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A camioneta
chegou dentro do horário previsto e quando as portas se abriram o detetive
reparou que havia dois passageiros. O motorista tinha uma elegância natural e
um sorriso contagiante.
- Entre senhor…, –
e olhou para uma lista que estava colada no vidro, – … Narciso Sarapitola
Figueiredo Baeta.
- Boa-noite a
todos, – cumprimentou, olhando.
A mulher que se
sentava numa das cadeiras da frente, estava silenciosa, discreta, com um olhar
que não se sabia se severo ou reflexivo. Ao fundo, deitado num banco corrido um
homem dormia. A entrada do veículo presenteou-o com uma corrente de ar fresco e
doce. Escolheu ao acaso um lugar e saiu-lhe o número treze.
- Regressa a
casa? – Perguntou o motorista fechando as portas.
- Já estou com
saudades.
- Todos nós temos
saudades, mas infelizmente estamos condenados a longos, lendários e solitários
passeios. O problema é quando Laputa nos contrata. Pensamos que é ir e voltar
num pulinho, mas o regresso pode não ser ao mesmo lugar.
- O que é que
quer dizer com isso senhor…
- Cabreiro
Maximiliano Ponta Mensageiro da Lua, – completou.
- Senhor
Maximiliano…
- O nome todo, e
sempre pela mesma ordem.
- Senhor Cabreiro
Maximiliano Ponta Mensageiro da Lua, o que quer dizer com um regresso a um
lugar diferente?
- Não ligue, é
filosofia minha. O Universo é um poço cheio de culpa e acasos dolorosos. Veja o
senhor Paulo Prestes que ressona ali atrás. Está aqui há tanto tempo que já
notei que perdeu as restrições filosóficas, éticas e morais indispensáveis para
um funcionamento regular e saudável da vida social. A Rita Bouvalier veio
depois e sofre uma devastação emocional que a está a empurrar para o limiar do
abismo. Felizmente já não há mais ninguém para entrar, o senhor é o último.
O motorista explicou
que a mitologia grega fora a que se aproximara mais da verdade do Universo,
desenhado e criado por Laputa. Deus definira Leve, a Terra, como o centro e
enviara Adão e Lilith para a povoarem. Mas os anjos interpretaram as coisas à
sua maneira e erraram, tendo dado origem a uma tragédia. Tentaram disfarçar com
Eva, esquecendo-se da omnipresença de Deus. Cnossos, um dos labirintos de
Creta, fora feito à imagem do Cérebro, o bilhete de identidade de todos os
seres do Cosmos, cujo modelo era Laputa. Assim como tínhamos de habituar os
olhos ao escuro, no labirinto os homens eram obrigados a recriar na sua alma,
através dos seus pensamentos secretos, a imagem de Deus.
- E Lilith?
- Está quase a
regressar a Deus, falta somente entregar as três últimas “ideias” e a seguir
renascerá a nossa deusa mais querida. Haverá uma violência boa?
- Essa foi uma
das perguntas que o Anjo do Tempo me fez, antes de entrar em Laputa.
- São as “Chaves
de Laputa”.
- Respondi que a
violência boa é aquela que repõe a ordem.
- E o que é a
vida?
- A vida é isto,
é a coerência da criação.
- Chegámos, –
gritou o motorista, – finalmente chegámos ao destino.
Paulo e Rita
saíram e passaram por uma porta, desaparecendo na escuridão. O sentimento de
abandono e de solidão tinha-os tornado uns autómatos. O detetive ficou à
conversa com o motorista, ambos fumando pensativos um cigarro.
- Senhor Narciso,
o senhor conheceu o meio do Universo, irá agora conhecer as extremidades.
- Tenho de passar
aquela porta?
- Sim, é esse o
seu destino. O Mundo está desequilibrado e a Humanidade ferida de vícios
insanáveis, mas brevemente haverá concórdia e apaziguamento. Lilith mimava
Laputa e é disso que vocês sentem falta.
Subitamente
sentiram um cheiro adocicado, penetrante, fétido e nauseabundo.
- Aproxima-se um
Papão.
- Um Papão?
- Sabe senhor
Narciso, o melhor truque do Diabo foi convencer o pessoal de que não existia.
- Isto é tudo tão
obscuro e sem lógica. Porque é que Deus me contratou?
- Da mesma forma
que só recorda, não as palavras dos seus inimigos, mas o silêncio dos amigos. O
senhor saiu do estado amorfo da sua existência para um mundo fantástico, a que
só alguns têm direito. O seu inconsciente estava tão cheio de fatalismo, que a
única ligação que arranjou, enquanto pôde decidir, para ir ao encontro dos
anjos, foi um WC de um Centro Comercial. A Banda 2 do Espectro chama por si!

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