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O lago estava
sujo e perdido para a alegria, tão triste e ausente. Deus existia mas estava
com pouca vontade para tal, o Seu brilho desaparecera, tinha nódoas de sombra e
poeira nas barbas, tentava lutar pela sua amada, mas os olhos revelavam-se
surpreendidos e assustados. Havia um tremor nos que o rodeavam, tudo morria um
pouco neles.
- Tudo flúi, há
sempre mudança, - disse Arphaxat, encostando-se ao detetive Narciso Baeta,
pelo lado esquerdo.
- Toda a mudança
é uma ilusão, – exclamou Zoroem, aparecendo no lado direito.
- Se o senhor
tivesse chegado aqui pelas vias normais, o seu retrato teria sido este, – e
Araphaxat mostrou-lhe a imagem do momento da sua morte.
O detetive
reparou que Deus estava numa espécie de casulo, era seco, frio, esquivo e
melómano. Lilith tinha sido uma preciosa fonte de vida, de quem dependeu a
criação de um punhado de planetas, alguns dos quais desdobraram-se e brotaram
uns dos outros como cogumelos num bosque. Ela possuía a “alegria da vida” e
enquanto viveu Deus fora perfeito, brilhante e sofisticado. Quando o senhor
Narciso Sarapitola Figueiredo Baeta entregou o cofre com algumas das ideias que
tinha conseguido juntar, a água começou a ganhar cores e formas, e Deus
desapareceu no meio de nostálgicas quedas de luz.
- O seu regresso
vai ser feito através das memórias, pessoal, coletiva e reinventada, –
explicou o Anjo Pipoca
Tudo se resumia a
uma questão amorosa, que tinha de ser resolvida para que a salvação do Mundo
fosse ainda possível. O detetive estava numa estrada escura sem fim, com uma
mala de viagem junto a si. E quando pensava que não conseguiria sair daquele
cenário lúgubre, onde tinha começado a chover, alguém o chamou:
- Senhor Narciso,
estou aqui para o guiar nesta terra no limiar das trevas.
Viu uma mulher
alta de aspeto oriental, com umas botas de biqueira de aço, um casaco de
cabedal por cima de um vestido amarelo e um cinto com balas vazias.
- Nem toda a fé
está perdida.
- Onde estou? –
Perguntou, revelando um inconformismo perante o destino.
Moviam-se
lentamente.
- Onde estamos? –
Insistiu o detetive.
- De regresso a
casa, - respondeu secamente a nova companheira.
- De regresso? –
Narciso Baeta parou e agarrou-lhe no braço. – Bastava abrir uma porta e estava
em casa.
- As portas que
se abrem são só para a ida. É muito raro alguém regressar de Laputa, pois ela
só tem um sentido. Eu vim contrariada de muito longe para o levar a casa, por
isso não me faça perguntas, limite-se a acompanhar-me.
À medida que
avançavam pela estrada que parecia não ter fim, o detetive notou que o cenário
era de caos, anarquia, rebeldia e insurreição. Chegaram ao fim de algumas horas
de silêncio absoluto a uma paragem de autocarro. Foi informado de que teria de
esperar pelo próximo guia, que viria ao volante de um autocarro. O senhor
Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua iria revelar-se um ser extraordinário, um
sábio, uma pessoa dotada de uma verdadeira “cultura universal”, no sentido
literal.

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