sexta-feira, 13 de março de 2026

15 - Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua

 

15

A camioneta chegou dentro do horário previsto e quando as portas se abriram o detetive reparou que havia dois passageiros. O motorista tinha uma elegância natural e um sorriso contagiante.

- Entre senhor…, – e olhou para uma lista que estava colada no vidro, – … Narciso Sarapitola Figueiredo Baeta.

- Boa-noite a todos, – cumprimentou, olhando.

A mulher que se sentava numa das cadeiras da frente, estava silenciosa, discreta, com um olhar que não se sabia se severo ou reflexivo. Ao fundo, deitado num banco corrido um homem dormia. A entrada do veículo presenteou-o com uma corrente de ar fresco e doce. Escolheu ao acaso um lugar e saiu-lhe o número treze.

- Regressa a casa? – Perguntou o motorista fechando as portas.

- Já estou com saudades.

- Todos nós temos saudades, mas infelizmente estamos condenados a longos, lendários e solitários passeios. O problema é quando Laputa nos contrata. Pensamos que é ir e voltar num pulinho, mas o regresso pode não ser ao mesmo lugar.

- O que é que quer dizer com isso senhor…

- Cabreiro Maximiliano Ponta Mensageiro da Lua, – completou.

- Senhor Maximiliano…

- O nome todo, e sempre pela mesma ordem.

- Senhor Cabreiro Maximiliano Ponta Mensageiro da Lua, o que quer dizer com um regresso a um lugar diferente?

- Não ligue, é filosofia minha. O Universo é um poço cheio de culpa e acasos dolorosos. Veja o senhor Paulo Prestes que ressona ali atrás. Está aqui há tanto tempo que já notei que perdeu as restrições filosóficas, éticas e morais indispensáveis para um funcionamento regular e saudável da vida social. A Rita Bouvalier veio depois e sofre uma devastação emocional que a está a empurrar para o limiar do abismo. Felizmente já não há mais ninguém para entrar, o senhor é o último.

O motorista explicou que a mitologia grega fora a que se aproximara mais da verdade do Universo, desenhado e criado por Laputa. Deus definira Leve, a Terra, como o centro e enviara Adão e Lilith para a povoarem. Mas os anjos interpretaram as coisas à sua maneira e erraram, tendo dado origem a uma tragédia. Tentaram disfarçar com Eva, esquecendo-se da omnipresença de Deus. Cnossos, um dos labirintos de Creta, fora feito à imagem do Cérebro, o bilhete de identidade de todos os seres do Cosmos, cujo modelo era Laputa. Assim como tínhamos de habituar os olhos ao escuro, no labirinto os homens eram obrigados a recriar na sua alma, através dos seus pensamentos secretos, a imagem de Deus.

- E Lilith?

- Está quase a regressar a Deus, falta somente entregar as três últimas “ideias” e a seguir renascerá a nossa deusa mais querida. Haverá uma violência boa?

- Essa foi uma das perguntas que o Anjo do Tempo me fez, antes de entrar em Laputa.

- São as “Chaves de Laputa”.

- Respondi que a violência boa é aquela que repõe a ordem.

- E o que é a vida?

- A vida é isto, é a coerência da criação.

- Chegámos, – gritou o motorista, – finalmente chegámos ao destino.

Paulo e Rita saíram e passaram por uma porta, desaparecendo na escuridão. O sentimento de abandono e de solidão tinha-os tornado uns autómatos. O detetive ficou à conversa com o motorista, ambos fumando pensativos um cigarro.

- Senhor Narciso, o senhor conheceu o meio do Universo, irá agora conhecer as extremidades.

- Tenho de passar aquela porta?

- Sim, é esse o seu destino. O Mundo está desequilibrado e a Humanidade ferida de vícios insanáveis, mas brevemente haverá concórdia e apaziguamento. Lilith mimava Laputa e é disso que vocês sentem falta.

Subitamente sentiram um cheiro adocicado, penetrante, fétido e nauseabundo.

- Aproxima-se um Papão.

- Um Papão?

- Sabe senhor Narciso, o melhor truque do Diabo foi convencer o pessoal de que não existia.

- Isto é tudo tão obscuro e sem lógica. Porque é que Deus me contratou?

- Da mesma forma que só recorda, não as palavras dos seus inimigos, mas o silêncio dos amigos. O senhor saiu do estado amorfo da sua existência para um mundo fantástico, a que só alguns têm direito. O seu inconsciente estava tão cheio de fatalismo, que a única ligação que arranjou, enquanto pôde decidir, para ir ao encontro dos anjos, foi um WC de um Centro Comercial. A Banda 2 do Espectro chama por si!  

 

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