quarta-feira, 11 de março de 2026

14 - Deus Moribundo

 

14

O lago estava sujo e perdido para a alegria, tão triste e ausente. Deus existia mas estava com pouca vontade para tal, o Seu brilho desaparecera, tinha nódoas de sombra e poeira nas barbas, tentava lutar pela sua amada, mas os olhos revelavam-se surpreendidos e assustados. Havia um tremor nos que o rodeavam, tudo morria um pouco neles.

- Tudo flúi, há sempre mudança, - disse Arphaxat, encostando-se ao detetive Narciso Baeta, pelo lado esquerdo.

- Toda a mudança é uma ilusão, – exclamou Zoroem, aparecendo no lado direito.

- Se o senhor tivesse chegado aqui pelas vias normais, o seu retrato teria sido este, – e Araphaxat mostrou-lhe a imagem do momento da sua morte.

O detetive reparou que Deus estava numa espécie de casulo, era seco, frio, esquivo e melómano. Lilith tinha sido uma preciosa fonte de vida, de quem dependeu a criação de um punhado de planetas, alguns dos quais desdobraram-se e brotaram uns dos outros como cogumelos num bosque. Ela possuía a “alegria da vida” e enquanto viveu Deus fora perfeito, brilhante e sofisticado. Quando o senhor Narciso Sarapitola Figueiredo Baeta entregou o cofre com algumas das ideias que tinha conseguido juntar, a água começou a ganhar cores e formas, e Deus desapareceu no meio de nostálgicas quedas de luz.

- O seu regresso vai ser feito através das memórias, pessoal, coletiva e reinventada, – explicou o Anjo Pipoca

Tudo se resumia a uma questão amorosa, que tinha de ser resolvida para que a salvação do Mundo fosse ainda possível. O detetive estava numa estrada escura sem fim, com uma mala de viagem junto a si. E quando pensava que não conseguiria sair daquele cenário lúgubre, onde tinha começado a chover, alguém o chamou:

- Senhor Narciso, estou aqui para o guiar nesta terra no limiar das trevas.

Viu uma mulher alta de aspeto oriental, com umas botas de biqueira de aço, um casaco de cabedal por cima de um vestido amarelo e um cinto com balas vazias.

- Nem toda a fé está perdida.

- Onde estou? – Perguntou, revelando um inconformismo perante o destino.

Moviam-se lentamente.

- Onde estamos? – Insistiu o detetive.

- De regresso a casa, - respondeu secamente a nova companheira.

- De regresso? – Narciso Baeta parou e agarrou-lhe no braço. – Bastava abrir uma porta e estava em casa.

- As portas que se abrem são só para a ida. É muito raro alguém regressar de Laputa, pois ela só tem um sentido. Eu vim contrariada de muito longe para o levar a casa, por isso não me faça perguntas, limite-se a acompanhar-me.

À medida que avançavam pela estrada que parecia não ter fim, o detetive notou que o cenário era de caos, anarquia, rebeldia e insurreição. Chegaram ao fim de algumas horas de silêncio absoluto a uma paragem de autocarro. Foi informado de que teria de esperar pelo próximo guia, que viria ao volante de um autocarro. O senhor Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua iria revelar-se um ser extraordinário, um sábio, uma pessoa dotada de uma verdadeira “cultura universal”, no sentido literal.

 

Sem comentários: