noite espessa voltou, e ambos os visitantes estavam de novo no exterior junto às ruínas da Torre da Dona Loba. E desta vez o Miguel acordou, mas ainda não no seu tempo, mas com ele normalizado, expurgado de informações que não faziam parte do momento. Pelo caminho viu de raspão o tio paterno Mário a atirar-se da janela do hospital de Santa Maria naquele dia fatídico de 6 de outubro de 1967 às dez horas e trinta minutos, não para se suicidar, como iria ser contado, mas para sair devido a um ataque psicótico; sentiu o último suspiro do tio avô paterno Aflalo, no dia 13 de novembro de 1968, vinte e nove anos depois de ter perdido a sua mulher Felismina Sara da Providência Nogueira de 38 anos; ouviu o derradeiro lamento do tio-avô paterno António Augusto no dia 2 de fevereiro de 1969, e acordou. A Dona Loba apareceu-lhe a queixar-se que lhe tinham roubado o seu corpo da sepultura cristã.
- A minha pergunta foi publicada na revista, - gritou uma jovem mulher.
- Que nome é que usaste desta vez, Felisbina?
- “Glicínia Branca”!
Na secção de astrologia da revista “Modas e Bordados” de setembro de 1931 uma leitora perguntava quando iria casar, e a resposta dizia que “até aos 24 anos encontrará aquele que o céu lhe destina. Tem casamento indicado para os seus 29 anos, com noivo mais velho que a sua idade, possuidor de alguns bens de fortuna e do seu casamento conceberá cinco filhos que todos criará com felicidade”. Que Felisbina seria esta, a irmã da Arminda Maio Teixeira que se casaria com Aurélio Dinis Marta fundador da Loja das Meias? Ao levantar-se viu um pequeno papel manuscrito no chão, e reconheceu a letra do pai: “Nove horas e quinze minutos. Que hora tão improvável”.

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