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Todos aqueles que
iam ao seu encontro, eram sempre recebidos com incerteza. Era o mais agressivo
e minimal dos demónios, acabando sempre por gerar tanto amores como ódios. Ele
encarava o “Livre Arbítrio” de uma forma espontânea, correndo muitas vezes o
risco de não perceber muito bem o que se estava a passar à sua volta. O “Lorde
Fantasma” tinha acesso às mais negras visões do mundo e aos subterrâneos onde
estavam guardados os terrores nocturnos e os seres de outras dimensões. Era uma
espécie de jardim zoológico. Aproximaram-se com precaução e curiosidade do seu
ninho, que mostrava a alegria da cor. Pediu-lhes para esperar um pouco, fazendo
sinal com o braço. Estava na parte final de uma corrida de lagartos, sentado
numa cadeira e olhando para um tronco.
- Sou um viciado
nestes jogos da quinta dimensão, que me distraem da guerra inacabada que Deus
não conseguiu resolver, – explicou-lhes.
Tinha uma voz
suave e meiga.
- Antes Deus
criava as verdades, como o Tempo, mas agora apareceram outros com criativas
controvérsias e novas Ideias, e o Caos está à espera do momento para atacar, –
continuou, ajeitando um dos corredores que se tinha despistado. – Leve começou
a exportar a intolerância, que tem afetado, e muito, a evolução das outras
espécies. Deus não tem ilusões sobre as fraquezas, as demências e os crimes dos
homens. Mas o Seu otimismo assenta no facto de eles serem capazes de criar o
sublime, e assim conseguirem acalmar o nosso descontentamento. É por isso que é
considerado um povo mitológico.
- Um povo
mitológico?! – Perguntou o detetive Narciso, olhando fixamente para o Lorde. –
A maioria é só bêbados e chungosos!
- Foram os únicos
dotados por Laputa com comportamentos prescritos, mas com a evolução adquiriram
outros, não previstos, que os tornaram sanguinários, ferozes, com uma ganância
ilimitada, apesar de conservarem ainda as marcas de Deus, a música, a poesia e
a matemática.
- A música há
para todos os gostos, a poesia ainda escapa, agora a matemática! – Indignou-se
o senhor Baeta.
- Mas o mundo
deles tornou-se fechado e previsível, – acrescentou o Espírito Livre. – O seu
Eterno Retorno deixou de ser seletivo.
- É a encenação
do conflito e da desordem, mas no fim Leve terá de ficar pacificado, senão pelo
castigo dos prevaricadores, pelo menos pela compreensão dos seus pecados, –
explicou o Lorde. - Narciso, aqui tens o véu sagrado da deusa Lilith, onde
terão de ser depositados os pedaços de Lilith, para que Deus os junte. O véu
indica o caminho para Laputa.
O detetive sabia
agora que estava perto do seu destino, mas a investigação ultrapassava tudo o
que tinha imaginado. Teriam sido os honorários suficientes? Compreendia agora
porque é que o Espírito Livre exigira uma gota do seu sangue para a assinatura
do contrato. A sua alma já não lhe pertencia, estava algures cativa num
qualquer canto do Universo. Só lhe restava ir descansar para o seu Mundo
Aparente, onde abrira escritório.

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