terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

10 - Do encontro com o Anjo Confuso de nome Tátá e com um medo profundo

 

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Foi um encontro curioso quanto inesperado. Tátá era um anjo patético e confuso, defensor dos seres destituídos de afetos, com uma obsessão alucinante pela vida. Era considerado um ser notável, que transmitia energia e poder. Sentia-se a vibração no ar porque a frequência que emitia era forte. Estava sentado numa secretária junto à porta de acesso à Casa de Deus, e tinha por detrás de si, pendurado na parede, um quadro de grandes dimensões. E foi a pintura que primeiro chamou a atenção do detetive Narciso Sarapitola Figueiredo Baeta.

- Magnífica, que obra de arte!

- Representa Deus e foi pintado pelo único ser do Universo que O conseguiu representar: Da Vinci!  - Explicou o Espírito Livre.

O detetive imaginou-O em si. A pintura de Deus era a pintura do medo, do esplendor, do amor, da promessa, da ameaça. Ele sabia que por debaixo da claridade de Deus havia sempre uma escuridão.

- Eu nunca o imaginei assim, com uma forma. Sempre pensei em algo…gasoso, rodeado de luxos e extravagâncias.

Tátá nem levantou a cabeça, ignorou-os.

- Está a desenhar micróbios, - disse o Espírito Livre quando reparou que o detetive olhava para o anjo.

- Desenhar micróbios?

- É a função dele.

Do lado esquerdo havia uma enorme escadaria e foi por lá que seguiram. O detetive reparou que as paredes estavam cheias de “graffitis”, com representações da morte, da vida e dos sentimentos, que no seu caso estavam à flor da pele.

- Um momento, – chamou alguém quando o detetive se preparava para abrir a Porta de Deus.

Era o Anjo Confuso, que odiava e amava demasiado as pessoas ao mesmo tempo. Odiava-se a si mesmo, odiava a sua essência interna, a sua ternura, a gentileza extrema, a fragilidade. Pertencia a uma família de diabos de cauda curta, que o tinham renegado. As suas inseguranças e fraquezas perseguiam-no, desafiava a morte como incentivo para a vida, e isso era muito doloroso e triste para este anjo dotado de uma vontade indómita de viver. Acreditava que os momentos de solidão, reflexão e de tristeza eram fundamentais para se descer ao mais íntimo, ao mais profundo e ao mais negro, para assim se retirar de lá os impulsos para a vida.

- Cuidado com os efeitos perversos destes desenhos, – disse Tátá com uma voz cristalina, sem conseguir encarar os estranhos.

O Anjo Confuso tinha uma história tão longa e aventurosa como o território que representava.

- Senhor, sei o que procura. Consta que na “Colina de Ouro” em Bactria vive lá alguém com cinco “ideias” de Lilith.

- Bactria?

- É por aí, – respondeu Tátá, apontando para uma portinhola do lado esquerdo da grande.

Quando o detetive Narciso Sarapitola Figueiredo Baeta a abriu, viu que do outro lado o mar corria para eles enlouquecido e elegante, cheio de fluxos e refluxos, de correntes e remoinhos. Estava na cabine com os pés dentro de água.

- Meus senhores, houve uma rotura dum cano e a casa-de-banho vai ser encerrada.

O dia tinha chegado ao fim ia agora meditar e trincar qualquer coisa num dos fast-foods.

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